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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 11/13

Waltel Branco, um maestro fantástico

Tacioli – E qual uma grande mentira da sua trajetória que sempre contam e você diz “Puxa, isso não é verdade, estão sempre falando de mim” ou de algum disco que você produziu, e aquela história vai sempre se replicando e…
Pelão – Como assim? Bem ou mal?
Tacioli – Bem ou mal. Algo como “sempre falam essa história mas não é verdade”. Uma mentira que se eternizou e virou uma verdade, sabe?
Pelão – Eu tenho pra mim um disco que eu gravei, até esqueci o nome, um tocador de cavaquinho, solista de cavaquinho de Minas, que veio com o regional dele gravar um disco na RCA, que foi pedido de um cara de vendas de lá, quando eu vejo tinha dois violões 7 cordas, e um brincando com o outro. Falei, pode ser um fazendo de seis e o outro de sete. Os dois tocavam o de sete! Porra, eu fiquei zonzo! “Não pode!” Eles brigaram. “Ou gravamos com os dois ou não gravamos!” E outra coisa que eu fiz que não morro de amores, que é um disco muito sofrível, a RCA me chamou para que eu colocasse uns músicos em cima daquele disco da Maria Bethânia em que canta Noel. É difícil, porque ela é tão naquela época, era um desastre. E os músicos que eu levei para colocar em cima era o Heraldo do Monte… Então, os músicos mesmos paravam a gravação e “Pelão, quem fez isso?”. “Eu não sei, mas vai continuar aí!” Esse disco eu não gostei de ter feito, porque pra mim depois de Caymmi e João Gilberto a Bahia fez mais nada. Não pergunte o que eu acho do João porque vou falar que acho o João um maluquinho de pedra, porque não é maluco, ele é vivo, faz aquele gênero dele. Na música brasileira temos uma meia dúzia assim. Quando eu era do Musical, era o único cara do Musical que qualquer coisa eu falava direto com o Boni, então eu trabalhava muito com o Guto, então eu ajudava em trilha de novela, essas coisas. Em um programa do João Gilberto, eu estava na sala do Boni para outra coisa, eu estava no Sexta Super, sei lá, aí entrou o Guto com uma cara branca, “Não vai dar, não vai dar!”. “Não vai dar o quê, porra?!” “Não chegaram os arranjos!” No dia seguinte seria a gravação do programa do João, um especial, aquele com o nome todo dele. [n.e. O especial João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, dirigido por Daniel Filho e com direção e produção musical de Guto Graça Mello, foi exibido na TV Globo em 5 de setembro de 1980. No mesmo ano ganhou versão em LP] “Não vai dar! O Claus não mandou os arranjos!” [n.e. O compositor alemão Claus Ogerman, 1930–2016, arranjador de diversos discos de Tom Jobim] E como é que faz, como é que não faz, não tem mais como chegar para amanhã. Aí entra o Waltel Branco, um maestro fantástico, grande violão…

O violonista, arranjador e maestro paranaense Waltel Branco (1929) e seu álbum Meu balanço (1975). Fotos: reprodução

O violonista, arranjador e maestro paranaense Waltel Branco (1929) e o emblemático LP Meu balanço (1975), marcado pelo soul, funk, bossa nova e psicodelia. Fotos: Reprodução

Tacioli – Paranaense, né?
Pelão – É, paranaense, que é um maluco. Ele foi pra Espanha, fez um concerto, chegou um cara baixinho, pegou na mão dele, “Parabéns, você é ótimo, podemos tocar juntos, vamos sair, vamos hablar!”. Ele: “Quem é esse chato?!”. Era o melhor violão que a Espanha já teve, velho, já morreu…
Tacioli – O Paco?
Pelão – Não, velho, já morreu.
Tacioli – O Segovia?
Pelão – Olha, amor, tem uma foto aqui eu sentado em uma bela cadeira! (…) Mas aí entra o Waltel e senta em um sofá lá atrás. [dirigindo-se à mulher novamente] Olha como eu estou bem sentado.
Mulher – É!
Pelão – E o Waltel: “O que vocês estão aí gritando? É sobre o programa do João de amanhã?” “É!” “E o que que tem?” “Não vieram os arranjos do Claus.” “Falem as músicas que eu faço os arranjos! Pelão, me bota um copista legal para fazer as partes (partituras), tá?” “Eu ligo para o Loser agora!” “Chama o Loser mesmo, aquele velho precisa trabalhar, e é bom.” Ele anotou as músicas. “A que horas ele ensaia amanhã? Às três horas? Está legal, às duas horas os arranjos estarão aí!” Duas horas o Loser traz os arranjos do Waltel. Waltel sempre foi muito amigo do João, mas quem estava com o cu na mão era a gente. O Alceu Bocchino era quem regia. Bocchino baixou a mão, entrou a orquestra, o João falou “Para, para, para!”. Pensamos, “Fodeu!”. “Vocês viram como o Claus está cada dia melhor?!” [risos] Deu uma tremedeira na perna que eu quase caí. E esse Waltel é o amigo do João. Ele foi depor naquele processo em que o João fez o show lá no Municipal, o João botou ele de testemunha. Aí a juíza perguntou: “Maestro Waltel Branco, o senhor conhece o senhor João?”. “Conheço.” “Então o senhor concorda que ele não pôde ir ao show porque estava doente, com uma gripe?” “Ah, pelo amor de Deus, doutora, a senhora também vai cair nessa? O João não vai mesmo! [risos] Era isso que a senhora queria saber? Posso ir embora!” E ele era testemunha do João e continuaram sendo amigos. [dirigindo-se à esposa Maria Cristina enquanto a equipe toma café] O que é essa que eu não ganhei?
Maria Cristina – É uma ….
Pelão – Não, amor, não serve assim, eles vão vir aqui outro dia em que você não vai estar aqui…
Max Eluard – Não vou sair mais daqui!
Tacioli – Amanhã a gente volta, Pelão! [risos]
Pelão – Vocês estão atrasados, não?
Max Eluard – É o limite da memória da câmera, não da nossa!
Pelão – Olha só aquele bolo português!
André de Oliveira – Muito bom o bolo.
Pelão – Só pra eles mesmo? [acende mais um cigarro] O bolo desce melhor com o café.
Max Eluard – Muito bom.
Pelão – Eu tive uma puta sorte, pena não ter nascido dez anos antes.
Tacioli – Por que, Pelão, não ter nascido dez anos antes…
Max Eluard – O que seria diferente?
Pelão – Seria dez anos sem mudar o mercado do disco; eu teria pegado o pessoal da década de 40, ou não, assim está bom…
Max Eluard – Difícil de avaliar…
Pelão – Eu conheci cada cara na minha vida. “Por que eu conheci? Eu fui falar com ele? Não, ele que foi falar comigo. Por quê?”

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