gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

NoiteIlustrada-940

Noite Ilustrada

parte 2/14

Tomo o meu destilado!

Tacioli – O que você ouvia nessa época?
Noite Ilustrada – Em termos de música?
Tacioli – É.
Noite Ilustrada – Era a época em que existiam os conjuntos Os Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Curinga, o Bando da Lua, que ainda estava nos Estados Unidos. E como é que se chamava aquele, que até o Lúcio Alves fazia parte? Os… Garotos da Lua [n.e. Namorados da Lua, pilotado pelo mineiro Lúcio Alves, crooner, arranjador e violonista do grupo, criado em 1941 no Rio e desfeito em 1947], alguma coisa parecida, não estou bem lembrado. Então no colégio a gente se reunia e começava a fazer um negócio de conjunto. Nem sabíamos a letra direito, cantávamos do jeito que vinha à cabeça. Gostávamos porque era em grupo; tinha um conjunto aqui, outro ali. Eu tocava tantã, aquela com uma ”caixazinha”, com um “sonzinho” sem-vergonha, e cantava com o pessoal do grupo. Ouvíamos também os grandes medalhões como o João Petras de Barro [n.e. 1914-1947, a “Voz de 18 quilates”], Francisco Alves [n.e. 1898-1952, o “Rei da voz”], Orlando Silva [n.e. 1915-1978, “O cantor das multidões”), Sílvio Caldas [n.e. 1908-1998, “O caboclinho querido”], Cyro Monteiro [n.e. 1913-1973, o “Formigão”] e Ataulfo Alves [n.e. 1909-1969, o “General do samba”], mas gostávamos mesmo dos conjuntos, porque dificilmente alguém queria cantar sozinho. Todo mundo queria cantar junto, embolado. Se um errasse, erravam todos. [risos] Esse era o nosso clima!
Tacioli – Existia essa liberdade dentro do colégio?
Noite Ilustrada – Na hora de recreio é que a gente fazia essas palhaçadas todas.
[Denise, sua esposa, traz algumas porções, cervejas e pinga. Noite Ilustrada brinda com um copo em forma de bunda.]
Noite Ilustrada – Saúde!
Tacioli – Saúde!
Noite Ilustrada – Você viu a minha… [aponta para o copo] [risos]
Tacioli – Ia te perguntar. Qual é a pinga?
Noite Ilustrada – É do primo dela. Ele tem um sítio onde faz a pinga. É especial!
Tacioli – Mas nessa época você não tinha cristalizado a idéia de ser artista?
Noite Ilustrada – Não, não, nem me passava pela cabeça.
Tacioli – O que você esperava da vida?
Noite Ilustrada – Pensei que ia ser jogador de futebol, porque naquela época jogava pelo time do colégio.
Tacioli – Qual era a sua posição?
Noite Ilustrada – Lateral-esquerdo. Eu achava que jogava bem. Pensei até que ia ser jogador de futebol, mas depois de um problema de joelho (”deslocação de joelho”), fui perdendo o interesse e fui para o lado da música.
Tacioli – Como é sua relação com o futebol? Qual é o seu time?
Noite Ilustrada – Sou até hoje botafoguense, vou fazer o quê?! [risos] Aqui em São Paulo, não tem nada a ver, sou são-paulino. Mas sabe por que sou são-paulino? Eu trabalhava numa boate que parecia a Federação Paulista de Futebol; como tinha jogador de futebol! Como os jogadores estavam sempre me prestigiando, eu ia prestigiá-los em concentração, em treino, nessas coisas todas. Aí passei a ter amizade com Mauro [n.e. Maurinho, 1933, ponta e um dos maiores artilheiros do SPFC], Canhoteiro [n.e. 1932-1974, o Garrincha da ponta-esquerda, boêmio inveterado e um dos primeiros jogadores a ter fã-clube], De Sordi [n.e. 1931, lateral-direito campeão mundial em 58], Bauer [n.e. 1925, o “Monstro do Maracanã”, apelido ganho durante Copa de 1950], Dino Sani [n.e. 1932, médio-volante campeão mundial em 58] e comecei a torcer por eles. Hoje não tem mais ninguém, mas torço para a camisa do São Paulo. Infelizmente hoje não conheço a turma toda de lá.
Tacioli – Você chegou a jogar umas peladas com esse pessoal do São Paulo?
Noite Ilustrada – Não, não, só ia assistir.
Tacioli – Já tinha pendurado as chuteiras?
Noite Ilustrada – Na época eu não era jogador para concentração, não! A noite inteira eu tomando os meus álcoois, fumando como um louco, e ainda jogar futebol? Não dava, não combinava.
Tacioli – Você sempre gostou de beber?
Noite Ilustrada – Sempre. Naquela época eu tomava muito conhaque, mas não era um bêbado. Eu tinha um limite. Quando chegava determinada altura que eu via que não dava, tchau, bebida.
Tacioli – Quando você parou de fumar?
Noite Ilustrada – Tem uns oito meses. Pouco tempo. Fumei por quase 50 anos.
Tacioli – E qual foi o motivo para você parar de fumar?
Noite Ilustrada – Não sei, deu um estalo. Tava aqui um funcionário da nossa equipe que trabalha no estacionamento, aí peguei o charuto – eu fumava charutinho – “toma, leva tudo, a caixa, o charuto e o isqueiro”. Deu aquele estalo e parei de fumar.
Tacioli – Não teve médico na parada?
Noite Ilustrada – Não, não! Inclusive os médicos pediam, há mais de 30 anos, para que eu parasse de fumar. Mas continuei. Agora deu esse estalo, e pronto, parei.
Tacioli – Ainda sobre bebidas, teve uma época em que era só conhaque ou você passou por outras estações etílicas?
Noite Ilustrada – Não, do conhaque passei depois para o uísque. Fases, né? Depois só uísque, uísque, uísque, uísque. Em seguida, teve uma época Campari.
Tacioli – Campari?
Noite Ilustrada – É, Campari. Campari, Campari, Campari. Depois uma bebida que não sei se ainda está circulando, chamava-se Perno. Ô bebidinha sem-vergonha!! [risos] Não sei, cismava de beber aquele troço e ficava fora do ar. Aquilo quando pega é bem no cotovelo. Mas aí passou. Ah! Eu era chegado num vinho tinto, mas uma vez tomei um porre tão feio que cismei que estava saindo de mim. Aquele vermelhão no chão, fiquei com medo e nojo de vinho. Não bebo mais, só minha mulher que também gosta de cerveja. Cerveja não bebo. Eu tomo o meu destilado aqui!

Tags
Noite Ilustrada
de 14