gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

NoiteIlustrada-940

Noite Ilustrada

parte 14/14

A única coisa que peço é para morrer em casa

Tacioli – O Silvio Caldas também morou em Atibaia. Como era a sua relação com ele?
Noite Ilustrada – Titio era muito importante para gente daqui. Silvio Caldas era carinhosamente chamado de Titio. Quando vinha em casa ele tinha seu lugarzinho. Sentava lá naquele cantinho, já estava meio adoentado. Ele tinha problemas para sentar, quero dizer, nádegas, já estava magrinho. “Escuta meu filho, me arruma um travesseiro porque vocês têm com que sentar, eu não tenho!” [risos] Era muito espontâneo, muito alegre. Ele vinha aqui e a gente cantava. Ele gostava de participar das reuniões que fazíamos, e foi numas dessas ocasiões que tive uma surpresa: ele cantou “Beco sem saída” e eu não sabia que a música era dele [n. e. Gravada por Silvio Caldas em disco homônimo, Continental 1974). Depois ele gravou com os Trovadores Urbanos. Achei que merecia uma outra gravação, não que eu fosse fazer melhor, mas era só para dar continuidade aquele repertório, àquela imagem bem feita de letra. Fiquei muito feliz por ter gravado.
Tacioli – Você acha que Silvio Caldas é lembrado como deveria?
Noite Ilustrada – Memória é um negócio muito sério. Vai fazer o quê? Nelson Gonçalves morreu há pouco tempo. Se a gente for pensar assim… Nem ligo mais porque acho que vou passar pelo mesmo problema. O Chico (Alves) se foi, ninguém lembra. O Orlando (Silva) se foi, ninguém lembra. O Carlos Galhardo se foi, ninguém lembra. O Ataulfo Alves também, e ninguém lembra. Vou fazer o quê? Comigo vai acontecer a mesma coisa.
Denise – Por que não se lembra?
Noite Ilustrada – Não se lembra porque não temos uma mídia radiofônica. O rádio é o maior meio de comunicação que você pode ter. Ele manda para as pessoas e elas assimilam. O rádio está fazendo um trabalho muito ruim em termos de memória da música popular brasileira. Não está dando uma assistência a essas situações, você esquece de um patrimônio de uma hora para a outra. Temos quem das antigas? Jamelão, Roberto Silva, eu, o Paulo Marques. É isso que vai ser.
Tacioli – Para encerrar: a vida noturna mexeu com sua voz? Que cuidados você toma hoje?
Noite Ilustrada – Acho quem tem mais cuidado com a minha voz é a minha mulher. [risos] Eu nem ligo muito. Não é que eu não ligo, não, faço o que posso, o que dá para segurar. Tomar meu “alquinho”, ninguém é de ferro! Em termos de preocupação, a única coisa que peço é para morrer em casa. Viajo muito e tenho medo de morrer fora de casa.
Tacioli – É mesmo?
Noite Ilustrada – É o que fica na minha cabeça. Viajo Brasil afora, mas fico doido para voltar para casa, porque tenho medo de morrer fora de casa.
Tacioli – Você tem medo de morrer, Noite?
Noite Ilustrada – Não, tenho medo de morrer fora de casa, porque, pense bem, vou dar um trabalho desgraçado. Trazer tudo. Morrer não, acho que é normal, já que estamos vivos, morrer é normal. Só não queria morrer fora de casa. Se morro aqui, é só pegar e levar ali, está pertinho. Mas sai de lá do Acre, bota no avião, leva para São Paulo, sai de São Paulo, leva para Atibaia, não-sei-o-quê, põe no sol.
Tacioli – É isso. Muito obrigado.
Noite Ilustrada – Obrigado você pela oportunidade.

Tags
Noite Ilustrada
de 14