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Entrevistas de música brasileira

Noite Ilustrada

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Noite Ilustrada

parte 9/14

Prestei concurso para ser motorista de caminhão da Prefeitura

Tacioli – Você disse que a música “Perfil de um sambista” resume sua trajetória.
Noite Ilustrada– Sem dúvida.
Tacioli – Como ela surgiu?
Noite Ilustrada  Tenho até a fita que o Adauto Santos fez para mim. Gosto de deixar guardado o que o compositor fez. Eu estava sentado aqui, tocou o telefone. Era o Adauto. “Oi Noite, como é que você está, é o Adauto!” “Onde é que você está?!” “Estou em Guararema!” “O que você está fazendo em Guararema?” “Estou na casa de uns amigos meus, e nós acabamos de fazer uma música para você!” “É mesmo, Adauto?” Eu já tinha gravado coisas do Adauto antes, como o “Chora viola” (Noite Ilustrada, Tapecar, 1975), que era dele e do Paulo Rogério. Gosto muito da maneira como ele fazia a música. O Adauto era desses compositores metódicos. “Quer ouvir aí?” “Pô, Adauto, pelo telefone?” Ele cantou a música com regional. Fiquei ouvindo, “Esses caras vão mexer na minha vida”. Cantou e cantou. “Legal Adauto, mande a fita!” Aí aparece o Faro. “Vamos fazer um disco?” “Vamos!” “Como é que está o repertório?” “O repertório está aí!” “Quero gravar suas coisas antigas. Você faz uma fita com essas coisas todas.” Mandei uma fita com mais de 50 músicas. Ele deve ter ficado doido com aquela montueira de músicas. “Mas com um adendo: eu gostaria de gravar essa música ‘Perfil de um sambista’. “Não tem problema, vamos gravá-la”. Ficaram essas 14 músicas que estão aí. Com o “Perfil de um sambista” o Adauto mexeu com “Volta por cima” e uma época difícil da minha vida, em que eu trabalhava em duas, três casas para sobreviver, tinha mulher, filho, aluguel e uma porção de coisas para resolver. Enfim, aqueles babados que o músico passa e que muita gente pensa que cai do céu. O Adauto, inclusive, foi colega de boate.
Tacioli – Isso nos anos 60?
Noite Ilustrada – Isso! Ele estava chegando do Paraná. Bom, aí comecei a analisar a letra [canta] “Chorei, eu sou um dos poucos que restam com fama de bamba / Sou a marca de um tempo, retrato de um samba / Que ilustrou tantos dias, noites e madrugadas / Chorei, já cai, levantei, conheci a descida / Aprendi bem depressa as lições dessa vida / Me tornei professor nesta minha jornada / Eu vi os janeiros passando no meu dia a dia / Fevereiro trazendo muita fantasia / Muito samba rolando muito carnaval / Eu fiz com que minha alegria alegrasse a tristeza / Fiz a vida a tornar uma linda princesa / Transformei o meu mundo no mais alto astral / As marcas dos meus dissabores o tempo apagou / As duras penas voaram para sempre, o vento levou / Falsos amigos, falsos amores, falsa canção feita sem rima / Tudo é passado, tudo acabado, é a volta por cima”. O Adauto foi muito feliz. Eu não saberia me retratar assim.
Tacioli – Que imagens passam pela sua cabeça quando você está cantando “Perfil de um sambista”? E que reação você teve quando ele te mandou a fita?
Noite Ilustrada – Ele veio aqui em casa duas ou três vezes, mas dessa vez ele mandou a fita. Você começa a ouvir essas coisas – sou muito emotivo – e se vê em situações que, “Poxa!, como é que ele foi colocar essa palavra no lugar certo? “Sou um dos poucos que restam com fama de bamba”. Sou pelo tempo de trabalho, pela idade que tenho, “Sou a marca de um tempo, o retrato de um samba”, um samba “Volta por cima”. Não me recordo direito, mas vou contar. A mim me dá muita afobação, vou acompanhando o roteiro da letra. No fundo também somos um pouco ator, por que pegamos uma letra, entramos dentro e começamos a viver aquilo. Às vezes você se encontra em situações embaraçosas, porque se a letra é de um compositor que fez para ele, é um assunto dele, e assim talvez você não se envolva tanto. Mas quando a música tem alguma relação com você, você se sente envolvido com aquele bolo.
Tacioli – Com que outras músicas você tem esse envolvimento?
Noite Ilustrada – Gosto muito de “Chuvas de verão” (Fernando Lobo). Não sei por que, acho uma letra bonitinha, descompromissada. [canta] “Podemos ser amigos simplesmente”, um negócio bem colocado. Tem outras músicas, “Meus tempos de criança” (Ataulfo Alves) me traz muita saudade. [canta] “Eu daria tudo que tivesse para voltar aos tempos de criança”. É lógico que pela infância que tive não era para ter muita saudade, mas sempre lembro de alguma coisa, como jogar peão no colégio.
Tacioli – “Perfil de um sambista” cita as descidas como metáfora de momentos difíceis. Como essas descidas pontuaram sua carreira?
Noite Ilustrada – Essa é uma frase bem aplicada, “Já caí e levantei, já conheci a descida”. Foi uma fase difícil o período do AI-5, com a censura caindo de todo o jeito em cima. Não tive problemas com a censura, mas ela andou fechando casas e atrapalhando a vida financeira dos músicos. Naquela época fiz um concurso para ser motorista de caminhão de lixo da Prefeitura. E felizmente passei no exame. Não havia trabalho, nem na noite, nem em viagens e shows. Depois de ter passado no exame, veio aquela preocupação. Não era vaidade, não! Talvez uma preocupação vaidosa, isso sim! Já pensou eu passando na avenida Ipiranga com a São João dirigindo um caminhão de lixo, passando no ponto dos músicos e todo mundo ali. É aquela vaidade boba que fica na cabeça. Mas naquele dia que eu estava fazendo exame, vi que muita gente tinha mais necessidade do emprego do que eu. “Posso até ir para um emprego desse, mas amanhã estou largando; vou tirar a posição desses caras que estão precisando”. Não fui! “Vou tentar outra coisa, não sei o que vou fazer”. Fiquei aguardando! Depois as coisas foram surgindo normalmente e a situação melhorou. Mas foi uma época muito difícil.
Tacioli – Gravar disco nessa época nem pensar?
Noite Ilustrada – Não se gravava. Parou tudo.

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