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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 9/13

A cabeça da Marcus Pereira era o Aluízio (Falcão)

Pelão – A minha mulher fez café e não serve, não sei! Mas essa fotógrafa é namorada sua?
Tacioli – Não!
Max Eluard – De ninguém, quero dizer, de nenhum de nós três.
Pelão – De nenhum? Ela pega na mão da gente e chacoalha a gente! [risos] Ela trabalha onde?
Max Eluard – Ela é frila, free lancer, trabalha como fotógrafa de vídeo e de foto fixa.
Pelão – Estamos gravando em HD, não, porque eu não falo em…
Max Eluard – Em HD.
Pelão – Em HD, né? Eu só falo em HD. [risos]
Tacioli – Pelão, como você avalia a experiência e a trajetória da gravadora Marcus Pereira?
Pelão – Teria sido uma bela experiência se não tivesse tido o Marcus Pereira, se fosse somente o Aluízio Falcão teria sido uma maravilha. A cabeça da Marcus Pereira era o Aluízio, agora o nome era aquele poço de vaidades que era o Marcus. Não vejo onde facilitou, não! Tanto que o Aluízio saiu e eu saí atrás dele.

O jornalista e produtor musical pernambucano Aluízio Falcão, diretor artístico da Marcus Pereira Discos e Eldorado Discos. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras.com.br

O jornalista e produtor musical pernambucano Aluízio Falcão, diretor artístico da Marcus Pereira Discos e Eldorado Discos. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras.com.br

