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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 3/15

Meu avô era muito respeitado e temido

Tacioli – Só pra fechar esse ciclo, em Mato Grosso você já era um pré-adolescente.
Ney Matogrosso –
É, mas ali em Mato Grosso era tudo diferente, a influência, a informação. Ali fiz contato com a natureza. Eu morava aqui em Padre Miguel, e Padre Miguel era zona rural. Tinham grandes fazendas abandonadas, porque já estava tudo decadente, grandes áreas de muitas mangueiras, de muitas frutas, e eu fui criado muito solto. A gente vivia em bando de criança por esses lugares, mas isso não era floresta. Quando eu cheguei em Mato Grosso, eu já tinha intimidade com a natureza restrita daqui. Lá, onde passaram o trator no cerrado e fizeram as casas, no fundo do meu quintal eu via veados, eu via tatus; aí eu me embrenhava por dentro desse mato. Eu passava o dia lá.
Raquel Zangrandi – Lá naquela vila militar, para os lados do aeroporto?
Ney Matogrosso –
É! Eu estudava de manhã, chegava ao meio-dia, almoçava e eu me embrenhava nesse mato. E só voltava à tarde. Eu tinha 11 cachorros e ia sozinho com esses cachorros pro meio desse mato e ficava lá. Eu ia longe, eu ia longe, eu ia longe.
Raquel Zangrandi – E a sua ida para Bela Vista? Para o documentário do Joel vocês foram visitá-la. [n.e. Referência à cinebiografia Olho nu, dirigida por Joel Pizzini e lançada em 2014]
Ney Matogrosso –
Eu nasci em Bela Vista, mas eu saí de lá com dois anos. Eu voltava a Bela Vista, já adolescente quando morava aqui, de férias, para ir à fazenda do meu avô. Então Bela Vista era isso pra mim.
Raquel Zangrandi – Para o filme do Joel, quando você foi para lá, você reconheceu algumas coisas, o Apa, o rio?
Ney Matogrosso –
Sim, claro, a casa em que eu nasci está lá.
Raquel Zangrandi – O rio Apa continua limpo?
Ney Matogrosso –
É, mas é um riozinho dessa largura, não é uma coisa. Na minha cabeça era um rio imenso!
Raquel Zangrandi – A infância eu passei lá. Acho que o rio Apa é um Amazonas.
Ney Matogrosso –
Não, a gente atravessava o rio com a água pela cintura. Agora eu o achei um riozinho estreitinho, ele tem muita água, mas já está muito assoreado…
Raquel Zangrandi – Mas a água é limpa?
Ney Matogrosso –
Olha, nos dias em que eu fui lá não dava para saber, porque tinha chovido e estava uma água barrenta. Eu me lembro que tomava banho quando eu ia pra lá.
Raquel Zangrandi – Continua uma cidadezinha bem…
Ney Matogrosso –
É uma cidadezinha bem de interior. Agora tem uma parte nova da cidade, cresceu pra um outro lado. Aquela parte que era o centro da cidade está abandonada, quero dizer, tem gente morando ali, mas… A casa em que eu nasci está lá. E a fazenda do meu avô, em que você passava um dia inteiro andando à cavalo pra atravessá-la, foi dividida em dez. São dez fazendas.
Max Eluard – Fazendas, não são dez lotes!
Ney Matogrosso –
São dez fazendas.
Max Eluard – E qual foi a sensação de voltar pra lá, Ney?
Ney Matogrosso –
Olha, eu vou ser sincero: não tenho isso, não tenho isso…
Raquel Zangrandi – Nostalgia?
Max Eluard – Memorialismo, essa coisa?
Ney Matogrosso –
Eu não tenho isso. Foi uma decepção! O Joel achou que lá eu ia chorar. [risos] Eu disse assim: “Olha, Joel, não tô sentindo nada!”. Agora, claro que quando eu fui pra fazenda do meu avô, eu tinha boas lembranças, porque a casinha em que meu avô morava, que era uma casinha minúscula, foi mantida como casa de caseiros, porque o cara sabe que era do coronel Tancha, que era uma pessoa que era dona daquilo tudo. Ele não derrubou a casa e deixou ali para o caseiro e fez um palácio lá atrás, uma casa imensa, que eu nem fui.
Raquel Zangrandi – Ficou no filme sua ida a Bela Vista?
Ney Matogrosso –
Ficou.
Max Eluard – Mas essa decepção também?
Ney Matogrosso –
Mas eu não tive decepção, ele é que teve porque esperava que eu tivesse reações que eu não tive.
Raquel Zangrandi – Um anticlímax.
Ney Matogrosso –
É.

