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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 3/14

O cara tirou o revólver e ''Você é muito metido, negão!''

Tacioli – Por que Atibaia?
Noite Ilustrada – De Recife fui contratado para fazer um show numa casa aqui em Atibaia. Quando estava para fazer o show, a proprietária disse que tinha uma senhora que queria falar comigo, que era muito amiga minha. Então deixa eu ver quem é, manda entrar! Era a Denise [n.e. Sua atual esposa], que conheci há muito tempo, quando ela era casada e eu ainda vivia com outra criatura lá em Recife. Mas nessa volta ela já estava viúva, e eu, separado. Daí, papo vem, papo vai, conversa daqui, conversa dali, e fui fazer o show. Terminou o show, ela falou: vamos tomar um café lá em casa. Eu fui e estou tomando café até hoje. Depois nos casamos.
Tacioli – Você foi casado outras vezes?
Noite Ilustrada – Não. Eu tinha uma vida com uma outra pessoa, mas eu já era viúvo há muitos anos, uns 30.
Tacioli – Eu estava vendo uma entrevista sua, em um comentário bem-humorado sobre uma das músicas, você falando das mulheres. Você foi um homem que teve muitas mulheres?
Noite Ilustrada – Olha, vou te contar uma coisa: nessa época da noite eu dei um pouco de trabalho para as pessoas que viviam comigo. Acontece o seguinte: você sabe que a madrugada, a vida noturna é um chamariz, sei lá, quando você vai ver, pensa que está sozinho, tem alguém do seu lado. Você está sempre rodeado, sempre acontece alguma coisa. E eu não gosto de deixar para amanhã, não. É para resolver, resolve logo. Sempre dou sorte em uma desvantagem: eu me apaixonava com facilidade e isso foi um problema para mim. Sem vergonha nenhuma de dizer, tinha tanta namorada em São Paulo que eu ficava até com medo de não dar conta da responsabilidade. Mas como tudo tem sua época, aquela fase já passou. Tinha medo também porque sempre tem alguém olhando alguém, e às vezes eu chegava naquele alguém que estava me olhando e como eu não sabia se estava com alguém, podia dar um bolo danado. Igual a um samba do Nelson Cavaquinho que eu gravei há muito tempo (“Cheiro à vela”). [canta] “Não sei nada a respeito dela / Porque jamais convivi com ela / Se ela sai à noite, volta ao amanhecer / A mim não interessa / É o que deves fazer / Eu trato todos com muito respeito / Assim faz um homem o que é direito / Vou sair daqui / Seu caso cheira vela / Quem está te olhando é o marido dela”. Quer dizer, o marido dela é quem está olhando”. [risos] Então é esse negócio, naquela época eu não pensava nisso.
Tacioli – Já teve que sair corrido alguma vez?
Noite Ilustrada – Não, felizmente não. Mas uma vez na Ciroco, uma boate que geralmente abria à meia-noite e terminava quase meio-dia do outro dia, eu estava puro, sem más ou segundas intenções. O cara chegou com a criatura e sentou-se. Naquela época, a gente cantava com violão praticamente de mesa em mesa. Quando sentei à mesa, a mulher começou a cantar uma música com a letra errada, e eu a acompanhando. Quando terminou, falei: “escuta, será que essa música não é assim?!” querendo dar uma ajeitada. Daí o cara tirou um revólver da cintura: “E o que você tem com isso? A música não é assim? Ela não cantou assim? Você é muito metido, negão sem-vergonha, safado!” E aquele revólver apontado para a minha cara e eu sem saber o que fazer… Perdi a voz, fiquei cinza, qualquer cor. A dona da casa, uma mulher branca, vendo a situação deu uma “avoada” do lado onde ela estava e empurrou o cara. O revólver saiu para o outro lado, pegaram e guardaram. Ah! Rapá, foi a época em que fiquei mais doido da minha vida. Comecei a dar porrada no cara e não parei mais!
Tacioli – É mesmo?
Noite Ilustrada – Dei mesmo. O revólver na minha cara me assustou. Eu não estava com má intenção, estava tentando auxiliar, ajudar, mas não deu. Fui obrigado a pegar o cara dentro da boate.
Tacioli – Você era de briga?
Noite Ilustrada – Se precisasse eu estava sempre bem-disposto. Bem-desconfiado, bem-cabreiro com tudo. É, a gente vem do Rio com essas malícias de preocupação em torno da gente. Isso é desde garoto. Porque como eu disse para você, fui criado praticamente sozinho no mundo, sempre me vigiei, sempre me defendi mesmo quando havia necessidade. Já apanhei bastante também. Agora, o que eu pude bater, bati mesmo, e batia bem também, não era bobo não.
Tacioli – Já brigou com algum músico?
Noite Ilustrada – Músico?! De colega para colega não. Só discuti, mas brigar não.

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