Tacioli – Daí ele foi para a Eldorado?
Pelão – É, bem depois ele foi para a Eldorado. O Carlos Vergueiro levou ele pra lá. Eu acho que foi importante, acho que tem coisas ali nunca mais serão feitas, agora esse catálogo já passeou pacas. Já foi para a Copacabana, já foi para a W não sei o quê, já foi para o cacete. Agora está na EMI. Quer dizer, pra você usar qualquer coisa disso você vai ter que pedir para a Rainha da Inglaterra. É ruim, né? É isso que o país não enxerga, né. A Continental também. Daqui a pouco as nossas músicas, desde a edição e gravação, vão estar tudo na mão de estrangeiros. Já estão, falta pouco. E aí? Na situação de hoje você pede para uma Warner ou qualquer coisa do Tonico & Tinoco ou de lá atrás, dos caipiras, eles nem falam quanto eles querem. As últimas vezes comigo foram assim. “Qual é a sua proposta?” Eu coloquei a proposta em reais, né? Eles nem vão olhar. Um amigo meu de lá falou, “Pô, Pelão, em reais eles não olham!”. “Em dólar é um caminhão e aí eu me ferro!” Eu tenho esse do Carlos Cachaça, um do Quinteto e tenho mais um disco na Continental. Então, agora todo mundo grava e senta em cima, fica dono do fonograma. [n.e. Após o fechamento da Marcus Pereira, em 1982, seu acervo foi para gravadora Copacabana e logo em seguida para a ABW. Atualmente, pertence à multinacional EMI]
André de Oliveira – Pelão, sua trajetória pessoal e profissional na Marcus Pereira foi muito boa, né? Em 74 você gravou esse, o Donga, Cartola…
Pelão – O Donga é um disco que os chorões aí choram de quatro quando o escutam. Falam muito bem. Lá eu fiz… Eu já tinha gravado na Odeon o Nelson Cavaquinho e o Adoniran. Aí o Théo ia fazer o Centro-Oeste e o Sudeste pra Marcus Pereira e me indicou. Então foi na hora: falei com o Aluízio e ele falou: “Fechado!”. Ô amor! “Fechado! Vem pra cá com a gente!” Aí ele viu que eu era meio foguete, eu fazia tudo rápido e a preços acessíveis, e com tudo assinadinho, todo mundo recebia o seu dinheirinho. O Música Popular do Nordeste começaram a entrar com processo contra eles, não pagaram ninguém. Aí eu fiz a História das Escolas de Samba, que eu acho legal, tem um disco do Evandro também, de choro, legal, eu fiz 14 ou 16 discos lá.
André de Oliveira – Você acha que foi sua fase mais produtiva na carreira?
Pelão – Me deixavam eu fazer, né? Então, eu acabava um e começava outro. Eu tinha uma pauta de 30, 40 discos pra fazer e depois o Aluízio fez uma parte na Eldorado e também o pessoal da Marcus Pereira fez alguns mais. Eu simplesmente não falo nada, não ouvi, não vi… Posso até falar que gosto muito, não vou discutir, minha gente! Tem muito burro dando murro em ponta de faca, e isso dói. E você vê quando eu fiquei doente, eu sei quem telefonou ou foi me visitar. Eu fiquei três meses no hospital, 90 dias! Pessoal de bar, garçom, dono de bar, foi um monte. Temos que saber que, em pelo menos em um lugar, estamos bem. E música também: o Cléber Tófoli, de Londrina, é incrível. Ele é um professor universitário, de matemática, pode? Ele entende de música caipira. Tem um programa de rádio que é um dos mais ouvidos em Londrina, música caipira.
Tacioli – Que é um tipo de música que você gosta também, né, Pelão?
Pelão – Eu gosto da música boa caipira. Você vê, o negócio de voz e viola que eu fiz no primeiro disco do Roberto Correa com a Inezita, eu peguei o título do programa dele que ele tem na rádio lá em Londrina há 25 anos. É um grande irmão esse Cléber Tófoli. Esse sabe mesmo! Música caipira não abro a mão em ficar perto dele. Eu comento alguma coisa. Ele fala: “Você sabe!”. “Eu não sei, fala você!” E ele fala. Então, esses irmãos que você tem espalhado pelo Brasil, cara que vira seu compadre, cara que já andou muito com você, cara que já passou muitas coisas boas e ruins ao seu lado, é legal! Você sabe que a informação dele é verdadeira. Se ele não souber, ele fala “Não sei!”. Ele fala direto: “Isso eu não sei!”. Tem gente que não fica sem responder a uma pergunta. Pode ser qualquer fórmula de Física, o cara fala “Eu acho que…”, entra o achismo no meio e você se fode. Esse “eu acho” precisa se tomar muito cuidado, você pode achar merda.
Tacioli – E o Aluízio Falcão que, como você falou, ele era a alma da Marcus Pereira. Você fala com ele?
Pelão – Eu falo pouco com ele, gostaria de falar mais. A última vez que eu liguei pra ele disse que estava tomando água. Aí eu falei marca de três águas que eu tenho em casa. “Vamos degustar uma água qualquer dia?!” Ele riu muito. É casado com a Nina, outra boa figura. É uma pena, não falo muito com ele. Falo mais com o parceiro dele, o Carlinhos Vergueiro, que assina como J. Petrolino. Fui eu que dei esse apelido pra ele.
Tacioli – De onde veio esse apelido?
Pelão – A gente estava no Rio. “Esperaí que eu preciso passar petróleo na cabeça!” Petróleo era um óleo pra passar no cabelo pra pentear. Eu falei: “Ô, J. Petrolino, vamos embora!”. E aí ficou. Nós temos muitas horas de bar e de papo.
Tacioli – Pelão, e esses roteiros noturnos dos anos 60 até hoje…
Pelão – Agora estou proibido de dirigir, que é a única coisa que eu levo a sério, melhor andar de táxi, mas tem (umas horas) que é ruim sair sem carro. Estou indo mais ao Alemão. Eu retornei ao Alemão, porque há um tempo o Flavinho comprou e trouxe o Eduardo Gudin como sócio. Graças a Deus, eles salvaram o bar! Voltou a ter música. Não adianta, aquilo não dá grana, dá uma merrequinha, é pequeno. “Mas como não dá grana?” Pô, não tem onde as pessoas sentarem! Vai sentar na minha cabeça? Não vai! Onde eu sento cabe um só e eu sou folgado. Sabe onde você conhece o garçom há 27 anos, o tirador de chope há 25, é tranquilo.
Tacioli – O Bar do Alemão é a capa do primeiro disco do Gudin, né?
Pelão – É. Eu estava lá atrás do câmera falando, “Entra você, sai você”!
Max Eluard – Dirigindo a cena.
Pelão – Estava lá. Outro lugar em que eu vou é no Pasquale. O Pasquale tem um restaurante, bela cantina italiana, gosto muito, e ele é um italiano compositor de samba, fundador do Pérola Negra, maravilhoso. É até um pouco engraçado porque nesse negócio de música, de samba, ele fica bravo. Ele tem a ala dele, ele e a mulher dele, todo mundo tem ala no Pérola Negra. Então é legal, de vez em quando eu vou lá ter uns papos com ele e com uns amigos que frequentam lá. Daí é só a turma do Partidão, do velho Partidão.

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