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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 4/27

Era muito comum dizer "isso é música de criança"

Gafieiras – Paulo, você falou que havia uma postura crítica em relação aos discos infantis daquela época, um olhar crítico ao que se produzia. Qual era essa postura crítica?
Paulo – Musicalmente, né, porque no Grupo Rumo a gente sempre elaborou muito os arranjos, sempre havia alguma idéia pra se dizer musicalmente. E para tudo o que era pasteurizado, não somente de música infantil, como da música em geral, tínhamos uma crítica. Música pop, música comercial, música que é feita pra vender rápido. Então era natural a gente fazer uma crítica. Como já tínhamos passado por essa experiência de música infantil, tínhamos visitado um pouco esse universo, né? Só que eu acho que com a Palavra Cantada a gente foi percebendo melhor uma coisa que pega mais a criança, na veia da criança, além do adulto, né?
Gafieiras  Mas, em que momento você começou a perceber isso?
Paulo  Acho que no Canções de brincar, porque o Canções de ninar, o primeiro, ainda havia um vínculo entre o adulto e a criança, é um disco em que um adulto sempre canta pra uma criança. Canções de brincar já é uma coisa que você já fala de criança pra criança. Ela pode colocar aquele disco e já aprender sozinha, usar aquela música… É mais lúdico! O Canções de ninar é mais poético. O Canções de brincartem uma coisa lúdica com a melodia e com as palavras. Por exemplo: “Quem é esse menino? / Esse menino é o meu vizinho / Onde ele mora? / Ele mora naquela casa”. Essa brincadeira de seqüência, que também pega a criança. E alguma coisa de humor, como: “Hoje eu sinto que cresci bastante / Hoje eu sinto que sou grande / Sinto mesmo que sou um gigante do tamanho de um elefante”. Aí você também pega, né?
Gafieiras  Você acha que pega mais pela letra?
Sandra e Paulo  Não, a melodia vem junto…
Sandra – A melodia é mais difícil de você pegar. Na parte do “Aniversário” que eu cantei, a melodia é mais emotiva para o dia do aniversário, dia em que a criança está mais emotiva, né?
Gafieiras  Eu sinto isso até hoje.
Sandra – Acho que o aniversário é uma data pra criança, o tema também é importante. Sobre o tema do aniversário você vai pensar somente pra fazer um CD pra criança, uma música infantil.
Gafieiras  E o tecladinho, a guitarrinha sintetizada, o que pega a criança que ela pede tanto para repetir a fita?
Sandra  A criança não classifica, ela não tem esse poder de saber o que é legal e o que não é.
Gafieiras  A letra também tem essa…
Paulo – Não, a letra, sim. Foram até as mesmas músicas que gravamos depois no Cantigas de roda, como “A canoa virou”, “Sapo Jururu”, “Pombinha branca”, essas músicas folclóricas, ou melhor, que restaram do folclore. De tudo que existia, sei lá, existem somente músicas folclóricas das quais vinte são muito legais. O que bate dessas músicas é a melodia, o fio melódico.
Sandra – E as brincadeiras.
Paulo – …E pros adultos é exatamente a interpretação e o arranjo daquilo lá, mas pra criança pega. “Pai Francisco entrou na roda? Comandando um batalhão…”
Gafieiras  Esse é o barato dele.
Paulo – Essas músicas já sofreram uma triagem que, independentemente do jeito que você cantar, elas vão pegar. O problema é o adulto, que tem um outro ouvido musical. Na época era muito comum esse negócio de “isso é música de criança!”. Aí entram toda a obra da Xuxa e da Angélica, que é composta de música de criança. O cara fecha a porta e deixa a criança no quarto, porque é ela quem gosta. Você não acompanha isso com a criança. E o que é legal no trabalho do Palavra Cantada desde o Canções de ninar é que a gente quer que o adulto curta aquilo junto com a criança, como um adulto que vai assistir ao filme do Pinóquio, como vai assistir à Era do gelo, vai assistir Schrek, entendeu? Algo que faça esse vínculo, que privilegie essa relação gostosa com a criança.
Sandra – E o que faz isso, que detona isso, não é que a gente faz música pro adulto querer ouvir com a criança. A gente faz uma música que a gente gosta de ouvir e como a gente é adulto e fica envolvido, naturalmente os outros adultos vão gostar. Não há uma coisa que: “A gente vai fazer isso porque o adulto vai gostar”. É o que a gente vai gostar. Não temos uma coisa, por exemplo, de fazer uma música e mostrar para algumas crianças verem se a música está legal. Nunca fizemos isso, nunca!

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