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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 12/13

Um dos belos cantores foi o Luiz Cláudio

Tacioli – Mas, Pelão, essa mudança da indústria do disco impactou bastante pra você, para os artistas, como foi essa virada?
Pelão – Pra todo mundo!
Tacioli – O que foi bom e o que não foi tão bom assim? Como você avalia isso?
Pelão – É bom para os grandes nomes, porque alguns mandam piratear o próprio disco e vendem em grandes shows, ganham uma grana; não recolhem direitos, não recolhem porra nenhuma, e pagam três reais em um disco que vendem por vinte. Um dia eu estava numa cidade do interior e vi um caminhão descarregando um monte de caixa de discos. Falei para um amigo meu: “Quem mora aí?”. “É aquele famoso!” “Ele compra disco de caminhão?” “Não, Pelão, isso veio do Paraguai!” Antigamente tinha um escritório no Conjunto Nacional em que você escolhia os discos que você queria. Tinha uns catálogos assim mais grosso que lista telefônica. Mas tinha de tudo: “Você quer o Sinatra? Você quer a vida toda dele em disco? Tudo o que ele gravou? Ou quer qual música?”. Pedia, pagava e te entregavam na sua casa.

O cantor e compositor mineiro Luiz Cláudio de Castro (1935-2013). Foto: reprodução

O cantor e compositor mineiro Luiz Cláudio de Castro (1935-2013). Foto: Reprodução

Tacioli – Sob encomenda.
Pelão – Esse vinha da China. E tipo noventa centavos, não era caro. Eu gosto de ouvir rádio, mas mais atrás de notícias do que de música. De música já cheguei à minha conclusão: você faz a sua seleção e coloca a sua seleção.
Tacioli – Você faz a sua também, Pelão?
Pelão – Faço. Fiquei com um carro dez anos e fiz uma, toquei umas duas vezes ou três. Se você botar dez discos na disqueteira, você não vai ouvir dez horas nunca. Então, eu tinha um disco para cada momento, para ouvir na estrada. Um dos belos cantores brasileiros foi o Luiz Cláudio, é foda! Pena que não sei onde estão, porque ele passou para CD alguns (discos). Bom esse cara! Esse cara entrou num disco de modinha que eu fiz para a Internacional Seguros. Fiz o disco até o fim, mixei, mandei eles tomarem no cu e fui embora! Briguei com o cara lá, ele me encheu o saco e falei “Não trabalho mais aqui!”.
Tacioli – Mas o que foi que pegou ali, Pelão?
Pelão – Eu nem me lembro o que foi, foi coisinha à toa, acho.
Tacioli – Ouvindo a entrevista do Aramis, que você cedeu em meados dos anos 80, falando dos discos-brinde, e você comentava do disco de modinhas, e da importância desses discos para poder ter um respiro pra colocar o repertório antigo novamente na praça, nem que fosse como brinde de fim de ano de uma empresa.
Pelão – Mas isso ajudava e muito, mas hoje saem alguns, saem muitos. Sabe como? O seu papai uma empresa, eu sou seu filho, estou tocando aqui no banheiro com os amigos, falo “Papai, vou escrever o meu projeto na Lei Rouanet. O senhor banca?”. Aí dá uma boa relação pai e filho, que descontam os impostos [risos].
Tacioli – Melhora a relação.
Pelão – Você entendeu?
André de Oliveira – Pelão, quando saiu o disco do Nelson Cavaquinho, o Tinhorão ele fala que “apesar da lenda criada em torno da figura de curioso trovador de cabelos brancos, faltava uma prova em disco”. E aí eu ia te perguntar qual era a lenda que tinha em torno do Nelson Cavaquinho, como ele era visto antes do disco?
Pelão – Eu não sei, o Tinhorão também escreve muita merda. Ele é meu amigo. Ele foi um cara importante. É ainda, está vindo. Como é essa frase?
André de Oliveira – Ele fala que apesar da lenda criada em torno da figura de curioso trovador de cabelos brancos, faltava uma prova em disco”. O que eu entendi daqui é que ninguém tinha esse registro dele.
Pelão – Até então não tinha tido um disco como o Nelson era, com o violão dele, com a voz dele. Ele tinha gravado um, mas sem o violão dele. O que é isso? [perguntando para Max Eluard]
Max Eluard – Memória.
Pelão – Ele apagou ali atrás?
Tacioli – Apagou.
Pelão – Mas que equipamento envenenado, né. Quando colocar no computador sai tudo escrito…
Max Eluard – Já transcreve, já edita…
Pelão – Já transcreve, já sai até editado. Eu não sei, você acha que valeu isso que eu falei?
Tacioli – Tudo o que falou, muito, Pelão, muito.
Pelão – O que você vai fazer com isso?
Tacioli – No Gafieiras a gente edita a entrevista e a publica na íntegra. A gente entrevistou recentemente, como você havia falado do Heraldo do Monte, conversamos também com ele.
Pelão – Ele falou?
Tacioli – Falou bastante.
Max Eluard – Foi uma bela conversa.
Pelão – E ele está morando onde?
Max Eluard – Pelão, vou pedir desculpas, mas vou ter de sair correndo, porque preciso pegar minha mulher e meu moleque na festinha.
Pelão – Você vai lá gravar eles! Tchau, velho, bom te ver.
Max Eluard – Tchau, bom mesmo.
Pelão – Desculpa qualquer coisa, se saiu algo errado.
Max Eluard – Foi lindo.
Pelão – Você não vai levar os microfones?
Max Eluard – O Ricardo leva tudo depois. André, valeu.
André de Oliveira – Valeu, Max!
Max Eluard – Depois a gente se fala.

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