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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 1/15

Junior Almeida achou que era trote!

[Enquanto Max Eluard finaliza a montagem dos equipamentos de gravação audiovisual]

Ney Matogrosso – … Tem show que dura menos. O Inclassificáveis, que eu achava que foi um enorme sucesso, durou um ano e meio. Esse (Beijo bandido) faz três anos em setembro (de 2012).
Ricardo Tacioli – Ney, tem várias descobertas no processo (de um show e de um disco). Qual foi a última?
Ney Matogrosso –
É uma coisa da performance, de entrar no palco. Esse último foi agora em São Paulo. Aí era aquele palco imenso e quando eu olhei aquela plateia lotada, aquele espaço todo diferente, eu já comecei a fazer tudo diferente. E a plateia reagindo muito bem. “Porra, hoje vai ser uma festa!” E foi, né? E aí eu vou ficando louco, porque na medida em que eles vão me estimulando, eu vou pirando e inventando coisas.
Tacioli – É difícil dividir esse momento em que você está vivendo com o show com um novo que já está na sua cabeça? Como isso se organiza, Ney? Você tem um desenho (desse novo show)?
Ney Matogrosso –
Não, eu tenho, não. Agora ainda preciso ensaiar o outro e ver. Claro que eu sei que vai demorar pra chegar na altura em que está esse, porque é um trabalho todo novo, músicas diferentes. E até aqui eu preciso entender. Não é abrir a boca e falar e cantar. Eu tenho que entender as coisas, onde cada coisa chega, sabe? Mas eu tô animado. Vai ser um show completamente diferente. Eu tô achando que muita gente vai estranhar o texto. [n.e. Referência ao show do CD e DVD Atento aos sinais, que estreou em 2013] Estou trazendo músicas de bandas muito novas, com uma conversa muito particular dessa gente, sabe? E talvez estranhem que titio chegue falando essas coisas. Mas eu vou falar!
Tacioli – Já tem uma previsão de quando (estreia)?
Ney Matogrosso –
Olha, eu pretendo em setembro começar a ensaiar. Pode ser que eu estreie no fim do ano, pode ser que eu não estreie esse ano, estreie no começo do ano que vem. Eu ia usar um tipo de mapeamento, já estava com tudo organizado, já tínhamos desenhado com a equipe, o cenário, tudo pra fazer o melhor, mas a Madonna está usando a mesma coisa… [n.e. A utilização de video mapping para a criação de cenários virtuais]
Raquel Zangrandi –
Jura?
Ney Matogrosso –
É, mas isso era inevitável, porque é uma coisa que está aí pipocando. Eu tinha um fundo todo de quadrados e cubos. Ela está com um fundo todo de quadrados e cubos de todos os tamanhos. Eu disse: “Puta que pariu!”.

Raquel Zangrandi – Como você viu? O dela já estreou?
Ney Matogrosso –
Estreou, eu vi agora na Internet. Mas eu já falei: “Agora vocês vão ter que me indicar outras possibilidades, não vou abrir mão disso, porque é muito interessante. Na verdade, isso não supre a iluminação, é um efeito visual, mas junto com isso eu terei luz também.
Raquel Zangrandi –
Você vai fazer a luz?
Ney Matogrosso –
Vou.
Tacioli – Em todo show seu, você é que responde pela luz?
Ney Matogrosso –
É, junto com o iluminador com quem eu trabalho já há muitos anos, que é o Juarez Farinon. [n.e. Iluminador gaúcho radicado desde 1980 no Rio de Janeiro e criador da Companhia de Luz. Trabalha com Ney Matogrosso desde 1999]
Tacioli – Esse assunto da luz vou deixar pra depois…
Ney Matogrosso –
Mas já estamos gravando, não?
Max Eluard – Não, ainda não.
Ney Matogrosso
– Já estamos conversando. Então vamos guardar nossa conversa.
Raquel Zangrandi –
Vamos guardar.
Max Eluard – O áudio já está valendo, pode começar.
Wal Raizer Já tem um nome o próximo (trabalho)?
Ney Matogrosso –
Não, ainda não achei um nome. Se eu não achar um nome muito adequado, não terá nome nenhum. Eu só boto nome quando o nome surge, sabe?

