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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 5/15

Em dois anos conhecemos o Brasil inteiro

Tacioli – Ney, como se chamava seu primo?
Ney Matogrosso –
Dodi.
Tacioli – Do mesmo jeito que o Dodi dizia “Esse não é o Ney”, que outras reações surgiram na família ou no círculo próximo quando você apareceu (como artista)?
Ney Matogrosso –
Ah, meu pai ficou chocadíssimo, porque a primeira vez que ele me viu na televisão, eu estava com uma calça de odalisca, com elástico aqui embaixo, então eu fechava a perna, parecia que eu estava de saia. Foi o que mais o incomodou. Eu estar pintado, com pena, me requebrando, era difícil engolir, mas ele engolia. Mas, eu de saia, ele achou que era uma saia, isso o deixou incomodado, perturbado. Minha mãe, ria, minha mãe achava engraçado.
Raquel Zangrandi – E seus irmãos?
Ney Matogrosso –
[pensativo] Olha, meus irmãos gostaram porque aí ficou famoso e as pessoas gostam de ter alguém famoso na família. [ri]
Max Eluard – Se ficasse fazendo isso na praça da cidade não iam gostar.
Ney Matogrosso –
Pois é, não iam gostar, mas como eu fiquei conhecido no Brasil inteiro, apareci na televisão, aí tudo bem, né?
Max Eluard – É o aval do sucesso.
Ney Matogrosso –
É.
Wal Raizer – Com esse tanto de shows e de viagens, você conseguia conhecer outras pessoas, as pessoas na cidade, além da equipe de produção?
Max Eluard – Você conseguia se relacionar com os lugares?
Ney Matogrosso –
Olha, no Secos & Molhados era impossível! No Secos & Molhados a gente batia e saía, chegava, fazia o show e saía.
Raquel Zangrandi – Também foi meteórico, muito rápido.
Ney Matogrosso –
Foi. Em dois anos conhecemos o Brasil inteiro de ponta a ponta. E chegava lá, era cordão de isolamento, era polícia, era outro esquema. Quando eu fiquei sozinho, aí eu comecei a fazer temporadas. Aí eu chegava, ficava uma semana nos lugares, aí eu andava, conhecia pessoas, ficava amigo de pessoas, ia na praia com pessoas, ia em festas de pessoas e…
Max Eluard – Isso te estimulava? Você buscava conhecer e ver os lugares?
Ney Matogrosso –
Ah, eu gostava, eu gostava, sim. Essas pessoas iam me mostrar os lugares mais interessantes das cidades, as praias mais bonitas. Era diferente. Mas eu tive esse tempo somente depois que eu fiquei sozinho.
Raquel Zangrandi – Que era muito legal.
Ney Matogrosso –
É, e se fazia temporada, hoje em dia nem aqui se faz, nem em São Paulo. Eu me lembro que eu fui ao Piauí e fiquei de terça a domingo num teatro fazendo show. Ninguém fica mais de terça a domingo em lugar nenhum.
Wal Raizer – A pessoa vai, faz um show e volta.
Ney Matogrosso –
É.
Raquel Zangrandi – Isso em que época?
Ney Matogrosso –
No final dos anos 70, quando eu já estava sozinho. Eu saí dos Secos & Molhados em 74; em 75 eu estreei o Homem de Neanderthal. Eu já tô falando do Bandido, que foi em 77.

Secos & Molhados. Segundo a publicação, desde 1965 com Roberto Carlos não havia surgido um artista ou grupo que vendesse tantos discos e shows. Fotos: reprodução

 

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