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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 23/27

Luis Pescetti é um cara sensacional!

Gafieiras – E com relação à função da letra, a história do politicamente correto, de que forma ele transita por vocês? Existe essa preocupação “Opa, isso não é legal falar”?
Sandra – Tem um pouco, mas a essência da construção já vem de uma base constituída como íntegra. É difícil, mas às vezes a gente troca uma coisa ou outra porque não ficou tão boa. Mas não é assim “Vamos falar assim, isso é desse jeito”.
Gafieiras – Vocês nunca ficaram numa situação de falar “Nossa, isso tá demais, mas falar desse jeito pode prejudicar”.
Sandra – Não, não que eu me lembre.
Gafieiras – Ou duma situação em que vocês ficaram muito à vontade, vontade até demais, não somente em palavreado, mas em que houve algum tipo de exagero… Já houve isso?
Sandra – Olha, exagero… Um disco e um show são concebidos a partir dos cortes de exagero. Você se pergunta quando há um exagero, “Por que estou fazendo isso? Que é isso? O que quero ter? O que eu quero passar?”. Você sempre vai e volta, vai e volta.
Gafieiras – Então o improviso é dosado também.
Sandra – Quando você cria você está se revendo.
Paulo – Acho que nunca pintou essa situação de exagero. Eu não me lembro de nenhuma situação. Me lembro de uma música de antigamente, da boneca que fica triste, fica super na fossa e reclama que a menina não cuida mais dela, que está aqui esquecida e coberta pelo pó. É uma letra super forte. Daí uma amiga da gente ouviu a música e falou: “Isso não vai ficar assim, né? Vocês vão dar uma resposta! A música está ótima, mas precisa ter uma resposta”. Daí me veio essa coisa de dar uma resposta para a situação que foi muito bem colocada. “Está ótima, mas não pode ficar aí. Vocês têm que botar uma outra coisa no lugar”.
Gafieiras – O que eu falo de politicamente correto é com relação à temas delicados de se abordarem, como aquela música em que vocês falam da chegada do irmãozinho. [n.e. Referência à música “Irmãozinho”, presente no DVD Clipes da TV Cultura]
Sandra – Isso aí é de um amigo…
Paulo – Isso a gente incorporou…
Sandra – Nossa! Você estava falando e eu me lembrei do Luis Pescetti. Essa música é de um amigo que a gente tem. Ele é uma das poucas referências que temos na nossa vida musical.
Paulo – Não, musical infantil.
Sandra – Sim, musical infantil. Eu acho que vocês deveriam conhecê-lo. Esse cara pra mim é um gênio. Ele é um humorista, mas é músico também. E foi quem fez o “Irmãozinho”, mas ele cantava [canta] “Vai nascer um hermanito / Que contento que estoy”.

Paulo – Ele é argentino.
Sandra – E faz músicas que vocês não podem imaginar. Uns absurdos, as letras… É um negócio que, às vezes, coloco pra ouvir, pra ficar rindo, igual faz a criança. Agora, parei um pouco. Ele fez uma música que se chama “Bye, bye, Angelina”, que é de uma menina que está num barco com os amigos, cai na água, e começa a se afogar. Aí a música fala que eles não entendem porque ela acenava tanto os braços dentro da água. E o refrão diz assim: “Glu, glu, glu / bye, bye, bye / Angelina”. O cara é sensacional!
Gafieiras – E você acha que isso é possível no Brasil?
Paulo – É uma coisa muito brincalhona.
Gafieiras – Daria pra encaixar o “Bye, bye Angelina”?
Sandra – Tem uma que ele fez que é de uma menina, como que é? Ele fala que a avó é halterofilista, que o avô jogava bocha, que o irmãozinho estudava esgrima e ele fala: “E você? “Ah, eu sou tanto apaixonado / Ai Lili / já sabes que soy loco por ti / pois quando te vejo… / pipi / Ai Lili”, que é a primeira paixão do menininho. Ele se mija quando vê a menininha. Ele faz somente absurdos.
Paulo – É. E é muito bom de platéia.
Sandra – Esse cara é sensacional!
Paulo – O teatro cheio de molecada barulhenta e somente ele e o violão.
Sandra – E ele está cantando, cantanda, e pára assim: “Pô, pode parar com isso!”. Ele grita com as crianças! Aí tem uma brincadeira que ele faz que é muito boa…
Paulo – Tem várias, né? Ele é um cara que prende a platéia. Ele vai contar uma piada e não conta até o fim, muda de assunto, aí começa uma outra piada, muda de assunto, vai numa música, não chega nunca, ele não conclui uma música, pára um pouquinho antes e começa a mudar de assunto.
Sandra – “Agora vai cantar uma canción de terror”. E todo mundo “Ahh!” “Tá bom, não conto. [canta] Era una tortuguita que amava un arborito”. E aí cantava umas bobagens…
Paulo – … Umas musiquinhas de criança. E aí os moleques ficam putos.
Sandra – E falava porque a tartaruga não encontrava com a arvorezinha, porque estava plantada.
Paulo – É, qualquer bobagem assim.
Sandra – E depois ele volta pra canção de terror. Aí as crianças começam a gritar e aí ele volta: “Era una tortuguita”. Muito engraçado! Tem uma música, a primeira faixa do disco, que diz como ir a um concerto.
Paulo – Como que a platéia se comporta.
Sandra – Então ensina a bater palma.

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