gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Pelão

Pelao_home_01

Pelão

parte 10/13

Eu ia de massagista do time

Tacioli – E por onde mais a música tem chegado pra você, Pelão? Você ouve (música) em casa?
Pelão – Eu escuto. Agora estou organizando todo o meu equipamento que andou dando uns piripaques. [olhando para a foto dada pelo Gafieiras] Mas eu era bonito, tinha uma cadeira boa no escritório. Eu vou mostrar para a minha mulher pra ver se ela vai buscar essa cadeira. Ela emprestou para uma amiga dela.
Max Eluard – E, Pelão, tem alguma coisa na música de hoje, que seja contemporâneo, e que te chama a atenção, que você acha interessante?
Pelão – Acho que não tem uma, não, tem várias.
Max Eluard – Contemporânea que eu digo é… O Guinga é contemporâneo, está aí fazendo disco, mas eu digo algo mais recente que o Guinga, algo que tenha surgido nos últimos dez anos, que tenha chamado a sua atenção…
Pelão – Tem a dar com pau. Eu não vou falar um nome porque vão faltar uns quinze. Como outro dia eu vi uma portuguesinha chegar num bar e cantar… Eu queria me suicidar, puta que o pariu! Aí eu fui bater um papo com ela – veja que do caralho! -, eu falei: “Você canta música brasileira?”. “Canto.” Ela conhece muita, mas muita música brasileira. “Mas você tem sempre sotaque!” “Você se engana, eu sei cantar sem sotaque, mas eu sou portuguesa, porque vou negar que sou portuguesa? Somente pelo meu sotaque que vão saber! Então, eu não o tiro!” Legal, né? Canta muito! Tem muita gente nova que tem a dar com pau. Precisava ser feito um festival dois ou três anos seguidos, ou quatro, para dar para o pessoal do primeiro e do segundo crescerem junto… Eu te falo: o João Bosco e o Aldir entraram quando acabaram os festivais. Aí eles demoraram quantos anos para aparecerem? Entenderam? Como tinham muitos outros ali que iam crescer naquele momento. Você cria um movimento, cria uma coisa crescente, mas nego faz o festival diferente. Você pode pegar os discos do MPB-Shell, umas coisas da Globo, o que nós lançamos ali, ficou, ficou mesmo. De vez em quando eu dou uma olhada e vejo, nem preciso escutar, ficou. Então, o Eduardo Dusek que não era nada, ficou. Esse era um maluco maravilhoso! Ficou, está aí, e fazendo um bom trabalho. Você tem que olhar, fazendo um festival, pra isso. Até escolhendo algumas músicas para colocar no festival.
Tacioli – E você ainda acha que o festival é a melhor forma de apresentar (artistas e músicas novos)…
Pelão – Sempre foi, desde Pixinguinha, do Ary Barroso. Ary Barroso apareceu num festival. Pixinguinha também participou… Estou falando de festival, mas antigamente era concurso em rádio, mas era um festival. Você apresentava 12, 14 ou 15 músicas e escolhia uma, um cara que ia gravar um disco.
Tacioli – Havia uma premiação…
Pelão – É, então era festival, não se inventou festival na Record, na Excelsior, na Globo. Nada disso! Tem o nosso diretor técnico aí… [risos]
Tacioli – Ele supervisiona tudo, do áudio ao vídeo.
Max Eluard – E depois escolho as fotos.
Tacioli – Pelão, não vamos alongar muito mais, não, mas somente para…
Pelão – Pode ir um pouquinho mais, só tenho que ver a minha novela às seis.
Tacioli – A novela é sagrada.
Pelão – A “Flor do Caribe”. É o Walter Negrão, que é um grande amigo meu, que é o autor. Eu encontro com ele e ele fala: “Pô, você viu que me fizeram com a música?”. “Ah, está legal!” “Ah, não fala que está legal, está uma merda, porque você não fez?” “Porque ninguém me chamou!”.
Tacioli – Você sempre gostou de novela, Pelão?
Pelão – Não muito, agora é o meu jeito, não estou saindo. Eu aprendi uma coisa com o Dorival Caymmi. Você ligava pra ele por volta das oito horas e ele não podia atender porque estava vendo o Jornal Nacional. Todo mundo sabia disso. Eu ligava às oito para falar com ele porque era mais tranquilo, ele me atendia. “Você eu atendo, mas o resto eu não atendo!” “Mas se o Jorge Amado te ligar?” “Esse fica maluco quando falo que estou vendo o Jornal Nacional e não posso atender. Ele quer saber o que eu sei que ele não sabe! Eu dou muita risada.” Me ligam às seis horas e eu falo “Estou vendo novela”.
Tacioli – O melhor horário pra ligar pra você é depois do meio-dia até às seis horas.
