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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 2/15

É o Papa-Figo, é o Papa-Figo!

Tacioli – Ney, vou dar um corte na história desse disco e ir lá pra trás, para sua infância e adolescência. Se eu estiver enganado você me corrija, mas você passou por diversas cidades.
Ney Matogrosso –
Sim.
Tacioli – Queria que você falasse um pouquinho dessas cidades e dos sons, não necessariamente musicais, que tinham cada uma delas.
Ney Matogrosso –
Olha, a minha primeira lembrança é de Salvador. Eu não sei nem porque a gente morava em Salvador; meu pai estava na Guerra. Eu tinha três anos, então era 1943.
Tacioli – Seu pai foi pra Guerra?
Ney Matogrosso –
Ele foi pra Guerra.
Raquel Zangrandi – Na Itália?
Ney Matogrosso –
É. Eu me lembro da casa, que era uma casa num alto na praia de Amaralina. Lá no fundo tinha um quartel, atrás da casa da gente tinha uma leiteria e um terreiro de candomblé. E a frente era o areal da praia e tinha uns jabutis desse tamanho; eu ficava sentado em cima daquele jabuti, ele me carregando todo e eu tripiando em cima do jabuti, não sei aonde ia, mas estava tripiando em cima do jabuti. Eu ficava o dia inteiro andando assim, ele me carregando pra onde ele queria. E, de vez em quando, eu fugia. Uma vez eu fugi da minha casa e todos acharam que o mar tinha me arrastado, porque eu desapareci. Pensaram em chamar a polícia, mas quando foram no candomblé, eu estava lá assistindo, num cantinho. Entrei escondido e fiquei assistindo aquele candomblé que, pra mim, aquilo era Carmen Miranda, falavam de Carmen Miranda e eu achava que era aquilo.
Raquel Zangrandi – Alguém da sua família frequentava o candomblé?
Ney Matogrosso –
Não, não, não! Nem sei porque eu fui parar lá. Eu devia ter ouvido o som, né?
Wal Raizer – E o que se falava de Carmen Miranda?
Ney Matogrosso –
Eu ouvia falar de Carmen Miranda. Carmen Miranda já era um sucesso enorme na rádio, mas eu achava que Carmen Miranda era aquilo. Eu não achava que Carmen Miranda fosse outra coisa. [risos]
Raquel Zangrandi – Ela tinha balangandãs…
Ney Matogrosso –
Sim, falava-se que ela era uma baiana, não-sei-o-quê-lá, eu nunca tinha visto Carmen Miranda, né? E depois fui morar em Recife. Aí eu lembro do cheiro; chamava Rua do Jenipapeiro, era uma rua que tinha jenipapo plantado nela inteira, era uma ladeira, e daquele cheiro eu me lembro muito bem. E me lembro de uma cena: tinha um portão de ferro de grade na casa em que eu morava e um homem ficou me chamando do portão. E eu fui para o portão. Quando eu cheguei no portão, as pessoas vieram gritando lá de dentro. As crianças estavam desaparecendo lá. E diziam que era um homem que…
Raquel Zangrandi – … Que roubava (crianças)…
Ney Matogrosso –
Não, que era um homem que tinha uma doença e que precisava tomar banho com o sangue das crianças.
Raquel Zangrandi – Que história!
Ney Matogrosso –
É. Então, na hora em que fui me dirigindo para o portão pra encontrar esse homem que estava me chamando, vieram as empregadas gritando: “É o Papa-Figo, é o Papa-Figo, o Papa-Figo!”. Papa-fígado, né? [risos] Eu lembro disso, eu lembro disso!
Tacioli – Tinha algum som, além do cheiro…
Ney Matogrosso –
Não, não, daí eu lembro do cheiro do jenipapo que ficava na rua inteira.
Tacioli – Isso em qual período da vida, (você tinha) quantos anos?
Ney Matogrosso –
Ah, pouco tempo, tudo pouco tempo. Aí meu pai já estava de novo no Brasil. Então, acabou a Guerra e a gente deve ter ido morar em Recife. E depois viemos para o Rio de Janeiro. Fomos morar em Marechal Hermes, que era perto do Campo dos Afonsos; meu pai era da Aeronáutica. Depois fomos morar em Padre Miguel, onde eu fiquei até os 13 anos. Aí nós voltamos pra Mato Grosso.
Tacioli – E aqui no Rio tinha alguma coisa na rua (que chamava atenção)?
Ney Matogrosso –
Não, aqui no Rio tinha, não a escola de samba de Padre Miguel que não existia, mas um bloco que no Carnaval arrebanhava multidões e eu saía da minha casa e ia lá também.
Raquel Zangrandi – Sua mãe, irmã ou alguém da família ia?
Ney Matogrosso –
Não, não, não! Ninguém ia, porque nós morávamos do lado de cá da linha do trem. Do lado de lá era a favela e os IAPIs, não-sei-o-quê, esses prédios populares… [n.e. Criado em 1936, o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI) financiou projetos de habitações populares em grandes cidades brasileiras, como em Belém do Pará, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campinas]
Raquel Zangrandi – Já tinha a Vila Vintém, que essa favela grande?
Ney Matogrosso –
Tinha a Vila Vintém, mas era uma coisa mínima. Tinha um cinema imenso daquele outro lado em que eu vi Cauby Peixoto. Quero dizer, eu não vi o show, eu vi o Cauby Peixoto chegando e aquela multidão, aquela loucura toda em cima do Cauby Peixoto. Na minha casa a gente ouvia rádio.
Raquel Zangrandi – Você foi à Rádio Nacional uma vez com uns cinco ou seis anos.
Ney Matogrosso –
Minha mãe me levou uma vez à Rádio Nacional.

