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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 8/14

A música não é culpada por nascer em berço errado

Tacioli – Você disse em outra entrevista que o título que Vinicius de Moraes deu para São Paulo (n.e. Túmulo do samba) quase enterrou todos os sambistas com trabalho e uma longa vida na capital paulista. Como foi essa história? Qual era a relação de São Paulo com o samba naquele momento em que foi dado esse título?
Noite Ilustrada – Tenho a impressão que ele viveu em São Paulo numa época em que andou fechando uma série de casas noturnas por problemas fiscais, essas coisas burocráticas. Tive fases em que eu trabalhava em três casas. São Paulo era um oba-oba, tinha um movimento muito grande. Eu trabalhava na Pierrot, na Vieira de Carvalho, saia da Pierrot ia para o Vagalume, ali no fim da Augusta, na Avaiandava, aí saia do Vagalume ia para o Ciroco. O Ciroco começava meia-noite e terminava meio-dia. Pode ser que ele tenha vindo a São Paulo quando a cidade enfrentava esse problema todo, e aí disse que era o túmulo do samba. No auge de São Paulo ele devia estar em Paris. Talvez não tivesse conhecimento do que foi São Paulo nos anos 60, uma época em que a cidade balançou a madrugada.
Tacioli – Você chegou a ter contato com o Vinicius?
Noite Ilustrada – Somente por telefone, porque houve um problema muito sério em termos de música, não gosto muito de entrar em detalhes, mas já que estamos conversando, é bom eu deixar registrado. Vou entrar no mérito da questão, mas não dou continuidade porque a pessoa não está aqui para dizer o sim ou o não, para discutir o problema. Vou ficar falando sozinho e a palavra vai pro ar. O Vinicius quando estava em Paris mandou a letra de uma música para o Adoniran Barbosa. Quando ele viu a letra achou que não tinha condição de botar melodia. Eu estava junto quando ele recebeu essa letra. Estávamos na barbearia do Baiano, na Rádio Record, na Quintino Bocaiúva, onde hoje é Irmãos Vitale. Salão do barbeiro sempre rola uma piada. O Adoniran falou: “Não vou conseguir botar melodia nisso aí, não! Leva e vê o que você faz!” Naquele tempo eu morava na General Osório, quase esquina com a Barão de Limeira. Morava numa casa, numa boca de lobo, lá nos fundos. Moravam muitos colegas que trabalhavam em boates, como a Eli Correa, que era cantora, o Jacob, que tocava violão, o compositor Floriano Matos. Eu tinha um gravador, aquele gravador geloso, “tiquitiquitiquitiquitiqui”, barulhento. Fiz a melodia dentro da letra. O pessoal estava me ouvindo quando fiz a música. Mostrei quando terminei. No outro dia entreguei ao Adoniran Barbosa, “Veja se você gosta disso aí? Foi o que deu para fazer.” Depois de uns três meses, bateram na porta do barraco. “Noite, ô Noite! Sua música está tocando no rádio!” Fui lá ouvir. Quando o cantor acabou de cantar, o locutor falou “Acabamos de ouvir, com Aracy de Almeida, ”Bom dia, tristeza”, de Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes”. Todos ficaram me olhando esperando falar o meu nome, mas ninguém falou. Aí me deu uma tristeza muito grande. Fui até o Adoniran e falei com ele. [imitando a voz do autor de “Trem das onze”] “O Vinicius falou que só queria dois compositores!”. “Então, se eram dois, você não tinha que estar!” “Não, ele queria que eu participasse, porque tinha mandado a letra para mim.” “Ah! Tá certo! Quer dizer que eu não…” “Não, nós vamos fazer outra música, a gente combina.” Como de fato ele fez uma letra e mandou para mim, que é o “Rolinho de pastel”, e quem gravou foi a Carmen Silva. E quando fui ouvir… “Acabamos de ouvir, com Carmen Silva, de Marques Filho e Peteleco, ”Rolinho de pastel””. Sabe quem é esse Peteleco?
Tacioli – O cachorro do Adoniran.
Noite Ilustrada – Fiquei tão chateado com o Adoniran Barbosa. Vou brigar com ele? Não tenho condição de brigar com ele, chamá-lo para uma polêmica. Sei que ele foi um homem com uma bagagem muito grande, e nessa bagagem tinha Marcos César e uma porção de gente que deu apoio para ele. Mas tudo bem, não estou tirando o mérito dele, apenas estou dizendo que ia ser uma polêmica muito dicífil. Eu estava chegando, e ele já era um compositor, ator, humorista. Ele estava com tudo na frente. Então, qualquer coisa que eu dissesse “Tá querendo pegar escada?”, poderiam pensar, coisa que nunca fiz na minha vida, subir nas costas de ninguém. Só fiz o que Deus me deu.
Tacioli – E depois disso como é que as coisas ficaram? Você falava com ele?
Noite Ilustrada – Não, pelo contrário, toda vez que ele me via, mudava de calçada, ia para outro lado, para outra rua. Ele não me encarava mais de frente. Quando fui fazer um Ensaio, do Fernando Faro, contei essa história, e ele convidou o Adoniran para participar comigo de um debate. Ele falou [imitando Adoniran]: “Ele tá louco, ele tá louco! Não vô não!” E não quis ir, não quis participar um debate frente a frente. O que eu pude fazer? Ele não quis ir e eu perdi uma oportunidade.
Tacioli – Mesmo assim, você consegue visualizar qual a contribuição de Adoniran Barbosa para a música de São Paulo? Você acha que os créditos que dão à música paulista estão muito concentrados em Adoniran?
Noite Ilustrada – Infelizmente. Mas temos compositores como o [Eduardo] Gudin, gente que sabe fazer música. Já tivemos o Jorge Costa, o Denis Brean [n.e. Augusto Duarte Ribeiro, 1917-1969, autor de “Boogie-woogie na favela” e “Bahia com h”] [canta] “Chegou o samba minha gente minha gente cheio de novidade”, quer dizer, músicas que tocam até hoje. O Roberto Roy, o Sereno [n.e. 1909-1978, cantor, compositor e multiinstrumentista paulista], tanta gente boa, mas as pessoas identificam um e por um trabalho só, “Trem das onze”, que foi uma música que pegou nacionalmente. As outras são boas, mas não são um “Trem das onze”. Como ele tinha mais espaço na mídia, além de trabalhar dentro dela, ele ficou como um representante do compositor paulista.
Tacioli – Você canta músicas dele em seus shows?
Noite Ilustrada – Canto.
Tacioli – A história de “Bom dia, tristeza” não interfere?
Noite Ilustrada – Não, acho que a música não é culpada por ter nascido em berço errado. [risos] O povo pede e quando o povo pede, você tem que cantar, tem que valorizar.
Tacioli – “Bom dia, tristeza” já esteve em seu repertório?
Noite Ilustrada – Para ser franco com você, a única música que não gosto de cantar é “Bom dia, tristeza”. Mas eu canto “Trem das onze”, “Samba do Arnesto”, esses babados todo. Não gosto de cantar “Bom dia, tristeza” porque a fita começa a voltar.

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