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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 7/15

Caetano estava lindo!

Raquel Zangrandi – E você ouvia polca paraguaia e música sertaneja?
Ney Matogrosso –
Polca eu ouvia lá nas festas da fazenda. O que eles tocavam era polca.
Raquel Zangrandi – Você nunca gravou polca?
Ney Matogrosso –
Não, nunca gravei polca, mas já gravei ritmos assim…
Raquel Zangrandi – E o sertanejo, você nunca pensou em fazer…?
Ney Matogrosso –
Eu não considero isso que tá aí sertanejo. Eu gravei com o…
Raquel Zangrandi – Lucio e Lucinho, Milionário e José Rico?
Ney Matogrosso –
Não, não, não! Os primeiros, a dupla?
Wal Raizner – Tonico e Tinoco?
Ney Matogrosso –
Tonico e Tinoco! Gravei com eles há muito anos. Gravamos a “Tristeza do Jeca”. [n.e. O clássico caipira de Angelino de Oliveira foi gravado ao vivo no programa “Som Brasil”, da TV Globo, e lançado em 1985 em disco (Tonico e Tinoco – 50 Anos)]

Ney Matogrosso e a dupla Tonico e Tinoco no programa “Som Brasil” comandado por Lima Duarte. Foto: Jornal Sertanejo/Reprodução

Raquel Zangrandi – Mas um disco de sertaneja mesmo você não pensou?
Ney Matogrosso –
Não.
Raquel Zangrandi – Não teve vontade de fazer?
Ney Matogrosso –
Já tive vontade de pegar aquele repertório lá da fronteira e isso ainda pode ser um dia… Como é, músicas como a do beijinho, como é? Era uma dupla, um homem e uma mulher que cantavam, “Penas do Tiê”.
Tacioli – Inhana e Cascatinha…
Ney Matogrosso –
Cascatinha e Inhana! Qual era uma música muito conhecida deles?
Tacioli – “Meu primeiro amor”.
Ney Matogrosso –
“Meu primeiro amor”! É lindo “Meu primeiro amor”. [n.e. Formada pelo casal Francisco do Santos (1919-1996) e Ana Eufrosina da Silva (1923-1981), a dupla Cascatinha & Inhana foi um dos principais nomes da música caipira entre os anos 1950 e 1980, com sucessos como “Meu primeiro amor”, “Índia”, “Colcha de retalhos” e “Flor do cafezal”]

Raquel Zangrandi – Poxa, seria incrível você gravar isso.
Ney Matogrosso –
Mas eu vou cantar um dia! Eu tenho um amigo que uma vez me propôs fazer um repertório com músicas de lá. E ele fez um levantamento. Ele tem todo esse material. E um dia eu faço. Eu não tenho pressa, porque isso aí não vou fazer pra vender, é uma curtição minha.
Tacioli – Ney, nesse período pré-carreira, tinha algum artista que era totalmente contrário ao seu gosto?
Ney Matogrosso –
Contrário ao meu gosto?
Tacioli – Essa banda, esse artista, não tem nada a ver…
Wal Raizer –
Que você não gostasse…
Ney Matogrosso –
Não, que eu não gostava, não. Antes da carreira, você fala?
Tacioli – Antes, é.
Ney Matogrosso –
Não, não. Tinha quem eu gostava muito: Caetano Veloso. Eu achava excitantíssimo o Caetano Veloso. Ele me provocava estímulos que nenhuma outra pessoa jamais tinha provocado. Na Tropicália, né? E eu pensava assim: “Ah, se eu fosse artista, eu queria ser uma coisa assim como ele!”. Eu não queria ser ele, eu não queria fazer o que ele faz, mas eu queria estimular as pessoas como eu me sentia estimulado por ele. E creio que consegui, creio que consegui. Foi uma influência muito benéfica.

Raquel Zangrandi – Quando você o conheceu disse isso pra ele?
Ney Matogrosso –
Já disse isso pra ele.
Raquel Zangrandi – Quando você o viu pela primeira vez?
Ney Matogrosso –
Eu vi quando morava em Brasília, eu era funcionário público em 62, 63, e ele não tinha sido banido do Brasil, e fui na única sorveteria que tinha na cidade, que era em frente ao Hotel Nacional, onde ele estava hospedado. E quando eu estava saindo da sorveteria – ele estava lá num show da Rhodia com o Gilberto Gil, Rita Lee – e Caetano Veloso estava lindo, de cor-de-rosa daqui até aqui. Homem não botava cor de rosa nem numa linha. Fiquei olhando pra ele e não tive coragem de falar com ele, não tive coragem! Não tietei, nem cheguei perto; fiquei de longe, olhando deslumbrado a imagem daquele homem de cor-de-rosa, com os cabelos enormes. E eu já gostava dele, eu já ouvia tudo dele, ficava esperando o disco dele sair. Ele era uma coisa que já me estimulava, porque eu via que tinha uma coisa, que ele era um transgressor no comportamento.
Raquel Zangrandi – Quando você o encontrou pela primeira vez, teve o primeiro contato?
Ney Matogrosso –
Foi na Bahia quando eu fui fazer (show) com o Secos & Molhados.
Raquel Zangrandi – E ele foi?
Ney Matogrosso –
Ele foi ver na Concha Acústica. E no dia seguinte a gente se encontrou na praia. Aí ele disse que não viu muita diferença em mim, porque hoje em dia ele acha que sou muito diferente no palco. Mas disse que não me achou muito diferente, não porque ele me viu nu, porque na Bahia eu me apresentei praticamente nu, eu tinha um tapa-sexo, tinha um objeto de macramê que tinha uma coisa aqui e outra atrás. E eu entrei só com isso e aquela pena de um metro na cabeça. E na praia, no dia seguinte, eu estava com uma coisa que era praticamente um tapa-sexo, só tinha uma bundinha fechada aqui.
Raquel Zangrandi – Mas você estava maquiado no palco?
Ney Matogrosso –
Estava maquiado, mas ele disse que não achou muito diferente porque estava nu nas duas situações. Mas, (tempo) mais tarde, ele acharia muito diferente o civil do (artista)… [ri]

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