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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 6/27

Pensam que a gente é casado

Gafieiras – Há um mercado de música infantil consistente ou se depende muito de ações do poder público como essa da Prefeitura de São Paulo?
Paulo – Existe um mercado que se sustenta. Esse mercado existe, mas a gente precisa saber onde ele está e como explorar. A gente é tímido nisso.
Sandra – Tímido e com pouco dinheiro.
Paulo – Digamos que se a gente arriscasse colocar um anúncio no rádio ou numa revista de grande circulação, gastaríamos 20 mil reais e recuperaríamos em um mês, mas a gente não tem bala. A gente age naquele limite do músico independente que é um pouco mais do que os outros músicos independentes por causa do nosso mercado que é maior. A gente não tem grandes vôos, porque falta um parceiro entre nós que não seja músico, e sim que seja da área comercial, que faça umas ações mais ousadas. “Vamos fazer essas ações aqui: vamos botar um anúncio na Rede Globo e para isso temos que ter não sei quantos CDs no estoque…”. E assim ter aquele retorno, mas não existe essa pessoa.
Sandra  Agora tem uma coisa muito engraçada que a gente observa cada vez mais. Todo mundo acha que a gente tem tudo, acha que a gente tem grana. Agora nós estamos com cinco funcionários: a Teresa, a Mônica, a Bete, o Carlos e o Jorge. Desses, apenas dois são registrados, os outros recebem por contrato. Até esses dias a gente estava sendo chamado pra fazer algumas coisas para publicidade. Fazia tempo que não nos chamavam – como autores da Palavra Cantada. Isso já aconteceu em alguns momentos e esse mês calhou de ter duas convocações. E um dos primeiros que ligou, falou: “Olha, você desculpe se foi uma bobagem eu ter ligado”. Eu falei: “Bobagem é não ter serviço!”. Eu falei pra essa pessoa: “Você pode ligar pra qualquer artista que você está vendo aí, tirando aquele time A de música popular. Você pode ligar pra qualquer um que ele vai topar”. As pessoas acham que a gente tem tudo, acham que a gente trabalha num pátio que tem um monte de crianças brincando. Isso eu já ouvi muitas e muitas vezes.
Gafieiras  Eu não estava pensando no pátio, mas pensei numa casa, num sobrado.
Sandra – É, uma casinha… Primeiro pensam que a gente é casado, que a gente tem um pátio e que não precisa de grana.
Gafieiras – Que vocês passam o dia inteiro tocando e as crianças correndo no quintal.
Sandra – É, a cigarra e a formiga. O pessoal cantando, a gente fazendo sanduíches… [risos] É impressionante, mas as pessoas acham…
Gafieiras  Como você acha que essa imagem de vocês foi construída?
Sandra – A partir do sucesso… Se você tem fama, você é bem-sucedido. Você de fato é bem-sucedido se você está na mídia, mas uma coisa não quer dizer a outra. Quantas pessoas que trabalham na Globo, atores aí, que eu sei que não ganham bem, que estão no começo da carreira, mas já são galãs… A gente tem um êxito artístico. Ainda hoje falei para a menina da agência… Fui lá e fiquei impressionada. Primeiro porque nunca vi um lugar tão absurdo, tão luxuoso, tão rico! Eu nunca havia visto um lugar assim, nem em produtoras que a gente conhece, de gente famosa. Era uma fábrica, um negócio absurdo, tudo de vidro. Você vai lá, Paulo, e você vai ver. Aí, entrei. E começou a descer um monte de gente que queria tirar foto e que pedia autógrafos para os filhos. E essa moça, que foi uma das que me ligou, falou: “Olha, desculpa eu ligar”. Falei? Imagina! Acho bom! ”. Então havia a coisa de eu estar lá, Palavra Cantada. Eles não têm noção. Ainda liguei e falei: “Já que o nosso êxito artístico é muito bom, mas a gente não tem aqui muita gente pra ajudar, será que você podia pedir pra alguém da sua fábrica buscar aqui um CD. Eu queria que o diretor de criação conhecesse. Estou curiosa pra pegar algumas músicas de referência pra esse trabalho”. Ela deu risada, e prontamente chegou alguém, muito rápido. O lugar é uma loucura! Há uma redoma, tem uma sala de vidro…
Paulo – Eu vejo assim o momento da Palavra Cantada… Pelo número de shows que se marca e desmarca… É muito gozado, a nossa agenda varia muito. Você tem uma excursão para fazer no Nordeste e, de repente, tudo aquilo se transforma num show só. Aí de repente pinta uma temporada em São Paulo, setembro, sábado e domingo, daí começa a fazer conta, e sai fora. Tá nesse ponto.
Sandra – Está meio frustrante…
Paulo  A gente fez o show no DirecTV, em que eu mesmo fiquei com medo de fazer. Medo porque lá tem 1200 lugares. E a gente fez e demos um salto. No ano passado a gente fez um dia no DirecTV e nesse ano a gente fez dois dias. E lotamos e ainda temos um em dezembro, porque eles querem um repeteco. Já tínhamos um negócio legal de lotar os SESCs e, agora, lotamos uma casa de espetáculos (DirecTV) que quem lota é quem está na mídia, gente que tem uma gravadora por trás, que tem mais infraestrutura por trás. A gente não tem. Estamos lá feito músicos independentes.
Sandra – Dependendo de tudp, como diz o Lenine.
Gafieiras  Músicos independentes dependentes.
Sandra – Esse é o nosso momento. Não temos uma multinacional que banca a gente. A gente tem a gente mesmo. A gente não tem ainda alguém que nos empresarie, como também não tem patrocínio.
Gafieiras  Vocês têm essa busca?
Sandra – Sim.
Paulo – Essa busca não é muito sistemática.
Sandra – Esse ano, patrocinador?
Paulo – Não, patrocinadores. A gente fica fazendo projetos, mas algo como um empresário, como um vendedor de show é uma coisa difícil de aparecer. É o tipo da coisa que deviam oferecer. A gente fala com um, com outro, mas…
Sandra  Essa moça da agência tinha um certo pudor.
Gafieiras  Como se fosse crime um artista ganhar dinheiro…
Sandra – Não é nem isso. É como se eles tivessem que ter cautela pra pedir pra uma pessoa conhecida fazer propaganda.

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