O rapper alagoano Vitor Pirralho, professor de literatura brasileira e língua portuguesa, e autor de dois álbuns, Devoração crítica do legado universal (2008) e Pau-Brasil (2009). Foto: Maíra Gamarra

Tacioli – Ney, você falou dessa gente nova, que o titio está chegando. Quem são os sobrinhos?
Ney Matogrosso –
Olha, vou cantar (música) da banda Tono, vou cantar do Zabomba, vou cantar Vitor Pirralho, quem mais? São bandas novas, nem são muito conhecidas no Brasil. Quero dizer, o Tono é conhecida no Rio de Janeiro, o Zabomba é conhecida em São Paulo e aqui não é conhecida, o Vitor Pirralho é lá de Maceió. Vou gravar uma música do Dan Nakagawa. São pessoas muito novas. Então, elas têm uma visão do mundo muito diferente, têm um outro olhar sobre os assuntos. E isso é o que está me atraindo.
Tacioli – Como esses nomes chegam a você?
Ney Matogrosso –
De várias maneiras, de várias maneiras. Do Tono eu recebi uma música pela Internet.
Raquel Zangrandi –
Eles mandaram?
Ney Matogrosso –
Não, não! Eles disponibilizaram e alguém me mandou pra eu conhecer a banda. E eu gostei da música que estava disponibilizada. Aí fui atrás e eles me mandaram o disco, porque um dos músicos é filho do Gilberto Gil, então eu tinha como me aproximar. [n.e. O guitarrista Bem Gil] Já cantei com eles, já fiz show com eles, já fiz com o Dan, já fiz show com o Zabomba. Do Vitor (Pirralho) eu estava em Maceió. Tinha feito o show na véspera e, no dia seguinte, quando eu voltava, me entregaram um jornal com uma página inteira falando do trabalho dele. Eu achei muito interessante tudo que estava ali. Falei com a produtora local. “Olha, você poderia conseguir o disco desse rapaz e me mandar?”. Aí ele foi no mesmo dia e me entregou, ele e a mulher dele, linda, negra, magrinha, toda vestida de vermelho, grávida, com a barrigona enorme. E ele também muito bonitinho, um mestiço brasileiro. Nós somos isso, né?
Raquel Zangrandi –
Que idade tinha o casal?
Ney Matogrosso –
Entre vinte e trinta.
Raquel Zangrandi –
Eles não devem ter acreditado.
Ney Matogrosso –
É, não, eles estavam assim… Mas isso é comum na minha vida.
Max Eluard – Mas o clipe que você vai gravar daqui um mês em Maceió é o da música dele?
Ney Matogrosso
– Não, esse já é outro compositor, que eu gravei agora, do Beijo bandido, que é o Junior (Almeida).
Max Eluard – Mas ele é de lá também?
Ney Matogrosso –
Ele é de lá. Esse foi assim: eu passei (em Maceió) com o Inclassificáveis. Aí ele foi ver o Inclassificáveis, me deu um disco e eu já estava preparando o repertório do Beijo bandido. Aí fui pra São Luís do Maranhão. Fiquei dois dias em São Luís. Chovendo, chovendo, chovendo. Fiquei trancado no hotel. Eu tinha levado um sonzinho e ouvi o disco dele. Ouvi a “Cor do desejo”. “Isso aqui tem tudo a ver com disco!” Eu já estava gravando Beijo bandido. Cheguei no Rio de Janeiro, gravei a música e liguei pra ele. “Olha, quero autorização e saber se você tem essa música editada.” Ele achou que era um trote. [risos]
Raquel Zangrandi –
Obviamente.
Ney Matogrosso –
Aí cheguei no Rio de Janeiro, falei com ele e gravei imediatamente. E fiz uma participação no disco dele lançado depois disso.
Max Eluard – Ah, você vai gravar em vídeo para o clipe dele?
Ney Matogrosso –
Para o clipe dele. [n.e. Vídeo da música “Memória da flor”, de Junior Almeida e José Silva Ferreira, integrante do álbum de mesmo nome lançado em 2012 pelo selo MP,B Discos]

Tacioli – Tem mais algum nome novo?
Ney Matogrosso –
Não, novo mesmo são esses. Tem o Dani Black. Vou cantar uma música dele. [n.e. Nascido em 1987, o cantor e compositor é filho dos músicos Arnaldo Black e Tetê Espíndola. Integrou a banda 5 a Seco. Tem um disco individual, homônimo, lançado em 2011. Maria Gadú gravou “Aurora”, de sua autoria] O Dani eu conheci desse tamanhinho. A primeira vez que ele veio com a mãe aqui, ele era um garotinho pré-adolescente, queria me mostrar uma música. Eu falei: “Olha, você é muito talentoso!”. Eu gostei mesmo, vi que era uma coisa de um menino, mas eu achei que ele tinha talento. “Eu gostei da sua música, você tem talento, sim!” Aí depois ele veio um dia aqui com um disquinho pra me mostrar. E me mostrou o disco inteiro. “Eu gostei dessa aqui.” Ele fez uma carinha bem assim e disse: “Eu sabia que você ia gostar dessa!”. Pra mim, imagina, eu o conheci criancinha com a Tetê, menininho mesmo, né? E ver ele hoje fazendo música… Ele tem um estilo bem interessante, bem particular. [n.e. Ney Matogrosso gravou “Oração”, de Dani Black, no disco Atento aos sinais, 2013]

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