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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 12/27

Não aguento mais ouvir música folclórica!

Gafieiras – Mas vocês acompanham essa produção pra criança? De que forma?
Paulo – Alguma coisa, porque chegam muito CDs aqui. Eu tenho um panorama do que tem de música no Brasil, porque acabo ouvindo e a pessoa pede uma opinião. E você dá uma opinião e tal. Eu, particularmente, estou cheio de música folclórica, não agüento mais ouvir música folclórica! Todo mundo grava música folclórica! Estou achando cada vez mais chata.
Sandra – Mas como as pessoas deixam as músicas acabam ficando muito chatas.
Gafieiras – Mas por essa necessidade de falar para as crianças da cidade de uma nova mitologia infantil…
Paulo – Eu acho. Descobriu-se agora que o Brasil é um tema a ser explorado, que a gente também descobriu isso em 1997 quando começamos começou a fazer o Canções do Brasil. E agora foi indo, foi indo, o Brasil passou a ser um tema e daí que a primeira coisa que a pessoa pensa pra trabalhar são as músicas folclóricas. Antigamente, a pessoa de musicalização também já tinha o modelo do mestre Kodaly, o modelo do Bartok, o modelo de quem teorizou sobre formação musical no Brasil, que aproveitava as coisas folclóricas do seu povo pra ensinar música. Pra mim são muitos CDs com esse mesmo tema, com essas mesmas músicas. Há 50 músicas, umas insuportáveis, outras assim… O que tem de tratados musicais que põem a música folclórica, eu não sei, acho que pra mim isso já encheu. A gente que fez o Canções do Brasil que não tem nada de folclórico; a gente fugiu disso. Canções do Brasil é um disco que vai atrás de uma música que mantém uma raiz do lugar, mas não é música folclórica, de preferência atualizada. Teve alguns lugares em que a gente não conseguiu e acabamos gravando uma coisa bem folclórica que foi em Piauí, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná. No sul é mais paradinho em matéria de cultura popular. No Nordeste a coisa é muito mais energética, os maracatus são novos, os bumbas-meu-boi são novos, os congos são novos, tem muito mais dinâmica, os arranjos vão mudando. A Bahia é uma puta loucura de mudança, de profusão. Então, a gente com oCanções do Brasil foi atrás de uma coisa de preferência não folclórica, que houvesse um vínculo com a raiz. Aí a gente sentiu, depois de feito o trabalho, que a gente mudou muito o nosso trabalho infantil, porque a gente vinha numa linha Canções de ninar,Canções de brincar, Canções curiosas, tem uma música lá que foge um pouco que é o “Fome come”, é como que fosse uma música do Pé com pé, porque é um negócio que abandona um pouco esse lirismo ligado à infância, à delicadeza, abandona um pouco essa idéia e parte para uma idéia de energia musical. Foi isso que ficou doCanções do Brasil. Vimos muita criança cantando com energia e tocando com energia. Então, quando a gente foi fazer o Pé com pé, a gente já havia tido esse contato com as crianças e já viu do que elas gostam, que é um negócio mais ligado a bater o tambor, a cantar pra fora… É uma coisa que anda sozinha, que anda fácil com as crianças. Se um cara resolve fazer um trabalho com crianças e começa nessa linha “energia de tocar tambor, percussão e cantar pra fora”, o trabalho vai embora, vai, vai e as crianças ficam com o repertório enorme. Mas o que a gente tem mais aqui no Sul e na classe média, na classe dominante, é uma coisa de tentar cantar bem dentro de um coral, dentro de uma coisa, um cantozinho lendo letra, umas músicas caretas, esses negócios do folclore, a coisa careta, parada no tempo. E o que a gente viu, não, o que a gente gravou foram crianças tocando completamente à vontade, dominando o instrumento. Tudo o que a gente gravou no Nordeste, Centro-Oeste, Rio de Janeiro, e aqui em São Paulo também, tudo era dominando, debulhando a linguagem. Moleque que canta rap aqui em São Paulo, fala de tudo, sabe de tudo do rap, sabe cantar, sabe o quê que é tudo, não tem a menor dificuldade com isso. São linguagens assimiladas, assim como o pessoal todo, né? Então, quando fizemos o Pé com pé estávamos mais sobre esse signo da energia infantil, como uma palavra nova.

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