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Entrevistas de música brasileira

Palavra Cantada

Palavra Cantada. Foto: Max Eluard/Gafieiras

Palavra Cantada

parte 10/27

A gente tem essa preocupação com a impecabilidade

Gafieiras  E como foi o seu primeiro show, Paulo?
Paulo – Eu comecei a participar quando a gente começou a fazer show com as músicas do Canções curiosas.
Sandra – Aí depois de um tempo a gente chamou o Gustavo Kurlat para nos dirigir. Isso já uns cinco anos.
Paulo – Ah, é. O primeiro que ele dirigiu foi o Canções do Brasil.
Sandra – E realmente tudo mudou.
Gafieiras  O que mudou?
Sandra – O Gustavo me ajuda a sentir melhor, porque o maior problema, acho que de qualquer artista, é que quando você está na frente de outras pessoas e cria artifícios pra mostrar os seus sentimentos e que não dizem respeito ao que você é. Então, você sempre externaliza uma coisa que não é você. E fica artificial, fica bobo. E ele criou uma consciência pra mim, que era eu fazer o que eu sou, ser o que eu sou, porque sendo o que eu sou, seria bom, seria legal. E a primeira coisa que a gente tende a fazer quando sobe no palco é inventar uma coisa pra ficar mais bonito.
Paulo – Sabe o que eu acho? Nesse mundo infantil de show é muito comum você cair numa bobice, sabe? Os palhacinhos berrando: “Criançada! Vamos fazer isso! Batam palma!”. Cria-se um mundo bobo, abobalhado, que a gente nunca fez e que nunca fez falta. Sempre tivemos a maior empatia com a platéia sem precisar gritar, sem precisar fazer micagens. A não ser quando você está se divertindo, quando você está fazendo uma coisa que de fato é engraçada pra todo mundo, e que pintou daquele jeito. Agora, você criar um personagenzinho abobalhado? Isso super comum nesse mundo infantil…
Sandra – Só tem isso.
Paulo – E cai numa coisa boba. É legal você ter um diretor de fora para, inclusive, mostrar pra você como está sua cara. Não nesse sentido de mostrar uma coisa estereotipada, que a gente não faria isso, mas, às vezes, você está com a cara muito séria. Eu, por exemplo, tenho a mania de ficar ouvindo a banda. Às vezes fico com a cara de quem está ouvindo aquilo como se estivesse numa mixagem, prestando atenção. Eu tenho que ter esse treino de me ligar do que passando ali na hora, não ficar vendo. Uma coisa muito comum também é quando dá uma coisa errada no palco, uma coisinha errada, e o artista mostra que está errado para toda a platéia. “Mas, espera aí, eu preciso de mais retorno de voz senão não consigo fazer!” A Sandra adora fazer isso.
Sandra – Explico porque vão gostar de mim “Poxa, se eu pedir isso, o público vai gostar menos de mim. Mas se eu explicar porque estou pedindo isso, a platéia vai continuar gostando de mim.” Sempre isso está por trás. É infernal.
Paulo – O diretor fala aquelas coisas óbvias: “Ninguém está vendo isso aí. Ninguém está ligando pra isso, ninguém está olhando pra isso. Somente você está preocupado com isso!” O cara fica o tempo todo observando isso e até mostrando momentos em que é legal a gente se relacionar, porque às vezes fica muito cada um na sua. E definimos alguns conteúdos que queríamos passar para a platéia e ver se aquilo está chegando mesmo a ela. Por exemplo, mostrar o conteúdo de tocar, que todo mundo está junto tocando e que aquilo é um prazer… Mostrar que tem uma relação minha com a Sandra, às vezes, está até na letra da música. Às vezes fala de você, e um joga a bola pro outro. Então cria-se uma movimentação no palco, quando que se entra, a ordem das músicas… Hoje em dia, quando a platéia vê um show da Palavra Cantada, sente um fluxo legal do show. Eu mesmo é difícil sentir um show. Só vejo esse fluxo a partir de um certo nível de artista de MPB, mas somente no pessoal mais top.
Sandra – A gente tem essa preocupação do top mesmo, que é da impecabilidade. E se você está fazendo uma coisa pra criança, você tem que fazer o melhor possível. Agora, uma coisa que eu realmente não entendo, que vi agora em Passo Fundo e que tem a ver com o que o Paulo falou sobre animação, como uma criança, por causa da televisão, aprendeu que pra ela mostrar que está gostando tem que ter um estímulo muito forte. E eu fiquei impressionada, porque tinha lá em Passo Fundo não-sei-quantas, umas quatro mil crianças. Era uma coisa mega!
Paulo – Mais de duas mil.
Sandra – Parece que ali cabia mais de seis mil pessoas, e devia ter mais de três mil crianças. Elas não conheciam as músicas… Quando eu falava “Ó, gente…” aí, elas podiam responder, porque eu estava perguntando, porque eu estava excitando de alguma maneira, mas não havia comunicação espontânea.
Paulo – Antes da gente se apresentou um cara que só ficava moldando e as crianças ficavam excitadas.
Sandra – Eu comprovei isso numa outra ocasião quando assisti um show, e que não tem ali uma resposta, mas quando uma pessoa fala daquele jeito, ela acende aquela luz e as crianças respondem, porque elas conhecem aquele tipo de estímulo e sabem que devem responder daquele jeito. Vou dar um exemplo que elucida isso perfeitamente. Quando a gente começa o show, a gente faz a primeira música e fala “Boa tarde”. Ponto final. As outras pessoas, não. Digo, esses histéricos, mas não esses extrovertidos que o Paulo falava. Existe o histérico e o extrovertido!

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