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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 6/15

Onde você conseguiu esse dinheiro?!

Tacioli – Ney, qual foi a sua primeira percepção do sucesso, de que forma ele se materializou pra você?
Ney Matogrosso –
Quando eu entendi (o sucesso)?
Tacioli – “O impossível tá na minha mão!”
Ney Matogrosso –
O impossível não estava na minha mão, não! Eu estava na praia, porque ninguém sabia quem eu era, eu podia ir à praia, podia ir a todo canto, e estava assim numa segunda-feira no Rio de Janeiro, jogado no sol, aí passou um caminhão de lixo com um negão lá em cima – não eram esses caminhões, eram outros –, e o negão cantando “O gato preto…” com aquela voz fininha. Aí eu entendi! “Ih, atravessou, chegou lá, chegou lá!” E a Luhli me disse que foi ao Amazonas fazer um passeio num igarapé, lá no meio do Amazonas, e tinha um radinho de pilha e o “Vira” tocou lá no meio daquele igarapé e as pessoas começaram a cantar. Aí ela disse: “Ney, olha, em um igarapé no Amazonas…” “Então, tá, foi, agora é tarde!” [n.e. Luhli (Rio de Janeiro, 1945) é cantora, violonista e compositora, assinando alguns sucessos gravados por Ney, como “O vira” e “Fala” (ambos com João Ricardo), “Coração aprisionado”, “Bugre”, “Napoleão” e “Bandolero”, estas com Lucina, com quem formou dupla por 25 anos]
Max Eluard – Mas qual foi sua sensação? Espanto?
Ney Matogrosso –
Não, não, eu gostei, eu gostei quando eu vi aquele camarada, que você não podia imaginar nunca aquele negão fazendo uma voz fina, lá em cima do caminhão cantando. Eu achei ótimo, achei ótimo!
Tacioli – Tem a ver com aquele “quero mais” de quando você saiu de casa aos 17 anos?
Ney Matogrosso –
Não, porque eu não tinha essa ambição. Eu queria ser ator e eu sabia que ator não é isso, ator não tem esse alcance, esse alcance é um alcance que só a música proporciona. Eu não podia imaginar nunca que eu chegaria a isso. Nunca, nunca imaginei.
Tacioli – Das pessoas incorporarem algo que você (faz)…
Ney Matogrosso –
Sim, de transpor essas barreiras todas e de chegar tão longe, nunca que eu podia imaginar isso. Eu achei que eu ia ser um ator, que ia fazer uma carreira de teatro. Não era a televisão (que eu queria), não existia isso na minha cabeça, ator de teatro, de estiva, sabe?
Tacioli – E com esse primeiro sucesso, você disse ”agora posso fazer tal coisa” e você fez tal coisa. O que foi essa tal coisa? Quando você estourou com o Secos & Molhados, qual foi o primeiro desbunde?
Ney Matogrosso –
Não, não, não, não teve, não teve. Ah, teve: eu chamei todos os meus amigos que moravam em Brasília pra morar comigo e banquei todo mundo. [risos] Banquei todo mundo.
Raquel Zangrandi – Aqui no Rio?
Ney Matogrosso –
Lá em São Paulo. Aluguei um apartamentinho, um sobradinho, e chamei meus amigos pra morar comigo. Olha uma história: um dia eu fui ao banco com um saco de papel pardo cheio de dinheiro pra depositar, isso nos anos 70, anos negros, de chumbo, e entrei e ninguém me conhecia porque ninguém sabia quem eu era, né? Entrei de macacão sem camisa, uma pulseira de chifre de boi aqui [risos], cabeludo… Quando fui depositar quase fui preso. Me levaram pra dentro!

Ney Matogrosso na revista Pop em 1978; texto de Caco Barcellos e fotos de Devania Toledo. Foto: reprodução

Raquel Zangrandi – “Vai assaltar!”
Ney Matogrosso –
Sim, porque assaltavam bancos, tinha guerrilha que assaltava bancos. Aí me levaram lá pra dentro e me deram uma dura: “Onde é que você conseguiu esse dinheiro?” ”Ué?! Trabalhando! Ué, como consegui esse dinheiro? Trabalhando!” “Mas em que você trabalha pra ganhar esse dinheiro?!” “Sabe esse que canta pelado na televisão? Sou eu!” Aí eles devem ter ligado uma coisa a outra. “Mas você não pode abrir uma conta aqui, não. Você tem que ter um fiador pra abrir conta.” “Fiador? Tá bom, então me dá meu dinheiro aqui.” Levei o dinheiro pra casa, tinha um quarto aqui, o meu quarto ali, uma sala, um cantinho ali, eu botei o saco de dinheiro lá e disse (bate palmas): “Tá aqui, moçada! Não posso abrir conta, vamos gastar esse dinheiro!”. [risos]
Raquel Zangrandi – Foi um desbunde.
Ney Matogrosso –
E gastamos. [risos]
Max Eluard – Quanto tinha?
Ney Matogrosso –
Ah, tinha um saco cheio de dinheiro, gente, eu não sei, era um saco de papel pardo cheio de dinheiro. [risos]
Raquel Zangrandi – Fez a alegria da moçada.
Tacioli – Quantos amigos, Ney? Era turma que trabalhava com você (em Brasília)?
Ney Matogrosso –
Eram os meu amigos de Brasília.
Raquel Zangrandi – Mas o quê, uns cinco, dez?
Ney Matogrosso –
Não, eram dois que viraram quatro, porque cada um tinha seu namorado, seu agregado, seu não-sei-o-quê, e foi tudo parar dentro de casa.
Tacioli – E depois do saco, mais uns 15 amigos. [risos]
Ney Matogrosso –
O Mauro Rasi morava lá nesse tempo também. [n.e. Escritor e dramaturgo nascido em Bauru (1949-2003), escreveu para programas televisivos marcantes, como Armação ilimitada e TV Pirata, ambos da TV Globo]
Raquel Zangrandi – Olha!
Tacioli – Isso era no Bixiga, Ney?
Ney Matogrosso –
Não, isso já era ali naquela Fernando de Albuquerque, que agora é ponto de travesti, bem ali na esquina onde eu morava, que não era. Era um sobradinho que está ali ainda, um sobradinho de dois andares. [n.e. Rua Fernando de Albuquerque é uma travessa entre a Rua da Consolação e a Rua Augusta, em São Paulo]

[Toca um celular]

Ney Matogrosso – É o meu? Não vou atender.
Raquel Zangrandi – Não quer atender?
Ney Matogrosso –
Quem pode ser? Não faço ideia. Não, deixa, depois eu falo.

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