Wal Raizer – Nessas histórias do Mato Grosso, você lembra se tinha alguém que contava causos? No interior sempre tem. Escutei muito causo do meu avô, muita história…
Ney Matogrosso –
Eles contavam muita história de lobisomem. Tinha uma história em que você estava dentro de casa, aí ouvia uma voz: “Eu vou cair!”. Aí caía um braço. As histórias pra criança são todas assim, de terror. Aí caía uma perna, caía não-sei-o-quê. Gente, que loucura! [ri]
Raquel Zangradi – Depois a criança não dorme e você não sabe o porquê.
Ney Matogrosso –
Eu não dormia lá porque tinha muito morcego e eu tinha medo dos morcegos me pegarem. Aí meu irmão dizia: “Acende um cigarro!” Ficava, eu, aquele pivete, com um cigarro aceso a noite inteira. Foi aí que eu aprendi a fumar. [risos] Com o cigarro acesso para o morcego não vir em mim. Eram histórias punks que eles contavam.
Tacioli – Não tinha o homem do figo lá.
Ney Matogrosso –
Lá não tinha o do figo, mas caía perna, caía braço, caía mão, caía não-sei-o-quê do teto.
Wal Raizer – No interior, o cinema é a imaginação das pessoas.
Ney Matogrosso –
Na adolescência eu vi festas na fazenda do meu avô. E aí eles viravam a noite tocando violão. Tinham várias pessoas tocando violão. Meu avô também tocava, cantava. E eles faziam festa e todo mundo dançava. Eles tocavam para as pessoas dançarem, né?
Tacioli – E era permitido para as crianças assistir, participar?
Ney Matogrosso –
Era, ficava todo mundo lá e eu ficava lá também. Tinha uma hora que enchia o meu saco e ia dormir. Era tudo liberado. Eles bebiam; eu via que tinha um trânsito de álcool…
Tacioli – Seu avô começava de um jeito…
Ney Matogrosso –
Todo eles! Meu avô era muito respeitado e muito temido também. Naquela parte ali tem uma cidade que se chama Nunca-Te-Vi. O meu bisavô, que veio de Corrientes, trouxe todos os empregados; ele era um fazendeiro muito rico.
Raquel Zangrandi – Corrientes é no Paraguai?
Ney Matogrosso –
Corrientes é na Argentina, mas eles não dizem que são argentinos, eles são correntinos, eles querem ser…
Raquel Zangrandi – Separatistas.
Ney Matogrosso –
É. E então o meu avô trouxe essa gente toda com ele e deu um pedaço enorme da terra, que virou uma vila dos empregados, que se chama Nunca-Te-Vi, que hoje é um bairro imenso da cidade. Ele trouxe malas com libras de ouro… Era assim, né?
Tacioli – E virou uma das histórias…
Ney Matogrosso –
E virou uma das histórias… Quando morreu o meu bisavô, a fazenda em que ele morava foi toda depredada porque diziam que tinha o ouro, que o meu avô tinha enterrado. Eu voltei à casa e encontrei a sala, os quartos, tudo cavucado, tudo quebrado, tudo esburacado.
Raquel Zangrandi – Ninguém mora nessa casa hoje?
Ney Matogrosso –
Não, hoje em dia, não.
Raquel Zangrandi – E hoje essa casa é a casinha do…
Ney Matogrosso –
Não, essa casa era do meu bisavô. A casa do meu avô era outra. A (casa) do meu bisavô era na fazenda velha, mas que era uma casa muito boa, uma casa grande, muito bem feita, não era o palácio que virou, que foi onde o cara fez a casa dele.
Tacioli – Ney, então a sua família tinha condições (financeiras)…
Ney Matogrosso –
Não, não, meu pai e minha mãe, não. Meu pai era militar.
Wal Raizer – Mas seu avô…
Ney Matogrosso –
Meu bisavô quando morreu dividiu tudo entre todos os filhos. Meu avô ficou com essa fazenda que você andava um dia. Você imagina o que ele não tinha de terra, porque ele dividiu entre todos os filhos, que eram muitos. O que coube ao meu avô era um dia inteiro a cavalo pra você atravessar, uma floresta, uma coisa assim; ele proibia a caça lá dentro.
Raquel Zangrandi – Coisa rara naquela época ter essa consciência, ter essa mentalidade.
Ney Matogrosso –
Coisa rara. Eu me lembro dos bandos de ema que passavam perto da gente. Animais, antas, porco do mato, tudo isso a gente via lá. Muito jacaré nos açudes. A gente tomava banho no açude cheio de jacaré. Aí a gente ficava jogando pedra no jacaré, ele ia pra lá, a gente tomava banho, depois que a gente saía, eles voltavam todos pra cá. [risos]
Tacioli – E tinham alguns grandes companheiros nessas aventuras de pedrada no jacaré?
Ney Matogrosso –
Meus primos, meus irmãos, que eram todos crianças também.
Tacioli – E além dos morcegos, tinha medo de outras (coisas)?
Ney Matogrosso –
Não, não, tanto que eu andava dentro daquela mata sozinho, sempre andei. Lá, já na fazenda do meu avô, eu pegava o cavalo dele e saía pro mato, sozinho. E ficava horas perdido. E lá, na minha casa, onde a gente morava, eu entrava a pé mesmo. Nunca tive medo de nada, nunca tive medo de cobra. Eu via cobra, parava, ela passava, eu ia embora. Nunca matei; não saía matando cobra. No meu sítio eu proíbo que matem as cobras. Não tem que matar, matar cobra por quê? Só ela for dar um bote em você, fora isso é proibido matar. Não quero que mate nada, bicho nenhum. Foi em Mato Grosso, nessa fazenda do meu avô, que eu saí em uma caçada com todos os tios e vi a cena mais horrorosa da minha vida de adolescente. Ali alguma coisa dentro de mim se revelou: “Você não pode apoiar isso, você tem que defender a natureza, você tem que defender os animais!”. Eles atiravam em bandos de macacos pra treinar pontaria e eu via as mães, as macaquinhas protegendo os filhotes. E eles atiravam. “Meu Deus do céu, que loucura é essa? Que seres humanos loucos!” Ali, uma coisa de ecologia se manifestou dentro de mim. Teve que ser a esse preço, mas tudo bem, valeu.

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