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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 1/14

Meu nome é Mário de Souza Marques Filho

Noite Ilustrada – Meu nome é Mário de Souza Marques Filho. Nasci na cidade de Pirapetinga, Estado de Minas Gerais, no dia 10 de abril de 1928. Meu pai chamava-se Mário de Souza Marques. Minha mãe, Alexandrina de Souza Conceição. Aos cinco, seis anos eu já estava morando numa outra cidade próxima de Pirapetinga, que na época se chamava Porto Novo do Cunha, hoje chama-se Além Paraíba, uma cidade que faz divisa com o Estado do Rio e Minas Gerais.
Ricardo Tacioli – Que lembranças você tem da infância?
Noite Ilustrada – Olha, a minha infância foi um pouco tumultuada porque, infelizmente, meus pais se separaram muito cedo. Meu pai foi para o Rio de Janeiro e minha mãe ficou em Minas. Mas depois de uma temporada, uma senhora que foi morar no Rio e que precisava de uma empregada doméstica levou minha mãe junto. Foram os dois para o Rio e fiquei com a minha vó até cinco ou seis anos. Depois fui para o Rio, para a casa do meu pai. Mas ele trabalhava como motorista da General Electric, de lâmpada, e não tinha tempo de cuidar de mim. Então fui para o colégio interno, a escola SAM (Serviço de Atendimento aos Menores) e com oito anos para o Instituto Profissional Getúlio Vargas, também em Bonsucesso. Saí de lá com 16 anos com uma profissão. Trabalhava com móveis de vime. Fui trabalhar na fábrica de móveis da Casa Flor, na 28 de setembro da Vila Isabel. A maioria dos funcionários da Casa Flor era gente que morava na Mangueira, como o Cláudio, ritmista do Ataulfo Alves. De vez em quando eles me levavam para assistir ao ensaio no bairro – no Rio tem um bairro que se chama Maracanã, lá no Esqueleto, onde eles faziam reunião de samba e aquelas coisas todas. Eu não estava com sangue na veia para encarar, mas eu ia. Gostava, só gostava. Meu pai era batista e não era muito chegado nessas coisas de samba. Eu tinha que estar sempre fugindo para essas reuniões.
Tacioli – Você chegou a ter algum problema com o seu pai por causa dessas reuniões?
Noite Ilustrada – Não, porque graças a Deus eu me dava muito bem com o meu pai. Ele sabia que eu dava minhas escapulidas. [risos] Ele só não gostava, mas eu ia assim mesmo. Foi daí que o samba começou a entrar na veia e está até hoje. Não tem como tirar! Não posso, já me convidaram para gravar uma porção de estilos de música, mas do samba eu não saio não!
Tacioli – Seu pai tinha alguma relação com música?
Noite Ilustrada – Quando mais jovem era sanfoneiro.
Tacioli – Você se lembra de alguma coisa que ele tocava?
Noite Ilustrada – Não me lembro… Tenho a impressão de que quando ele tocava sanfona eu ainda estava sendo formado. [risos]
Tacioli – Qual era o contato que você tinha com sua mãe dos 6 aos 16 anos de idade? Como era esse relacionamento?
Noite Ilustrada – O contato foi mais difícil porque a minha mãe trabalhava como doméstica e meu pai não tinha tempo de me dar assistência. Praticamente minha vida foi dentro de colégio interno. De vez em quando, aos domingos, meu pai aparecia para me fazer uma visita. Acho que fui muito independente em termos de sobrevivência, porque me virei sozinho na vida. Tenho impressão de que sou ”autodidático” [sic] em quase em todas as situações da vida.
Tacioli – Você tem alguma mágoa desse período e desse afastamento dos pais?
Noite Ilustrada – Quando mais jovem eu sentia muito a falta dos meus pais. Chegava domingo ao colégio, a maioria dos alunos recebia visita dos parentes, e eu tinha que sair correndo para o campo jogar futebol porque não tinha visita para mim. Aquilo me deixava meio triste. A gente sente quando está passando aquela coisa na pele, mas hoje em dia não, entendo bem o problema. Eles eram separados, tinham uma vida. A vida de doméstica naquela época não tinha tanta facilidade, os patrões usavam os domésticos desde as 7 da manhã até as 10 horas da noite. Não tinha facilidade. O meu pai, por sua vez, também tinha obrigações com a igreja, com as reuniões particulares, já que era professor de inglês e motorista dos diretores ingleses da General Electric. Motorista e intérprete.

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