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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 8/15

Perfeição é uma meta inalcançável

Tacioli – Ney, você falou que o convite pro Secos & Molhados foi o caminho para a carreira profissional bem-sucedida. Antes disso, nessa época do show do Caetano lá em Brasília, quais eram os caminhos nos quais você arriscava para tentar uma carreira? Você vislumbrava alguma carreira?
Ney Matogrosso –
Não, eu não tentava, mas lá em Brasília eu me aproximei das artes, coisa que meu pai tinha vetado lá na infância. (Em Brasília) eu me aproximei porque aí eu era dono do meu nariz, eu vivia às minhas custas, e eu me aproximei de teatro, de música, de todas as manifestações artísticas. E ensaiei uma peça de teatro. Estava ensaiando uma peça do Dias Gomes quando houve a ditadura, o golpe militar, e não pode estrear porque era A Invasão, uma peça do Dias Gomes. E lá em Brasília eu cantei num coral; em Brasília eu cantei música popular brasileira pela primeira vez. Depois que eu me apresentei pela primeira vez – eram dois cantores, duas cantoras e uma banda –, nós fizemos um programa de televisão em Brasília: a gente tinha uma noite por semana na madrugada pra gente gravar o nosso programa. E em Brasília eu cantei numa boate.
Tacioli – Você lembra o que cantou?
Ney Matogrosso –
Ah, eu cantava “Upa neguinho”, essas músicas assim. Mas não era a minha, eu não achava que eu era cantor, achava que o fato de eu cantar era bom para o ator, mas ia lá. Aí eu tive contato com todas essas coisas, eu sabia que era arte. Aí teve um momento, quando eu cantava, que eu disse: “Mas é arte também. Tudo me interessa, tudo!”. Pintei, desenhei, (fiz) tudo o que era proibido pelo meu pai. Eu ficava em casa desenhando, pintando. O meu primo que era médico tinha outros amigos que frequentavam a casa, porque era uma casa de homens solteiros e eles iam pra lá. Aí tinha um que ficava lá comigo, eu ficava desenhando, tinha meu bloco de desenho, e ele pegava meu material, ele pintava, desenhava e a gente ficava lá. Era tudo assim. Aí ele se casou e eu e o irmão dele tivemos que rapar fora. [risos] Aí eu aluguei (um quarto) na casa de um amigo que tinha um apartamento – todos eram funcionários públicos, ganhavam muito bem e tinham apartamentos maravilhosos. E aí eu fui morar na casa de um deles. Aluguei um quarto e ali dentro era meu. Era a casa dele, não era a minha casa, a minha casa era aquilo ali que eu alugava, na minha cabeça, né? E convivi com ele alguns anos ali assim, mas ele na dele e eu na minha, ele não invadia, eu não invadia. Eu sempre tive essa coisa civilizada de espaço, de respeitar isso das pessoas, sabe? Quando você vai sozinho pra vida você tem que aprender, porque se você invade, você toma. Então, sempre fui muito ciente dessas coisas assim. Por exemplo: a Luhli depois contou uma história uma vez, numa entrevista, que quando eu ia na casa dela fazer meu artesanato – ela morava em Santa Teresa em uma casa que tinha um quintal, então podia sujar porque usava cola e tal – e eu tomava banho, parecia que ninguém tinha entrado naquele banheiro. Eu tinha secado o chão, eu tinha deixado o banheiro sequinho como eu o encontrei. E aí depois a Luhli fez esse comentário. Eu fazia isso mas não fazia pensando nisso, eu fazia porque eu achava que tinha que ser assim, que todo mundo tinha que fazer assim, que era assim que se fazia. Eu não considerava isso algo excepcional de alguém, né? E a Luhli, em uma entrevista, falou que eu parecia um gato, que eu passava na casa dela e que ninguém percebia que eu tinha passado, que eu tomava banho e o banheiro ficava seco. “Meu Deus do céu, mas ela notava que o banheiro ficava seco?!” Aí foi que eu me toquei…
Wal Raizer – Que as pessoas fazem diferente.
Ney Matogrosso –
Sim.
Raquel Zangrandi –
Uma vez você falou que essa disciplina veio do seu pai.
Ney Matogrosso –
Sim, sim, que hoje em dia é muito útil.
Raquel Zangrandi –
E que você veio a reconhecer depois.
Ney Matogrosso –
Sim! Quando ele exigia, eu odiava. Hoje em dia eu agradeço, sabe por quê? É muito útil, muito útil, é muito bom ser disciplinado.
Tacioli – Você se considera perfeccionista?
Ney Matogrosso –
Sou, sofro desse mal. Isso gera ansiedade, porque a perfeição você não alcança. É uma meta inalcançável, e nunca você está satisfeito. Então é muito estranho porque provoca uma ansiedade que é ruim, mas a meta é (a perfeição)!
Tacioli – E na carreira teve algum momento que esse perfeccionismo atingiu um ponto que atrapalhou demais?
Ney Matogrosso –
Não, não, o perfeccionismo não atrapalha, né? Mas, por exemplo, o Caetano fez um comentário quando foi ver o Homem de Neanderthal, que foi o meu primeiro trabalho solo. Ele disse que achou tudo tão bem posto que o incomodou, porque chegava a ser frio… Eu não sorria. E era milimetricamente organizado, não havia margem para improviso, não havia margem para interferência da plateia.

