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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 4/15

Só tinha um corpo e uma voz

Tacioli – Ney, desse período da vida, que para todo mundo é fundamental, o que você pontua que contribuiu para sua formação? Tem alguma coisa desse período no Mato Grosso, no meio do mato, (que influenciou) a forma que você leva (a vida) profissionalmente?
Ney Matogrosso –
Não sei te dizer. Agora, lá dentro de mim, no meu íntimo, eu tenho uma ligação muito forte com aquela região do Brasil. De alguma maneira isso sempre aparece no meu trabalho. Eu canto sempre em espanhol, é uma coisa que não é muito comum. O Caetano fez um trabalho assim, mas no meu está sempre presente. [n.e. Álbum Fina estampa, 1994, em que o tropicalista interpreta em espanhol obras de compositores latino-americanos, como Fito Paez, Agustín Lara, Astor Piazzolla e Ernesto Lecuona] Eu sempre tô cantando alguma coisa em espanhol porque eu tenho essa referência muito presente dentro de mim. Agora não sei te dizer outro reflexo disso, não sei. Quero dizer, tem o reflexo humano, essa coisa que eu acabei de contar, isso é muito forte em mim. E essa coisa de ficar sozinho também… Teve uma época, quando eu fui parar em Campo Grande, já adolescente, eu cheguei no ginásio e não quis fazer amizade com ninguém, porque eu já estava escaldado de chegar numa cidade, fazer amigos, amiguinhos no colégio, e meu pai ir embora, me arrastar e eu perder todos meus amigos. Eu chegava em outro lugar, eu tentava, começava a fazer amigos, ele me arrastava pra outro lugar. Então, cheguei em Campo Grande e disse: “Eu não quero amigo!”. E fechei. “Não quero amigo!”
Max Eluard – Uma defesa.
Ney Matogrosso –
Sim, pra não perder. “Não quero amigo!” Então isso foi o princípio desse costume, porque é um costume ficar sozinho: se você não sofre, você se acostuma com isso, né? É um resultado disso. E também eu saí de casa com 17 anos, fui viver minha vida sozinho, me bancando, às minhas próprias custas. Então, também era sozinho.
Raquel Zangrandi – Seus irmãos, nessa mesma idade em que você saiu, também tinham isso ou estavam na casa dos pais?
Ney Matogrosso –
Não, eu fui o único, eu fui o único! Eu saí com 17 anos em 1959. Ninguém saía de casa. Filho homem saía de casa com 21 pra casar.
Max Eluard – O que te moveu naquele momento?
Ney Matogrosso –
Ah, era muito pouco, eu queria mais, eu queria mais. Além dos conflitos com meu pai, que foram um pretexto, aquilo lá era muito pouco, eu queria mais, eu queria saber mais, eu achava que tinha mais no mundo. Eu queria mais, aquilo lá não me satisfazia, não! Não tinha nada, não tinha nada, não tinha arte, não tinha arte, eu queria arte!
Raquel Zangrandi – E você veio para o Rio, né?
Ney Matogrosso –
Vim pro Rio.
Raquel Zangrandi – Tinha um primo ou conhecido seu, meio o ovelha negra da família, que era seu amigo. Qual era o nome? Não sei, falavam que “são os dois desgarrados da família”…
Ney Matogrosso –
De quem você está falando?
Raquel Zangrandi – Um amigo de adolescência, não sei se era de Brasília ou se era do Rio…
Ney Matogrosso –
Eu tinha um primo aqui que, depois que saí da Aeronáutica, eu fiquei na casa da mãe dele. Era o tempo da juventude transviada. E ele tinha uma turma, que à noite pegava os automóveis das pessoas, abriam faziam ligação direta e saíam zoneando pela cidade com os carros, só que devolviam. Mas, de qualquer maneira, a mãe quando soube achou que o filho era um marginal. O irmão dele era médico, estava em Brasília, e para livrar a mãe do irmão que ia virar um marginal e do outro que só pensava em ser artista, que era eu, chamou a gente pra Brasília. Aí nós fomos pra Brasília trabalhar. Foi lá que eu trabalhei pela primeira vez, fomos ser funcionários públicos.
Wal Raizer – Você trabalhou com criança?
Ney Matogrosso –
Inicialmente eu fui fazer lâminas de biopsia no laboratório de anatomia patológica. Já lidava com morto. No primeiro dia em que eu cheguei, vi um morto aberto. “Ah, meu Deus, é isso?!” Mas gente acostuma com tudo.

