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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 16/27

Eu queria ter sido bailarina, não pianista

Gafieiras  Você falou a respeito de começar o conservatório muito nova… O que você pensa desse roteiro do conservatório musical, de como começa a olhar a partitura…
Sandra  Acho muito complicado. Eu, por sorte, fui nutrida pela música clássica. Sou muito feliz por ter sido nutrida por esse universo tão maravilhoso.
Gafieiras – Você teve bons mestres?
Sandra  Todos clássicos. Eu tinha ouvido absoluto. Para a minha primeira professora, no meu terceiro, quarto ano de piano, eu pedia “Tia, toca pra mim a música…”. “Claro!”. Eu odiava ler partitura. Então, ela tocava e eu “tum!”, sabia o que era e sacava mais ou menos o que estava na partitura e tocava. Aí passou-se, sei lá, anos, quando ela descobriu que eu não lia, e sim que eu imitava o que ela tocava. Prontamente me disse: “Bom, você não sabe ler, então você vai voltar dois anos”. Esse foi o estímulo! Principalmente na minha época, os professores de música clássica eram um negócio horrível. Eu não sei como estudei música. Quero dizer, você tem tudo pra desistir.
Gafieiras  Traumatiza.
Sandra – É, você fica traumatizado, mas eu gostava de tocar. Eu adorava tocar piano.
Gafieiras – Você tinha piano em casa?
Sandra – Tinha um piano armário. Depois, quando me formei, ganhei esse piano do meu pai. [mostra o piano presente da sala onde a entrevista é realizada] Estudei, me formei em piano, que eram nove anos, depois mais dois anos de uma espécie de pós-graduação, que era pra você estudar para ser acompanhante de orquestra, que era o talvirtuose concertista. E depois fiz faculdade de Música nesse conservatório onde mesmo me desenvolvi. Mas acho música clássica um negócio muito complicado que, ao mesmo tempo em que tem que te dar uma bagagem absurda, tem que saber muito bem como se oferece para uma criança. Você pode ganhar um universo muito amplo, como também pode desistir de fazer música, porque as crianças muito novinhas não estão preparadas aprender essa notação, né? A notação musical. Isso é uma coisa que, em alguns casos, afasta as crianças, principalmente se ela tem uma pessoa, um orientador que não é gentil. Tem uma coisa que existe, por exemplo: outro dia eu estava pensando o que seria se hoje eu fosse dar aula de piano, como eu daria. A primeira coisa que eu faria seria desmontar o piano. Eu nunca ouvi falar de um professor que tenha mostrado como é um piano por dentro, tirar as madeiras do armário, tirar a parte de baixo, fazer a criança entrar ali, ver aquelas cordas. Nunca ninguém fez isso… Pegar o martelinho, ficar um tempão lá tirando um som de dentro do piano, seis meses curtindo o som, né? As pessoas não trabalham o instrumento, não trabalham o instrumento por dentro. Eles querem tirar o som por fora. Aí dei um pouco de aula de piano, dos 17 aos 19. Eu não gostava de dar aula. E aos 18 comecei a tocar pra balé, porque eu queria ter sido bailarina, não pianista.
Gafieiras  Tocava em balé, para os ensaios?
Sandra  Eu tocava para as aulas de balé. Fiquei dos 18 até os 21 anos tocando pra balé. Ai com 20, pra 21, meu pai morreu subitamente de infarto. E as coisas mudaram. Fui pra França e fiquei quase um ano lá tentando me entender, entender a vida e estudando música também. Estudei um pouco de música contemporânea, mas desisti rápido… Fui pra lá para estudar análise de composição contemporânea. E vi que não era isso que eu queria…

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