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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 19/27

Palavra cantada era uma expressão que usávamos no Rumo

Gafieiras – Mas você tem algum sentimento, não sei se de culpa, de ter passado tanto tempo sem essa relação com música brasileira?
Sandra – Não, nunca.
Gafieiras  Mas nem com o Chico e com o Caetano?
Sandra – Os meus pais não ouviam, não sabiam quem eram eles. Fui conhecer com 17, 18 anos, quando comecei a viajar com a minha vizinha para Ubatuba. E aí eles ouviam Caetano e eu achava legal. E depois muito que eu conheço de música popular é por causa do Paulo, que foi quem me apresentou esse universo.
Paulo – O Rumo foi um grupo que começou em 74, e a gente começou ouvindo muitas músicas, além das músicas do Chico, do Caetano, do Gil e do Milton. E a gente começou a escutar muito os antigos, Noel Rosa, Lamartine, Sinhô, todos aqueles compositores. Aí deu pra fazer uma junção da coisa, desse histórico. Deu pra criar uma visão da música, sabe, você pega a raiz do Chico, por exemplo, e vê o Noel; você pega uma raiz do Gil, você vê o Luiz Gonzaga; do Caetano você, vê o Dorival Caymmi… O Noel Rosa era um cara mais ligado ao samba moderno; o Caymmi um cara mais ligado às coisas da natureza, com aquela sofisticação no violão, que não soa como uma chula baiana, soa como um Dorival Caymmi mesmo. Ele é um pilar, um cara que inventou aquele som de violão e voz, aquelas músicas. Mas é ligado à praia, à natureza e tal. O Noel Rosa, não, um negócio super urbano, de psicologia humana, né? E o Luiz Gonzaga, porra, baião, que é o sertão todo ali, porque aquilo lá, música modal, tem aquela coisa que serviu até hoje. É impressionante o que tem de músico instrumental que toca Luiz Gonzaga, que é o baião. O próprio Egberto Gismonti… Vejo como pilares, como mestres. O Tom Jobim, que é um cara que pegou muita coisa americana, mas misturou com o Dorival Caymmi… O Chico, o Caetano e o Gil já são de uma geração depois de Jobim, pós-bossa nova. Eles já tinham esse negócio da bossa nova, mas também Caymmi, Noel…
Gafieiras  Paulo, como você vê o trabalho do Rumo, que mexeu muito com a palavra, na Palavra Cantada? Você pega o “Quero passear” e ali está muito nítida a força que cada um poderia tomar na música para crianças – como você e o Hélio.
Paulo – Mas quando você pega uma música da Palavra Cantada como “Fome come”, que fizemos juntos, poderia ser uma música do Rumo. “Criança não trabalha”, que é uma melodia minha também, tem várias coisinhas que identifico como uma influência forte do trabalho anterior do Rumo, um tipo de melodia mais entoativa, que é a melodia da fala. O próprio nome, Palavra Cantada, era uma expressão que a gente usava no Rumo. O Rumo foi atrás, o Rumo estudava muito. Havia num livro do Augusto de Campos em que ele fala dessa expressão “palavra cantada”, referindo-se a uma coisa mágica que existe quando você associa uma palavra ao canto. Daí surge uma terceira coisa, ele fala, que dá todo o encantamento. Então, essa expressão, “palavra cantada”, que aprendi no Rumo, que eu roubei, foi é uma expressão do Augusto de Campos. Por outro lado já havia estudado Schöenberg, que tem uma teoria que diz que aquelas óperas que eles falavam eram também uma “palavra cantada”. O Schöenberg não tinha um tom na música dele. Era aquela coisa dodecafônica em que você não percebe a tonalidade. O canto sem a tonalidade ficava até próxima, de uma outra maneira, da fala.
Gafieiras  E você acha que a música do Rumo é pra criança também?
Paulo – Algumas músicas, sim, como o “Carnaval de Geraldo”. E o LP infantil todo, apesar de que há umas lá que não têm a ver.
Sandra – Adorei o LP.
Paulo – Até aquela que a gente cantou, que peguei do Jair Amorin, um compositor brasileiro antigo, que fazia uma música brasileira meio abolerada que, junto com o Evaldo Gouveia, fez aquela que a gente interpretou de forma engraçada, aquela música em que ela pergunta: Será que eu sou feia? / Não é, não senhor./ Então eu sou linda? / Você é um amor. / A gente fez uma brincadeira com ela, mas uma brincadeira pra adulto, criança nem está ai. Então essa música do Rumo não acho que seja infantil.
Gafieiras  E o que mais tem de diferente da música infantil do Rumo para a da Palavra Cantada?
Paulo – Acho que a Palavra Cantada é mais lúdica mesmo, a parte musical é muito mais apropriada pra criança, porque o Rumo fazia esses arranjos de musica infantil com a coisa muito completa, entendeu. O arranjo muito completo, você não vê muito a transparência dos instrumentos. Com a Palavra Cantada ficou mais enxuto, não há tantos instrumentos. Aparecem mais as brincadeiras dos instrumentos. E o Rumo tem umas harmonias complicadas. A música “Monstro”, por exemplo, harmonicamente é meio complicada, apesar de ser uma música super lúdica. Até é um exemplo bom de uma música que eu poderia gravar na Palavra Cantada, mas tem uma coisa meio que, harmonicamente, é mais complicado.
Gafieiras  Vocês tinham essa consciência de que era um negócio complexo? “Não vamos facilitar pra quem for ouvir”.
Paulo – Pra criança você tem que ter uma idéia na música, uma idéia e que você a mostre bem. Lá no Rumo, se você faz um arranjo muito completo, sinto que afasta um pouco o entendimento daquela música. Você está cantando uma coisa, que tem um sentido e, aqui no violão, você está mostrando um monte de harmonia, ritmos complexos. Fica uma música mais complexa que você tem que ouvir com quem tem uma vivência musical. Quando você pega a criança, é legal ter uma boa idéia e ir naquela idéia. Não fica com outras intenções harmônicas, intenções típicas de músico, entendeu?

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