A atriz, cantora, compositora e vedete Elvira Pagã (Elvira Olivieri Cozzolino, 1920-2003). Foto: Reprodução

Raquel Zangrandi – Você lembra da cena?
Ney Matogrosso –
Lembro, lembro, lembro. Era um programa de auditório e tinham os cantores. De repente entrou Elvira Pagã e eu fiquei doido! Elvira Pagã se apresentava coberta de farrapos de couro de onça, seminua, linda. Eu lia muito gibi, eu gostava de gibi, e pra mim aquela mulher tinha saído da revista em quadrinhos. Tinha uma Naioca, Nioca, a rainha do não-sei-o-quê e eu achei que era ela porque estava toda vestida de pele de onça. Eu nunca esqueci dessa imagem. Eu vi Emilinha Borba, uns cantores da (época)…
Raquel Zangrandi – Marlene você viu?
Ney Matogrosso –
Não, porque onde tinha Emilinha Borba, não tinha Marlene!
Tacioli – Mas você tinha alguma preferência?
Ney Matogrosso –
Não, eu não tinha preferência.
Tacioli – Sua mãe tinha?
Ney Matogrosso –
Eu acho que a minha mãe gostava mais da Marlene, mas eu não tenho certeza.
Raquel Zangrandi – Marlene era mais moderna.
Ney Matogrosso –
É.
Raquel Zangrandi – Você acompanhava as cantoras do rádio?
Ney Matogrosso –
Sim, eu ouvia rádio, eu conhecia todo mundo, ouvia todo mundo, e meu pai comprava muito disco. Então, no fim de semana ele ouvia tudo aquilo que, na época, eu achava até meio chato ter que ouvir aquilo todo fim de semana, mas hoje em dia eu tenho uma lembrança musical, uma memória musical muito vasta. Quando eu fui fazer o repertório do Batuque, eu só não conhecia uma única música, só uma. O resto todo eu conhecia.
Raquel Zangrandi – Mas aquilo entrava pelos ouvidos porque seu pai ouvia, mas você fuçava nos discos, você também ia atrás?
Ney Matogrosso –
Não, não, a gente ouvia muito rádio; a rádio era a televisão.
Raquel Zangrandi – Mas dos discos que ele tinha, que ele comprava, você se interessava em ver, olhar?
Ney Matogrosso –
Eu olhava, mas ele não deixava mexer, porque aquilo quebrava muito fácil.
Tacioli – Seu pai, o Seu Antônio, tinha uma preferência musical?
Ney Matogrosso –
Não, ele era muito eclético, ouvia os grandes cantores, as grandes cantoras. De Isaurinha Garcia ele gostava muito; ele ouvia Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Orlando Silva. E tinha Carmen Miranda.
Raquel Zangrandi – Ele ouvia os estrangeiros?
Ney Matogrosso –
Não, ele ouvia música brasileira.
Raquel Zangrandi – E seus irmãos, algum se ligou em música?
Ney Matogrosso –
Não, não! O único artista da família sou eu.
Tacioli – Na escadinha ali dos filhos…
Ney Matogrosso –
Eu sou o segundo, tinha um mais velho, tem um menor, um ano mais novo que eu, e depois, bem muito depois, as meninas, duas.
Tacioli – E sua mãe, com relação à música, ela tinha alguma atuação?
Ney Matogrosso –
Minha mãe cantava muito em casa. Na verdade essa é a minha primeira influência, porque os cantores já eram distantes, e minha mãe cantava em casa o que ela ouvia. E me lembro que eu ficava ouvindo ela cantar, eu ficava prestando atenção. Eu gostava de ouvir ela cantar.
Tacioli – E depois teve o retorno pro Mato Grosso?
Ney Matogrosso –
Com 13 anos fomos pro Mato Grosso.

 

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