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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 22/27

“Seu pai namora a Vermelha?”

Gafieiras – Como é pra vocês ver aquele sujeito que começou a ouvir a Palavra Cantada há 9 anos, quando ele tinha 10 anos de idade, e hoje já é um barbudo…
Paulo  A gente está começando a encontrar um público assim.
Gafieiras  Mas um ex-público.
Paulo – É um ex-público, um jovem de 17 anos. Às vezes eu tenho encontrado, como amigos da minha filha, um pouco mais novos, que curtiam Palavra Cantada.
Sandra – Os amigos dos filhos do meu namorado ouviam Palavra Cantada. Eles me chamam de Vermelha. “Seu pai namora a Vermelha?” [risos]
Gafieiras – De que forma o trabalho de vocês pode ter influenciado musicalmente esses jovens que ouviram a Palavra Cantada quando meninos?
Paulo – Olha, eu espero que o trabalho da gente crie um gosto musical…
Sandra – É. Influência não dá pra saber…
Paulo – Eu acho que pode criar um gosto. Acho que essa experiência de você fruir uma coisa artística que tenha um requinte, que tenha uma proposta mais legal, pelo menos é o que a gente acredita, acho que pode criar um gosto. Penso também nisso, “Pra que serve isso?”. Tem uma coisa bonita que acontece no presente que é a relação do adulto com a criança, do pai com o filho, da mãe com o filho. Isso aí eu sei que ocorre porque, além de ver isso intuitivamente, a gente recebe depoimentos de milhares que escrevem para Palavra Cantada via site. Relatam pequenas experiências. “Pô, eu tava sentado com o meu filho, daí a gente começou a ouvir o Canções e ele falou isso…” Aí vem uma mulher, me pára no supermercado, e fala da experiência que ela teve com a neta por causa de uma música do Palavra Cantada. Experiências de vida… É uma coisa que liga o adulto à criança num mundo mais espiritualizado. Você vê a pessoa saindo do cotidiano prático, pragmático; comprou um bom disco para o filho e, de repente, brum! Caiu no mundo dela! Isso aí é super legal.
Sandra – Isso acontece muito.
Paulo – Também há muitos depoimentos de pessoas bem simples que já vão direto na mosca, que têm uma experiência humana. A minha vida é feita dessas experiências. Minha vida é uma sucessão de emoções com música. Eu acho ótimo. Se elas estão sentindo isso, então é o que dá graça na minha vida.
Gafieiras – Eu trabalhei com professoras de creche e vocês eram o tempo todo citados como um instrumento dentro da sala-de-aula, mas exatamente como um instrumento que transcende…
Paulo – A coisa didática.
Gafieiras – Isso, a coisa didática. Você falava do ambiente de aprendizagem e assim, olhar o olhar criativo, o olhar investigativo das crianças, e elas citavam: “Ah, professora, que nem aquela música Oi, oi, oi / Olha aquela bola / A bola pula”. E aí todos cantavam em coro. Quero dizer, passou para um outro estado, uma outra maneira de olhar para a criança, que é transformador na educação.
Paulo – Eu também acho. Gosto disso também, de saber dessas histórias porque é um momento em que a vida fica mais gostosa. Música tem muito esse negócio de convidar ao ritual, como você está falando… Começa a cantar e o outro canta também… e se encontram e cantam. Fora isso, eu acho que forma um adulto com um pouco mais de gosto. Não acho que uma pessoa que vá escutar a Palavra Cantada na infância vá gostar de umas músicas bregas sem graça que tem por aí. Acho que não, não dá.
Sandra – Alimentação sonora e alimentação física são a mesma coisa. Se você passa a vida comendo porcaria, você não vai desenvolver o gosto por uma comida mais elaborada. Pode ser uma abobrinha com manjericão que você vai achar aquilo um lixo. Somos feitos daquilo que nos nutre.

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