Pelão – É! E depois das oito se quiser marcar no Alemão. É um bar simpático! Stalin, Churchill, Prestes Maia e eu. Só funcionamos depois das onze. [risos] Belo time o nosso, né?
Tacioli – E, Pelão, qual é a sua melhor antítese? Qual é o negativo do Pelão?
Pelão – [falando baixinho] O negativo do Pelão? [silêncio] É você um dia me ver num karaokê! [silêncio] Pode abater, dar tiro, que…
Max Eluard – Que não sou eu! [risos]
Pelão – Que não sou eu e você vai ser absolvido. [risos] Não tenho nada a ver com isso!
Tacioli – E futebol, você gosta?
Pelão – Palestra Itália! O Parmeira! Estamos bem, primeiro lugar estourado, 40 pontos, lá na frente, mas não me pergunta o nome porque eu não conheço ninguém daqueles putos, a não ser o Valdívia, que deviam dar um pé na bunda dele. Agora botaram ele jogando na segunda e ele fez até alguma coisa, mas eu prefiro que vendam ele pelo valor que nós pagamos, está bom. Esse é um safado! A saída do Marcos foi ruim, né, eu adorava o Marcos, adoro ele! Saída do Valdir de Moraes como treinador do Palmeiras, no dia em que mandaram ele embora, me mandaram. Eu tenho a carteirinha de sócio. No dia em que mandaram ele embora, me mandaram também. Eu saí e nunca mais eu pus os pés lá. Vamos ver agora, com tudo novo, se melhora. Vai ficar bonito!
Max Eluard – Se terminar!
Pelão – Termina!
Max Eluard – Nunca vi reforma de italiano terminar!
Pelão – Termina! [risos] Aquilo ali não é obra de igreja, não, de “Santi Graci”! [risos] É o Palmeiras! Não me interessa que é Segunda Divisão, mas o meu time está ganhando pacas, jogando bem, não é esverdeado, como é que é?
André de Oliveira – Luverdense.
Pelão – “És verduto?” Como é que é?
Max Eluard – Luverdense.
Pelão – Luverdense.
Tacioli – E no gramado, você jogava? Qual era a sua posição?
Pelão – Era meia-direita ou goleiro. Ou, se não tivesse vaga pra mim, quando estudei em escola agrícola, eu ia de massagista do time. Coitado, rapaz, um menino de Araguari, a gente jogava no interior, então, eu como massagista ficava no bar com o pessoal. Aí vieram correndo me chamar porque acertaram um nosso jogador, eu entrei em campo…
Max Eluard – Com o copo de cerveja na mão…
Pelão – Olhei, a perna dele estava inchada, mas não tinha jeito, aquilo era mandar para o cemitério ou para o hospital. Eu joguei um óleo ali e metia a mão com muita força. O cara berrava e os outros ficavam olhando. [risos] Eu precisava mostrar o meu trabalho de massagista.
André de Oliveira – Pelão, nessa época você já era o Pelão ou era o Pele Fina ainda?
Pelão – Não, Pelão! Esse negócio de Pele Fina não durou um mês. Eles viram que o negócio era mais embaixo.
Tacioli – Com um Pelão massagista eu também sairia correndo.
Max Eluard – Eu não me machucaria nunca! [risos]
Pelão – A gente viajava, a gente pegava o trem, saía de Jaboticabal e ia até Mutum. Mutum não cresceu até hoje, estão lá aquelas dez casas. Foi lá em Mutum que aconteceu isso. Eu esqueci o nome de goiano. Adorava ele, era um baixinho, ele era esperto. [dirigindo-se à Maria Cristina, sua esposa] Cadê o café?
Maria Cristina – Está pronto.
Pelão – Vocês querem cerveja?
Max Eluard – Não, um cafezinho.
Pelão – Café! A cerveja está cara depois que os banqueiros entraram na cerveja.
Tacioli – Pelão, e como meio-campo ou goleiro, teve alguma jogada que você sempre lembra?
Pelão – Eu fiz uma no basquete. A gente foi jogar em Monte Alto, e eu precisava entrar e jogar, né? Eu tinha ido com o time. “Eu entro jogando.” Bola vai, bola vem, aí eu peguei uma bola, não tinha cinco minutos de jogo. Eu saí correndo do lado esquerdo, mas quando vi que estava saindo fora (sic), correndo muito, eu fiz assim e dei um gancho. Chuá! Aí eu bati na mureta e pedi pra sair. [risos]
Tacioli – Foi a única jogada.
Pelão – Porra, mas comentada até hoje! [risos] Eu mesmo me emociono! Chuá! E numa outra, lá em Monte Alto também, teve uma saída, fizeram uma falta, falei “Deixa que eu arremesso”. Inauguração da quadra de vidro do time de Monte Alto. “Bonito o vidro, hein?!” “Bruuum!”
Max Eluard – Espatifou o vidro.
Pelão – Espatifou o vidro. Queriam me bater. “Não vem, não, porque vocês sabem que a minha mão é pesada! Não quero matar um!”
Tacioli – Nessa época você já tinha bigode e barba?
Pelão – Não. Tudo lisinho, bonitinho, rapaz de São Paulo.

Tags
Pelão
de 13