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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 13/27

Com o Canções do Brasil, a Palavra Cantada quase acabou

Gafieiras – Fiquei curioso pra saber como vocês conduziram isso no estúdio de áudio.
Paulo – Não, não, foi tudo ao vivo.
Sandra – O importante era não tirar a motivação da criança. Se você tira uma criança que sempre cantou no terreiro, onde quer que seja, com os amigos na rua, e coloca num no estúdio, pronto, acabou. Então a gente gravava sempre onde elas se reuniam. E a gente não tinha DAT, não tinha grana pra, embora faça não muito tempo. A gente não teve patrocínio pra fazer esse disco.
Gafieiras – Eu achei que vocês tinham.
Sandra – Não. Tivemos somente passagens da Varig.
Gafieiras – Foi o mais caro?
Sandra – O projeto custou 450 mil reais, que a gente terminou de pagar no ano passado. Descobrimos que a gente estava falindo durante o Canções do Brasil, que o dinheiro entrava e sumia, né? Que a gente usava, mas não tinha noção. Aí no final pagou tudo, mas a conta é essa, 450 mil reais, que se você me falasse hoje, eu diria “Imagina, não vou fazer esse projeto nunca!?”. Ainda bem que eu não sabia, né?
Paulo – Mas ao longo de quantos anos, 1998, 99, 2000. Três anos. Esse aqui é o equipamento que a gente usou… Um gravador cassete.
Sandra  Com fita de ferro.
Paulo  Cassete.
Sandra – O barato era usar a fita de ferro, porque o DAT…
Paulo – Não, mas a gente não tinha DAT.
Sandra – Sim, eu acabei de explicar pra eles que a gente não tinha o DAT, a gente chegou a emprestar o DAT em alguns momentos.
Paulo – A gente alugou o DAT.
Sandra – Mas a gente percebeu também que o DAT, quando você estoura, ele frita o estourado, frita a gravação, não tem tolerância. Ele bombardeia.
Paulo – A distorção dele é horrível. Aí pára tudo.
Sandra – E esse não. Ele tem uma tolerância, ele segura, porque quando você grava um grupo na rua ou onde quer que seja, claro que vai ter um menininho que vai descer o braço lá numa determinada música.
Paulo – Então, a gente usou esse daqui que é um gravador muito bom, cassete.
Sandra – Um puta gravador.
Paulo – E foi esse microfone aqui que a gente comprou especialmente para o projeto. É um microfone estéreo da Shure, muito bom também, com várias regulagens, de abertura de estéreo… E a gente fez tudo com isso. Às vezes a gente separava o grupo, uma percussão, aqui, digamos, a uns 4 metros, e os cantores a 1 metro. A gente fazia umas experiências antes… Então, ficávamos com dois canais…
Gafieiras – Ia tudo junto, como se captasse aqui? Não havia modo de como separar a voz?
Sandra – Não.
Paulo – Não, mas tinha somente esses dois canais estéreos, vazando o som no outro, mas havia alguns ajustes que depois dava pra fazer, né? Tem gravações que foram mágicas… A gravação do Amazonas… Imagine uma música cantada por um menino, com uma vozinha super normal, com uma bateria de, pelo menos, 15 pessoas, uma bateria pesada de 15 pessoas batendo um boi-bumbá lá do Amazonas, de Parintins, e o menino cantando: “Vinte séculos / Há muito tempo atrás / nã, nã, nã”… Uma canção assim, e tudo “qué, tum, tum, tum”.
Sandra – Ele ficou embaixo da mangueira.
Paulo – A bateria ficou a uns 20 metros da gente. Ele ficou embaixo duma mangueira, numa rua, aí ficou a Sandra no meio…
Sandra – Ah, não, essa do meio é engraçada.
Gafieiras – O que você fazia no meio, Sandra?
Sandra – Eu fazia mímica. [risos]
Paulo – Ela regia, a mímica do canto.
Sandra – Eu fazia a mímica do que o cara estava cantando pra eles não saírem do beatporque eles não tinham como ouvir de lá.
Paulo – Os caras não tinham como ouvir o que o moleque estava cantando. [canta] “Vinte séculos/ Há muito tempo atrás.” E a gente fazendo várias tomadas. Uma em que eles ficavam virados, os dois violões e o menino virado pra banda; em outra eles viraram pra mim e a banda pra trás pra aparecer menos.
Sandra – Isso tudo na frente de um posto da FUNAI.
Paulo – Aí você ouve a gravação e está super boa, super legal.
Gafieiras – E a equipe eram vocês dois?
Sandra – A gente fazia tudo.
Paulo – Esse foi um outro problema da viagem. A gente ficou com tudo pra fazer. Tinha que entrar em contato, fazer a produção, pegar o nome…
Sandra – Fazia o contrato e a produção, dirigia, tudo, tudo a gente fazia, tirava foto…
Paulo – Porque não tinha mais passagem.
Gafieiras – Foi um projeto de fé…
Paulo – Foi totalmente de acreditar. Se pensássemos duas vezes, não faríamos isso.
Sandra – Todo artista faz isso.
Paulo – Depois disso a Palavra Cantada quase acabou. Ficamos com uma dívida imensa, emprestando dinheiro em banco. Aí veio gente aqui analisar o que tinha acontecido.
Sandra – Onde era o ralo, e o ralo chamava-se Canções do Brasil. A gente levou uns dois anos pra se levantar.
Paulo – A gente ficou gastando dinheiro. Tudo que a gente tinha gastava, gastava.
Gafieiras – Vocês tinham, antecipadamente, um ponto pra terminar esse projeto?
Sandra – Tínhamos que chegar no 26° estado.
Paulo – É, quando a gente teve as passagens…
Sandra – Faltam 22! Faltam 13! [risos]

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