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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

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O homem verde da noite

Um dos principais produtores de discos do Brasil, João Carlos Botezelli, o Pelão, vive cada vez mais distante da boemia que tanto o inspirou. Um AVC (acidente vascular cerebral) quase o tirou de campo há pouco mais de quatro anos e encoleirou parte de suas paixões: o uísque, as noitadas e o Malboro, que ainda dribla ressalvas e orações.

Nascido em 1942 em São José do Rio Preto (SP) e criado em São Paulo, este filho de italiano deixou de lado os ensinamentos da escola agrícola para se formar com a orquestra de Enrique Simonetti (1924 – 1978), maioral nos salões dos anos 1950 e 60. O maestro italiano levou o garoto para a TV Excelsior, onde daria seus primeiros passos profissionais. Na juventude ainda trabalharia em escritório de publicidade, festivais de música popular, e iniciaria a milhagem pelos bares das capitais paulista e carioca. Desses, o Jogral, casa de samba criada em 1964 pelo compositor Luiz Carlos Paraná (1932 – 1970) na Galeria Metrópole, centro de São Paulo, foi essencial para concretar sua devoção à cultura popular. Pelo histórico reduto de jornalistas e intelectuais passariam nomes como o de Paulo Vanzolini, Chico Buarque, Martinho da Vila, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Adauto Santos e Inezita Barroso. Ali também nasceria o selo Marcus Pereira, crucial na trajetória de Pelão.

Possivelmente a gravadora independente de maior legado na fonografia brasileira, a Marcus Pereira foi concebida e gerida pelo publicitário de mesmo nome sob o estatuto de registrar e difundir as coisas do “Brasil autêntico”. Em sua curta existência (1973 – 1981), parte dos 144 títulos lançados teve a mão e a cabeça de Pelão. Discos do trombonista Raul de Barros, do clarinetista Abel Ferreira, do pioneiro do samba Donga, de uma série sobre música popular do Sul e Centro-Oeste, e quatro álbuns de escolas de samba do Rio de Janeiro multiplicam a importância do selo e do produtor. Como se não bastasse, em 1974, Pelão, via Marcus Pereira, lançou o primeiro disco individual de Cartola; e também o de estreia de Adoniran Barbosa, mas por outra gravadora, a multinacional Odeon. E foi por ela que deu às boas-vindas ao mercado um ano antes, com o LP Nelson Cavaquinho (1973), o segundo do sambista mangueirense. A trinca de obras-primas (Nelson/Adoniran/Cartola) criada em menos de dois anos projetou o nome de Pelão junto ao meio artístico e à imprensa. Responsável não somente pela existência, mas pela forma, ele deu uma aula de produção nesses clássicos da fonografia brasileira: sem caricatura, a carga dramática dos protagonistas é dona do primeiro plano.

Seu trânsito pelo mundo do disco deixou marcas em diversas gravadoras, como na citada Odeon, na nascente Eldorado, para onde foi levado em 1975 pelo jornalista e diretor artístico Aluízio Falcão após saíram da Marcus Pereira, na extinta RGE e no selo Velas, de Vitor Martins e Ivan Lins. Na década de 1980, criou e produziu para a Elebra, empresa do setor de eletrônica, a série Memória, seis discos-brindes com repertório de música popular brasileira. No período em que residiu no Rio de Janeiro, no fim dos 1970 e início dos 1980, pela TV Globo, atuou na criação do especial Esses Músicos Notáveis e Seus Instrumentos Maravilhosos (1979) e do programa Festa do Samba (1980), além de produzir o festival MPB-Shell (1981/82).

Com o amigo e jornalista Arley Pereira, encabeçou nos anos 2000 A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes, projeto viabilizado graças à parceria entre a Fundação Padre Anchieta e o Sesc/SP, que reeditou em CD e livro dezenas de títulos dos programas MPB Especial e Ensaio, criados por Fernando Faro nas TVs Tupi e Cultura.

Pai de duas filhas, casado desde 1979 com Cristina e morador há mais de 30 anos do bairro das Perdizes, em São Paulo, Pelão recebeu em 2013 o trio de entrevistadores e a fotógrafa Thais Taverna para um papo de duas horas de duração. Quitação de uma dívida antiga do Gafieiras, esta entrevista revela que sob a feição carrancuda está um sujeito que se emociona com facilidade, zeloso das amizades, das boas histórias e da boemia. Dela se tornou um amante à moda antiga. Lamas, Riviera, Jogral, Bar do Zé, Parreirinha e Bar do Alemão são algumas das testemunhas de como se tornou tão personagem da cidade como seus amigos Paulo Vanzolini e Adoniran. É um “homem verde de noite”, referência setentista àqueles que dormem de dia para viver à noite. Desconhecido da maioria, Pelão tem em muitas de suas criações a eternidade que tantos pagam para sonhar.

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