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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 13/14

Se eu ficasse no Rio não seria artista profissional

Tacioli – Atualmente, que relacionamento você tem com o Paulo Vanzolini?
Noite Ilustrada – Faz tempo que a gente não se vê. Um dia desses eu estava fazendo um programa da Inezita Barroso e ela comentou sobre o Paulo, que também fazia tempo que ela não o via. Aliás, ela é quem ia gravar o “Volta por cima”, mas só que quando o Paulo apresentou o samba para Inezita, ela já estava terminando o disco e não cabia mais. Foi quando gravei essa música. Sabe quando foi a última vez que eu o vi? Você não vai acreditar! Lá em Roraima, no aeroporto de Rio Branco. Ele estava lá há dias, foi buscar umas baratas, aranhas, lagartos, ele trabalha com essas coisas [n.e. Paulo Vanzolini é doutor em Zoologia pela Universidade de Havard, EUA]. Conversamos um pouco. E não vi mais Paulo.
Tacioli – Ele falou que parou de fazer música.
Noite Ilustrada – Quem bebe da cachaça não pára assim tão fácil. Tá fazendo charminho.

Tacioli – Noite, se em vez de ter vindo para São Paulo você continuasse no Rio nos anos 50, que rumo poderia ter seguido sua carreira? Você já pensou nisso?
Noite Ilustrada – Já pensei. Acho que não seria artista profissional. Talvez estivesse fazendo outra coisa. O Rio, em termos de rádio, já estava completo. Você pegava o cast da Rádio Nacional estava todo completo. Pegava da Rádio Tupi, todo completo. Da Mayrink Veiga, todo completo. Da Rádio Guanabara, todo completo. Você não tinha espaço artisticamente para aparecer como cantor. Tinha sim uma série de programas de calouros, como do Renato Murce, do Pato, do Ary Barroso, mas isso não te dava condição de ser um profissional de rádio naquela época. Na Rádio Nacional quem mandava era o Chico Alves; quem mandava na Tupi, se me lembro bem, era o Gilberto Alves; na Mayrink Veiga era o Cyro Monteiro. Tinha em cada emissora um cast já pronto e com artistas de gêneros diferentes. Hoje é tudo o mesmo gênero, todo mundo faz a mesma coisa. Era cantor de valsa, fox; tinha aquele negócio de intérprete de cada gênero. Então, tudo era mais difícil. Sambista geralmente eram dois em cada emissora. Bom, aqui em São Paulo, tive a sorte de ser contratado no mesmo dia pela fábrica de disco e pela rádio. Para mim foi uma surpresa, vinha lutando há tanto tempo e de repente fui contratado pela Rádio Nacional e fábrica de disco Mocambo. Até fiquei desconfiado.
Tacioli – Como foi essa história?
Noite Ilustrada – Foi num aniversário do nosso saudoso e querido amigo H. Muniz, que era um jornalista que dava apoio e mídia a todos os cantores da madrugada. Quando fez aniversário, ele convidou os cantores da madrugada para participar. Foi na Adega do Arouche, lá no Largo do Arouche. E nessa festa tinha artista de circo, de televisão que estava começando, artista de cinema, de rádio. Tinha artista de todo o gênero e todos foram, porque ele era muito querido. Nessa apresentação de colega, cada um ia e cantava duas, três músicas. Chegou minha vez. Cantei a primeira música e fui aplaudido normalmente. Quando fui cantar a segunda, levantou-se um senhor da mesa e disse assim: “A partir desse instante, Noite Ilustrada está contratado pela Fábrica de Discos Mocambo”. A pessoa que disse isso chamava-se Eduardo Souza Costa, era o diretor da Mocambo naquela época, e veio morrer aqui em Atibaia também, infelizmente. Não veio me perseguindo, não!! [risos] Aí cantei outra música. Levantou-se outro senhor e: “E a partir desse instante, Noite Ilustrada está contratado pela Rádio Nacional de São Paulo”. Era o Edmundo de Souza, diretor da Rádio Nacional. Aí já fiquei meio preocupado, porque tinha muito uísque em cima da mesa. Todo mundo estava bêbado. Fiquei feliz com aqueles convites todos, cantei e voltei para a boate para dar continuidade ao meu trabalho, porque fui para a festa numa hora de folga. E passou uma semana. Daí a pouco apareceu o Eduardo Souza Costa. “Ô rapaz, você vai assinar o contrato ou não? Ele está lá em cima da mesa!” “Vocês estavam falando sério? Vi muito álcool sobre a mesa e…” “Não, é tudo sério. O contrato está lá em cima da mesa. Vá lá acertar esse negócio”. E fui assinar o contrato. Quem fez os arranjos foi o Erlon Chaves e a regência foi do Renato de Oliveira. Quis saber se o negócio era de verdade e fui até a Rádio Nacional. Cheguei lá e o Edmundo “Ô, até que enfim, vai assinar ou não?!” Daí passei a integrar o programa Manoel de Nóbrega. Essas coisas… Se eu tivesse no Rio isso não ia acontecer. Ia ser muito difícil, porque o campo já estava minado. O que não faltava no Rio era sambista. A essa altura, não seria eu que teria essa oportunidade no Rio. Tive em São Paulo.
Gafieiras – A música de São Paulo tem uma característica? Você consegue identificá-la?
Noite – Já teve. Hoje não tem mais. Você pode olhar, quase todas as escolas de samba tem sambista do Rio, quase todos os estúdios de gravação tem sambista ou músico do Rio, então hoje está tudo englobado, está tudo certinho. Não tem mais “o ritmo do Rio é mais assim, de São Paulo é mais assim”. Até pode ser que o Rio ainda conserve aquele clima quente em termos de gravação, de estúdio. Eles são mais apegados. O paulista é mais tímido. Mas não que ele não tenha competência, é só mais tímido. Acho que já houve problemas em termos de acompanhamento, que era um pouco mais quadrado, o estilo era um pouco mais paulista. Hoje nivelou geral.

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