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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 7/14

A coisa mais importante que apareceu foi a bossa nova

Tacioli – Retomando a linha histórica que você estava me contando… Em meados dos anos 50 você veio para São Paulo, em 62 lançou “Volta por cima” e nesse meio tempo surgiu a bossa nova. Como é que você viu a chegada da bossa nova? E que lembranças você tem do comportamento de artistas que eram de uma escola musical anterior?
Noite Ilustrada – Na minha maneira de pensar, a coisa mais importante que apareceu na música popular brasileira foi a bossa nova. Ela enriqueceu a música popular brasileira com harmonia, com acordes, com palavras bonitas. Vibrei com a bossa nova. Agora, a única coisa que lamentei foi que a bossa nova ficou num bloco determinado, não abriu espaço para um Cyro Monteiro. O Cyro Monteiro veio muito depois com a bossa velha. Como é se chamava o programa que a Elizeth apresentava?
Tacioli – Bossaudade.
Noite Ilustrada – Bossaudade [n.e. Programa da TV Record nos anos 1960 apresentado por Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro] veio depois. A bossa nova não abriu espaço para sambistas como o Roberto Silva e o Jamelão. Foi uma pena. Parecia que eles estavam discriminando. Eles poderiam, naquela altura, dar oportunidade à essas pessoas, inclusive até para se reeducarem. Reeducarem melodicamente, porque a bossa nova é muito rica em harmonia. Foi uma beleza para a música popular brasileira. Se algum dia surgir mais uma bossa nova – claro, com um estilo diferente, mas para enriquecer a música brasileira – para mim seria ótimo.
Tacioli – Como poderia ser aberto espaço na bossa nova para esses intérpretes que você citou, Noite?
Noite Ilustrada – Lembro-me que o Roberto Carlos tinha um programa, e o vi apresentando o Ataulfo Alves. Quero dizer, era uma abertura que ele estava dando para o bossa velha. Eu achava que essas coisas deveriam ter acontecido também nas boates e nas casas noturnas. Deveriam botar um crooner da bossa nova e um da bossa velha, sei lá, não sei se o que estou falando tem alguma validade, mas seria uma espécie de fusão, de um aprender com o outro.
Tacioli – Você acha que o pessoal da velha guarda teve uma reação inversa à sua, com muitos criticando a bossa nova?
Noite Ilustrada – Teve sim, porque existe em todos os setores o melindrado. “Agora só tocam essas músicas! A gente não toca mais!” Sempre tem, né? Se você for analisar, de um certo modo, eles tinham até razão, porque poderia ter um programa da bossa nova e da bossa velha. Como tinha o Moraes Sarmento (n.e. 1922-1998, homem de rádio e TV, defensor das raízes da música brasileira) que segurou a turma da bossa velha durante muitos anos. Mas é que o bossa velha tocava num horário [risos] que não tinha nada a ver com a audiência. E a bossa nova só tocava nos horários que davam audiência. Então vem aquela “magoazinha”, aquela “invejazinha”.
Tacioli – E como você tentou se aproximar da bossa nova?
Noite Ilustrada – Não, eu não tentei porque foi numa fase em que eu estava bem com o meu repertório. Tive sorte. Eu tinha duas ou três músicas na parada, não tinha por que me preocupar com a bossa nova. Estava achando bom pelo aprendizado que ela estava dando para um bocado de compositores e músicos novos, principalmente eu que tocava violão naquela época. Também tentava arranjar uma “harmoniazinha” para sair quase igual, mas nunca saía. Lembro-me bem que o Ataulfo Alves fez uma música dessa, da bossa nova com a música dele. Dá para cantar aí? [canta e palmeia “Vassalo do samba”, gravada no LP Eternamente samba, CBD, 1966]: “Tentei fazer um samba diferente do que faço / Confesso minha gente, saí fora do compasso / Errei na divisão / Cheguei à conclusão / que o samba não me quer moderno, não / Meu samba protestou e o vexame foi total / Quem foi quem mandou / eu sair do original / Meu samba eu sei que é rei / Pisei em meu próprio calo / De vossa majestade, eu sou vassalo”. O Ataulfo até fez uma introdução moderna para esse samba [canta a melodia de queda jazzista]. Tudo para poder se assimilado. Até ele que já tinha uma vida artística muito maior que a minha naquela época tentou ir. Mas a bossa nova era um negócio intocável para nós, do time das antigas. Mas a gente tentava chegar lá, fazendo esses arranjinhos malucos como o que o Ataulfo fez.
Tacioli – Que diferenças você traçaria do samba que se fazia para o da bossa nova? Existe realmente uma dificuldade em se compor dentro da estrutura bossa-novista? Essa riqueza toda existia de fato e pesava para o Ataulfo?
Noite Ilustrada – Pesava pelo seguinte: nós não tínhamos mais tempo de estudar, e a bossa nova veio de um conjunto de estudiosos, gente que conhecia harmonia, que lia música. Nós éramos autodidatas, o que sabíamos de violão era o que tínhamos aprendido numa roda de samba ali, com um amigo. Ninguém teve capacidade de estudar, de procurar letras fortes para poder encaixar dentro daquelas harmonizações que eles faziam. Na minha maneira de pensar, foi isso que chocou os Nelsons Cavaquinhos e os Cartolas da vida; chocou Ataulfo Alves, gente acostumada com aquele dó maior, dó maior comum sem nona, sem sétima. Isso mexeu. “Não vou estudar, não! Vou cantar o que cantei até hoje”. Mas a bossa nova valeu muito! Só lamento naquela época não estar preparado para estudar, porque se estudasse talvez eu até tivesse acompanhado um pouco o estilo deles.

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