Sempre fui ligado nos cheiros da natureza

Raquel Zangrandi – Você mesmo dirigiu o show?
Ney Matogrosso –
Eu mesmo dirigi o show.
Raquel Zangrandi – A concepção era sua?
Ney Matogrosso –
Toda minha.
Tacioli – E pegou no “figo” esse comentário.
Ney Matogrosso –
Sim, mas foi muito bom, muito bom, porque o Bandido, que foi o seguinte, já não tinha isso. Bandido já era humanizado, eu já ria, podia tropeçar, porque eu entendi que não precisava desse rigor, mas tinha no Bandido a meta da perfeição, mas já mais descontraído, sabe?
Wal Raizer – A perfeição era não ser tão perfeito.
Ney Matogrosso –
Sim, porque no Homem de Neanderthal era rigoroso. Começava assim: as pessoas entravam no teatro, elas já ouviam sons de pássaros e elas pisavam sobre galhos que provocavam odores, folhas que provocavam odores dentro do ambiente. Eu queria dar um toque de bosta seca de boi misturado com eucalipto, achava que ia ficar um perfume maravilhoso. Aí disseram: “Cê tá maluco?! Vai botar bosta de boi aqui dentro?!”. “Mas as pessoas não vão notar que é bosta de boi.” Aí, pra não criar problema, botei somente eucaliptos. Então as pessoas pisavam nos eucaliptos e liberava um perfume. A primeira tiragem do disco, quando você o abria, exalava um odor. Tinha a um incenso lá dentro triturado e quando você abria (o disco) exalava um perfume. Mas somente na primeira tiragem porque era feito à mão. [risos]
Raquel Zangrandi – O que te inspirou?
Ney Matogrosso –
Era para estimular os sentidos das pessoas.
Raquel Zangrandi – Você tinha visto em algum lugar?
Ney Matogrosso –
Não vi em lugar nenhum, foi da minha cabeça. Sempre fui ligado nos cheiros da natureza, então eu queria levar aquele cheiro pra dentro. Tem um lugar dentro da Mata Atlântica, não é encostadinho, é dentro da Mata Atlântica, em que o som da noite é algo impressionante. Eu gravei 12 horas desse som. Eu quero fazer alguma coisa com isso. Eu quero botar em algum ambiente pras pessoas ouvirem, pra elas saberem que isso existe, sabe? Porque não é (sempre) o mesmo (som), vai chegando mais tarde, outros sons vão aparecendo. Tem uma hora em que as corujas começam a cantar, mais adiante tem outros pios. É uma coisa, é uma viagem! É uma coisa que não é igual. E todo dia não é igual porque depende da estação, depende se choveu, depende se tá seco, depende… Tenho isso gravado de vários dias e eu queria fazer alguma coisa. Está guardado.
Raquel Zangrandi – Um outro show…
Ney Matogrosso –
Não sei… Eu queria fazer uma instalação, queria um ambiente para as pessoas se deitarem em redes, sabe? Fazer uma luz bem suave e elas ficarem deitadas. Sei lá, fumar um baseado e ir lá! [risos]
Wal Raizer – Uma pajelança.
Ney Matogrosso –
É, é.
Wal Raizer – Você já foi a Inhotim?
Ney Matogrosso –
Não.
Wal Raizer – Tem a Sala dos Sentidos, em que você entra e sente. É incrível!
Ney Matogrosso –
Pois é, então já existe isso.
Max Eluard – O Oiticica fez também com as Cosmococas
Ney Matogrosso –
Mas era o quê?
Max Eluard – Aqueles penetráveis dele… Era uma instalação mesmo.
Ney Matogrosso –
Sim, mas tinha essas sonoridades da natureza?
Max Eluard – Não, não, era o contrário, era justamente a urbanidade, a coisa da viagem da droga e estímulos da indústria cultural.
Ney Matogrosso –
Sim, sim, automóveis e…
Raquel Zangrandi – Você pode fazer o da natureza.
Wal Raizer –
Relax.
Raquel Zangrandi – Tem que durar seis horas para o pessoal ficar lá…
Ney Matogrosso –
Eu peguei o gravador e saí. Tinha uma trovoada esparsa, mas uma trovoada longe. Aí eu caminhei pela mata, os passarinhos…
Raquel Zangrandi – Você sozinho?
Ney Matogrosso –
Sozinho. Passarinhos… Caminhei até a cachoeira e captei o barulho da água caindo, quase encostei na água que caía. Aí, quando eu voltei ao caminho, começou um vendaval. Aí fiquei gravando o vendaval e depois eu me sentei em um lugar que, quando o vento batia, umas sementinhas caíam, “papapapapapa”. Eu gravei isso tudo. E as trovoadas foram ficando mais frequentes. A última foi um estrondo! Tenho tudo isso gravado, que eu chamei de “Tarde elétrica”. É uma coisa de duas horas, uma tempestade se aproximando, mas não sei se alguém tá interessado nisso. Eu tô!

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