Ney de Sousa Pereira aos 17 anos de idade, época em que se mudou de Campo Grande para o Rio de Janeiro. Foto: reprodução

Raquel Zangrandi – Você tem contato ainda com esse primo?
Ney Matogrosso –
Ele morreu recentemente.
Raquel Zangrandi – Mas você eram (próximos)…?
Ney Matogrosso –
Sim, a vida toda. Na verdade, ele não era meu primo. A mãe dele era madrinha da minha mãe e sempre moramos juntos aqui em Padre Miguel. Todos morávamos próximos, uma casa na frente da outra, então éramos parentes, né?
Raquel Zangrandi – Vocês ao longo da vida…
Ney Matogrosso –
Continuamos amigos, sim. E ele era muito engraçado…
Raquel Zangrandi – E ele virou o quê, que profissão ele teve?
Ney Matogrosso –
Ele continuou trabalhando no hospital. E quando eu comecei a aparecer, ele ria muito. Dizia: “Você é muito doido!”. Ele ria porque ele me conhecia, imagina, teve um tempo em que só tinha uma cama e a gente dormia junto, eu e ele. E a gente ia trabalhar junto, a gente vinha junto, a gente voltava junto. Era como se fosse meu irmão. E ele me conhecia bem, né? E ele, quando viu aquilo, ele ria, achava aquilo tão engraçado. “Mas não é você, Ney!” “Sou eu, sim!” “Mas eu nunca vi isso!” “Nem eu tinha visto, nem eu sabia que isso existia!” Eu estranhava quando eu via as fotos do Secos & Molhados, sabe? Eu via aquelas fotos e dizia “Mas não sou eu!”.
Raquel Zangrandi – Você foi autodidata.
Ney Matogrosso –
Sim, não foi premeditado.
Raquel Zangrandi – Quando foi que você resolveu vestir calça branca de cetim, grinalda e…?
Ney Matogrosso –
No primeiro momento em que eu pintei o rosto, uma força se revelou que eu não sabia que existia. Claro, eu não tinha rosto, eu não era ninguém, eu não era alguém. Eu só tinha um corpo, um corpo e uma voz.
Raquel Zangrandi – Tinha 19, 20 anos?
Ney Matogrosso –
Não, eu tinha 30! Eu tinha 30 e vivi e fiz muita coisa antes de chegar aí.
Wal Raizer – Pra poder chegar até aí.
Ney Matogrosso –
É, pra poder chegar até aí, claro.
Raquel Zangrandi – Trinta com um corpinho de 18.
Ney Matogrosso –
Mas eu nunca aparentei a minha idade, é muito engraçado isso. Eu olho pra aquela barriga e falo: “Gente, como é que eu tinha aquele abdômen se eu não tinha nenhuma preocupação com isso, com ginástica?!”. Eu achava ginástica uma americanalice. “Fazer ginástica é coisa de americano!” Quando eu vejo as imagens dos Secos & Molhados que volta e meia aparecem aí, lá no Maracanãzinho, digo “Porra, que barriga é essa que eu nunca tive?!”.
Raquel Zangrandi – Mas devia andar muito a pé, era uma outra vida…
Ney Matogrosso –
Eu ia à praia, eu andava pela areia, eu andava a pé, não tinha dinheiro, eu andava a pé, muito, né?
Raquel Zangrandi – Uma coisa não contabilizada mas que no fundo conta: fazer atividade física normal da vida te deixa sequinho.
Ney Matogrosso –
É. E sempre comi pouco, porque sempre gostei de comer pouco.
Raquel Zangrandi – O que agora dizem que é o segredo da longevidade.
Ney Matogrosso –
Pois é, agora é o segredo da longevidade.

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