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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 6/14

O único medo que tenho é que o samba perca a identidade

Tacioli – Você sente falta de reconhecimento hoje em dia?
Noite Ilustrada – Com essa falta de divulgação assídua, mais intensa, tenho impressão que está havendo uma reordenação geral em termos de artistas da música brasileira. O único medo que tenho é que o samba perca a identidade. Gostaria que houvesse um pouco mais de divulgação em termos do samba autêntico, raiz, chão. Hoje a gente vê o Jorge Aragão, que está fazendo um samba bom, gosto do estilo dele. Taí o Zeca Pagodinho com um samba bom. Mas têm outros conjuntos e cantores por aí dizendo que fazem samba e a gente fica meio preocupado, parece que há uma tendência em mudar a identidade. Acho que falta garra ou gente que entenda mais ou menos de música popular brasileira. O jovem não é obrigado a estar descobrindo essas coisas. É preciso que alguém jogue isso aí para eles guardarem, para pelo menos os pais falarem aos filhos, “Essa aí eu conheço”.
Tacioli – Você estava falando de “samba” que não é samba. Você já se deparou com algum desses artistas que fazem pagode romântico? Como é que foi? Existe um reconhecimento da parte deles?
Noite Ilustrada – Graças a Deus até que estou tendo muita sorte com eles. Não tenho convivência com todos, mas acho o Quinteto em Branco e Preto muito bom; eles tem uma certa consideração comigo, me tratam muito bem. Outros conjuntos que tive a oportunidade de conhecer em programas de televisão nunca me destrataram ou viraram a cara, graças a Deus. Fico preocupado – e é o que estou dizendo aqui – porque eles não têm uma determinada informação. Criaram com o recurso deles, do jeito que eles aprenderam, um estilo para eles. Mas se tivessem uma informação radiofônica, de televisão, ou de mídia impressa, sei lá, ou se privilegiassem uma informação diferente talvez não saíssem do original. Tanto que na época existia Quatro Ases e um Curinga, Os Anjos do Inferno, Os Namorados da Lua. Esses conjuntos eram quase tudo igual. Ninguém sentia diferença do tipo de diapasão, das vozes. Mudava um bocadinho, mas em termos de música popular brasileira era tudo igual. Hoje, não! Tenho observado que um conjunto faz um estilo, o outro faz o outro, o outro, o outro, que no fundo quando você vai tirar noves fora daquilo ali não sobra muito. Seis pessoas cantando uníssono, não existe problema de vocalização, não tem problema de nada. Seis pessoas cantando uníssono aqui, seis pessoas cantando uníssono ali, uma coreografia, pronto e acabou. Não aprendi assim, mas é como dizem, falta informação.
Tacioli – Sobre esse assunto, você declarou em uma entrevista que as letras de hoje são uma piada, e uma piada quando se repete perde a graça. Então, além dessa estrutura rítmica, a parte letrística também joga contra, não?
Noite Ilustrada – Disse isso porque o compositor autêntico, o anterior, pensava para fazer. Hoje em dia parece que estão fazendo sem pensar. E tudo é sexo. Não existe um romantismo. O compositor antigo para dizer para uma moça que ele a amava, que gostaria de falar com os pais dela, fazia um rodeio. Não é que tudo tem que ser igual, mas se fazia um rodeio com palavras bonitas, bem colocadas. Subentendia-se que o pretendente queria se aproximar da moça, pedi-la em casamento. Hoje é aquele negócio, eu fico com você. Não entendo a letra com agressividade; entendo a letra que toma um caminho, que chega suave para a pessoa, sem agressão. Para cá talvez não seja tanto, mas no Norte, Nordeste, a agressividade é muito grande, o palavriado é agressivo. Eu recebia essas letras e de vez em quando pensava, “Acho que ele errou de endereço!” Mas sei que isso é o estilo de lá. Por isso gravei muitas músicas de compositores do sul e deixei de gravar muita música do Nordeste. Mas o compositor da minha época para falar “Para entregar uma rosa para aquela moça que me espera do outro lado do salão”, dava uma volta, arranjava uma colocação mais adequada, e você aceitava com a maior naturalidade. Hoje o cara diz “Vai lá e fica”. Aí fica ruim. [risos]
Tacioli – Você já teve problema com letra de música?
Noite Ilustrada – Não, graças a Deus, nunca tive problema.
Tacioli – Nem mesmo com público, de não aceitar um tipo de letra?
Noite Ilustrada – Não, não.

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