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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 4/14

Senhoras e senhores, com vocês... A Noite Ilustrada

Tacioli – Você começou a cantar profissionalmente no Rio ou em São Paulo?
Noite Ilustrada – Comecei a cantar lá no Rio. Eu fazia ponto na praça Tiradentes, no ponto dos músicos. Fui chamado pelo Zé Trindade para fazer uma excursão com ele como violonista. Saí em excursão e acompanhava os artistas que o Zé Trindade havia levado. Mas chegou uma certa altura que o Zé pediu para eu cantar. Foi aí que comecei a cantar em shows, mesmo profissionalmente, só para esticar o espetáculo.
Tacioli – Não tinha faltado um cantor?
Noite Ilustrada – Não, não faltou, o tempo de show é que estava pequeno. Então, como eu só acompanhava, ele achou que eu deveria fazer mais um número para esticar um pouquinho.
Tacioli – O que você cantava?
Noite Ilustrada – Naquela época eu cantava muito Cyro Monteiro, Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho. Cantava essas músicas, sambas autênticos, como até hoje faço. Esse era o meu estilo, Risadinha, Blecaute, Jorge Veiga, Moreira da Silva.
Tacioli – Você ficou quanto tempo com o Zé Trindade?
Noite Ilustrada – Não, isso aí foi um mês só, ele estava de férias da Rádio Mayrink Veiga e nós aproveitamos as férias dele. Aí depois voltei para o Rio…
Tacioli – Foi aí que nasceu o apelido?
Noite Ilustrada – Foi. Naquela época eu tinha pouca intimidade com o pessoal da caravana, então mais ensaiava, ensaiava e ficava pelos cantos. Existia uma revista que se chamava A Noite Ilustrada. Eu a comprava semanalmente porque gostava muito de fazer palavras cruzadas, ver a seção de humor. Ela tratava de teatro-revista e futebol. Mas como eu fazia muita palavra cruzada, e a resposta só vinha noutra semana, então semanalmente eu estava com a revista no bolso. E o Zé, na hora de me apresentar, esqueceu meu nome. “Senhoras e senhores, com vocês… é… hã… A Noite Ilustrada”. E eu pensei que fosse acontecer alguma coisa na cidade, porque como eu disse, o show era pequeno, e sei lá, arranjou mais gente para botar. E eu procurando, ele olhou para a minha cara… Noite Ilustrada! Olhei para ele sem saber… Noite Ilustrada!! Naquela época o nosso empresário era o Rubens Gomes, locutor da Rádio Vera Cruz lá no Rio, que chegou e “vá você mesmo, depois você discute. Agora é show, vá embora, vá embora”. Aí entrei e comecei a cantar. Mas quando voltei disse “pode parar Zé, pode parar porque eu não gosto de apelido”. Naquele tempo eu era meio grosso, mas não adiantou. E na hora de me apresentar no show do dia seguinte, esqueceu e lá vai Noite Ilustrada. Noutro dia esqueceu novamente e lá vem Noite Ilustrada. Quando fui ver não tinha mais jeito. Na volta, na rádio Mayrink Veiga, o Zé me apresentava: “Ô Cyro (Monteiro), olha quem foi numa excursão comigo! Esse aqui, o Noite Ilustrada!” “Esse aí é que é o Revista?”. O Cyro era muito gozador. “Esse que é o Revista, Revistão”. E fui para o ponto dos músicos. Passados meses, vim para São Paulo com uma escola de samba. E no ponto todo mundo me chamava de Noite Ilustrada. Gravei aqui em 57 e já saiu Noite Ilustrada. Aí não deu mais para fugir. Gravou, ficou.
Tacioli – A primeira gravação foi em São Paulo?
Noite Ilustrada – Foi.
Tacioli – Quais eram as músicas?
Noite Ilustrada – Era um 78 rotações com “Cara de boboca”, e do outro lado, “Castiguei”, do Jorge Costa (com Venâncio). Depois fizemos um LP intitulado O cara de boboca, mas antes já tinha gravado por uma fábrica Príncipe, de um lado “Eu, você e Mangueira”, do Jorge Costa, e uma outra música que eu não me lembro mais do nome. Faz tanto tempo; foi em 1957.
Tacioli – Esse pela Príncipe foi o primeiro …
Noite Ilustrada – O primeiro compacto foi pela Príncipe, em 1957. Antes do “Cara de boboca”, que é de 1958.
Tacioli – E o que significou gravar, entrar em um estúdio pela primeira vez?
Noite Ilustrada – Foi um negócio muito importante. Deu tremedeira! Qualquer coisa que me motiva fico logo tremendo. Entrei numa tremedeira danada no estúdio, mas o Renato de Oliveira – não sei se ele está vivo ou morto – “que é isso meu filho, está com a mão gelada, está frio por quê?” “É a responsabilidade, seu Renato!” “Fica calmo, fica calmo que vai sair”. E graças a Deus, a gravação saiu boa. Mas que fiquei gelado o tempo inteiro naquele estúdio, fiquei. Uma responsabilidade filha da mãe! É a mesma coisa quando você vai fazer pela primeira vez um programa de televisão.
Tacioli – Do que você vivia nessa época, Noite?
Noite Ilustrada – Sempre vivi de música, desde 1954.
Tacioli – Mas como é que foi desde que você saiu do colégio interno?
Noite Ilustrada – Saí do colégio e já estava trabalhando na fábrica de móveis. Trabalhei na oficina Leopoldina de estrada de ferro, trabalhei em fábrica de tecido, trabalhei de ajudante de pedreiro, pedreiro e estocador. Sempre trabalhei e me virei em alguma coisa, graças a Deus. Só não fui guia de cego porque não deu tempo.

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