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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 24/27

Hoje em dia os adultos poupam muito as crianças

Gafieiras – Mas vocês acham que no Brasil daria pra ter um cara com esse desprendimento todo, esse non sense, esse tipo de humor?
Paulo – Dá, dá, sim. Ele mesmo poderia vir pra cá. Tem o problema do idioma, mas ele poderia vir pra cá.
Sandra – Eu sou louca pra fazer uma coisa com o Pescetti aqui.
Paulo – Dá pra trazê-lo, ele está falando bem o português. Daqui a pouco ele pode vir.
Sandra – Ele é sensacional!
Paulo – Porque é aquela coisa muito rápida de quem faz humor.
Sandra – Piada.
Gafieiras  E temas importantes que se tem muito medo de falar…
Paulo – Essa música das taquaras [n.e. Também presente no álbum Pé com pé] é uma que a gente fez que deu medo. Inclusive recebemos e-mails e e-mails falando “Pô, meu filho está com medo! Ele nunca teve medo de nada e agora está com medo!”.
Sandra – Agora ele está percebendo que a vida é a vida. Ele tem que ter medo.
Paulo – Teve um caso de uma pessoa que o filho realmente ficou com medo, que não pode escutar um acorde da música. Mas isso é tão relativo. Sabe aquela música do Soneca, do Canções de ninar, que fala [cantam] “Bamba, bamba, lauê”? Quando chegava nessa parte, a criança berrava, gritava. E não sei quem, a minha filha ou alguém, teve a oportunidade de ver in loco. A criança já estava sozinha no quarto pra dormir, começou cantar, cantar e quando chegou “Bamba, bamba”, a criança berrou. Uma criança de um ano e meio. Não gostava, pirava com alguma coisa dessa música que é uma musiquinha de ninar…
Sandra – Mas o terror é você não ter um adulto pra te aconchegar em qualquer momento da sua vida, pra você fazer uma passagem. Isso é terror! Você ter saído de um acidente, de uma situação dramática, de uma discussão com alguém, ter brigado com o coleginha na escola, ter saído de um pesadelo, isso é um terror. É um terror os pais evitarem que a criança não se relacione com o medo do desconhecido. Então, eles vão criando mentiras.
Paulo – Cara, hoje em dia os adultos poupam muito as crianças.
Sandra – Nossa, é impressionante!
Paulo – Outro dia a gente estava numa palestra e comentamos que “Ah! A gente mudou a música O rato. Agora fazemos somente com o cavaquinho e piano num teatrinho”. Aí a mãe, depois da palestra, veio falar: “Escuta, vocês mudaram o arranjo d’O Rato?”. “É, mudamos.” “Mas é que meu filho adora aquele arranjo. Será que vocês não podiam tocar aquele outro arranjo?” “Não, mudou o arranjo do rato.” ”Não, mas você não acha que não pode frustrar a criança?” “Pode.” Pô, que raiva meu, a mulher vir tomar satisfação porque o filhinho dela vai escutar um outro arranjo e vai se frustrar, sabe? Não é nem a música que ele mais gosta, mas o arranjo.
Sandra – A gente vai fazer um CD em espanhol agora, né? O nosso próximo, aliás. A gente está indo pra Montevidéu gravar umas coisinhas. E eu estava na casa do Paulo e vi um caderno. E comecei a ler o recado da moça que trabalha na casa dele, que você [dirigindo-se ao Paulo] não tinha lido. Aí comecei a ler pra ele e falei: “Paulo, você já leu o que está escrito aqui?” “Não!” Ligou um cara e deixou um recado. Dizia para o Paulo e eu procurá-lo porque o filho dele fazia aniversário e a coisa mais importante da vida do filho dele era que fôssemos cantar em seu aniversário. Me deu vontade de escrever algo, mas não dessa forma “A melhor coisa que a gente pode fazer para o seu filho é ele viver a festinha de aniversário dele como é possível, porque a gente não pode ir. A gente não tem como dar conta disso. Essa ausência é um aprendizado também.”

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