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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 5/14

Um sucesso como "Conceição" e "A volta do boêmio"

Tacioli – Você se lembra da repercussão de seu primeiro disco?
Noite Ilustrada – Teve uma repercussão boa porque depois muitos outros conjuntos e orquestras começaram a gravar a mesma música que eu havia gravado, naturalmente porque chamou a atenção. “Castiguei”, do Jorge Costa [n. e. Compositor alagoano radicado em São Paulo nos anos 50), foi bem gravada. Até um paraguaio gravou e parece que fez mais sucesso que eu. Chamava-se Humberto Garin, trabalhou muito tempo com o Sílvio Santos, na produção. Ele trabalhou com um conjunto do Djalma Ferreira lá no Rio. O Gasolina também gravou “Castiguei”. Bom, de qualquer maneira, a música chamou a atenção. Dois anos depois, eu estava trabalhando na boate Meninão, na Alameda Nothmann, quando conheci o Alfredo Borba, que tinha recebido naquela época um convite para ser diretor artístico da Philips. Ele passou lá na boate e perguntou se eu queria fazer um disco com ele. “Vambora!” Eu achava que ia ser mais um disco, que aquele LP e compacto que eu tinha feito na Mocambo fossem dar resultados, mas começou e de repente parou. Mas, felizmente, o Borba disse: “Você tem música?” “Tenho música que a gente brinca pela noite, até o compositor está sempre aqui, amigo nosso, e a gente canta muito isso”. “Como é a música?” Aí cantei: “Chorei / Não procurei esconder / Todos viram / Fingiram”, que era a música do Paulo Vanzolini. [n.e. “Volta por cima”] “Tá bom, e o outro lado?” Eu tinha vindo de uma excursão na Argentina, de uma temporadinha no Teatro Maipo, onde tive uma namoradinha, daquelas de minuta. Na volta para São Paulo, parecia que o avião estava pertinho da Lua, e no meio do caminho fui fazendo uma música. “Oh! Lua triste / Estou magoado / Meu amor foi embora / Nem me deixou recado”. “Tenho uma música, ‘Lua triste’. “Vambora, vamos fazer!” Aí gravamos o compacto. Mas o “Volta por cima” acabou com a minha música [risos] e tomou conta do Brasil, graças a Deus.
Tacioli – Noite, sempre relacionam você com “Volta por cima” e grande parte de seu reconhecimento público vem dela. Ela se transformou em uma cruz?
Noite Ilustrada – É, fica meio chato. Tenho a impressão de que já apresentei outras coisas, mas essa marcou porque foi um sucesso nacional, justamente como “Conceição”, com o Cauby (Peixoto), e “A volta do boêmio”, com o Nelson (Gonçalves). Quando é sucesso nacional ela marca o artista, não tem jeito. Foi o que aconteceu comigo com “Volta por cima”.
Tacioli – Sobre “Volta por cima” você não suporta mais responder em entrevistas, não?
Noite Ilustrada – Me encabulo um pouquinho mais com “Por que Noite Ilustrada?”. Este “Por que Noite Ilustrada?” é desde o começo, desde quando eu não era artista. Porque nasceu como gozação, não gostei, mas acabou ficando. Depois outros caras “Ô Noite”, “Ô jornal”. Consegui segurar. Mesmo assim, depois de tantos anos, “Por que Noite Ilustrada?” Aí você tem que explicar o porquê de Noite Ilustrada, mas no fundo até fica gostoso, faz parte.
Tacioli – Você ainda tem alguma vibração ao cantar uma música que lhe marcou tanto?
Noite Ilustrada – Quando o povo fala “Volta por cima”, digo “vambora”, que é para acabar de uma vez. Tem que cantar mesmo, senão as pessoas vão dizer que não era eu quem estava lá, era mentira. “Esse não é o Noite Ilustrada, não!”
Tacioli – “Volta por cima” é de 1963, não?
Noite Ilustrada – 62.
Tacioli – Materialmente, o que ela lhe trouxe?
Noite Ilustrada – “Volta por cima” me deu um espaço nacional. Eu só tinha um espaço local. Era cantor de samba de São Paulo. Depois, fiquei um cantor de samba nacional. Ando o Brasil inteiro, já fui para o exterior, pode ser até que tenha sido por causa dessa música, não sei. Na entrega do troféu Euterpe (n.e. Oferecido pelo jornal carioca O Correio da Manhã) lá no Rio, fui indicado como cantor sambista paulista. Apesar de ter vivido anos e anos e ter aprendido a cantar samba no Rio, saí de São Paulo para receber prêmio no Rio como cantor paulista.
Tacioli – Mesmo tendo morado no Rio, como foi essa recepção carioca?
Noite Ilustrada – Pra mim foi muito importante porque tive oportunidade de receber esse troféu com gente famosa da época. Fora isso, ser reconhecido pela imprensa do Rio foi um negócio muito importante, porque batalhei muito lá para ter um reconhecimento qualquer. Receber esse troféu em pleno Teatro Municipal do Rio foi uma glória. Aqui em São Paulo recebi o Roquete Pinto, o Chico Viola. Essas coisas todas me trazem uma saudade grande porque são resultado de um trabalho de muito e muito tempo. Muita gente não sabia o quanto eu vinha batalhando, trabalhando em shows de caravana, circo, parque de diversões e boates até tantas horas da madrugada. De repente solto um disco, boto debaixo do braço, saio da boate, vou para as rádios fazendo trabalho de “catituagem”… Para mim foi muito importante.
Tacioli – Você tem alguma mágoa desses primeiros anos?
Noite Ilustrada – Mágoa mesmo eu não tenho, não! Tenho umas lembranças tristes, mas acho que isso é normal. O trabalho recompensa… Estou com 73 anos e tô aqui tendo essa oportunidade que você está me dando. Fico glorioso por dentro porque é o lucro de um trabalho, estou na lembrança de alguém, alguém está lembrando de mim e isso é muito importante. Tenho a impressão que outros cantores com a mesma idade e tempo de carreira talvez não tenham, ou não tiveram, tantas lembranças como estou tendo ultimamente. E principalmente agora na Trama. O pessoal da Trama tem me dado uma abertura grande e isso tudo me comove.

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