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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 14/15

Não tenho medo da morte!

Max Eluard Ney, como você lida com o tempo, com a passagem do tempo?
Ney Matogrosso –
Olha, eu tento lidar com a maior naturalidade possível, porque eu tô vendo a passagem do tempo sobre meu aparelho, as pessoas acham que não, que não é evidente, mas pra mim é evidente sim,
Max Eluard A ferramenta.
Ney Matogrosso –
É, o exterior sim, eu vejo a diferença. Confesso que gosto mais das fotos de antigamente. Era mais bonitinho…
Max Eluard – Mas gera um conflito?
Ney Matogrosso –
Não gera conflito. Agora é estranho porque a imagem não corresponde ao que você tem de você dentro; não estou parado, mas eu não sou velho. Vocês vão engolir isso?
Max Eluard – Totalmente.
Ney Matogrosso –
Não sou velho!
Max Eluard – Eu entendo isso.
Ney Matogrosso –
Não sou velho, não sou velho. E estou ficando velho, mas eu não sou velho ainda. E eu não tô falando do externo, eu tô falando de uma coisa que ainda me leva, sabe?! Eu ainda tenho um movimento de expansão. Agora existe mais pessoas da minha idade que estão (neste movimento), mas não era permitido a um homem da minha idade ainda estar em expansão. Não permitiam, não deixavam.
Max Eluard – A aposentadoria era compulsória.
Ney Matogrosso –
Era.
Raquel Zangrandi A disposição de realizar coisas.
Ney Matogrosso
– Sim, sim, e eu ainda tenho tudo isso.
Raquel Zangrandi De começar alguma coisa do zero, um projeto…
Ney Matogrosso –
Sim, sim, eu ainda estou me arriscando. Gente, eu fui fazer o Bandido da luz vermelha com 70 anos, porra! É um risco, é um risco, mas eu gosto do risco.
Raquel Zangrandi Você falou que você quer fazer mais trabalhos como ator.
Ney Matogrosso –
Quero, quero, já fiz mais dois filmes depois dele. Mas eu tô te dizendo que eu gosto do risco, sabe? Pra mim o risco é atraente. Eu não quero só o que eu já sei, eu não quero só o que eu já posso. Eu quero outras coisas, eu quero mais, eu quero tudo que eu puder, sabe?
Tacioli — Ney, como você lida com o fim? Parece-me que essa constância de projetos…
Ney Matogrosso –
Não entendi o olhar.
Tacioli – Não entendeu o olhar?
Ney Matogrosso –
Não. [risos] Fale claramente.
Tacioli – O fim, a morte.
Ney Matogrosso –
O fim eu entendi, a morte.
Tacioli – O.K. Você termina um projeto, um show, um disco, e na hora você já está com um outro…
Ney Matogrosso –
Sei, mas eu sempre fiz assim.
Tacioli – Sim.
Ney Matogrosso –
Não é (somente) agora na reta final.
Tacioli – Não, não, não é isso.

Vinde a mim os morcegos

Ney Matogrosso – Eu aceito essa condição. Não tem como não aceitá-la. Acho louco quem não aceita a condição, porque é a única certeza que a gente tem, de que vamos morrer. Eu aceito isso e não tenho medo da ideia. Eu só espero na hora não tremer, tá? Eu gostaria, mas aí eu precisaria de um treino que eu não tenho, que eu sei que os iogues têm, de sentar e dizer “Tchau, gente, felicidades pra todos, foi um prazer inenarrável!”. Eu gostaria disso, mas eu sei que não vai ser assim, porque eu não me preparo; tem um treino, é um treino, mas eu espero não tremer. Eu não tenho medo da morte. E com relação ao resto, de eu fazer um trabalho atrás (do outro), qual é a questão?
Tacioli – … É como se não tivesse fim. A hora em que você termina um projeto, um percurso, me dá a impressão que ali não tem o vazio, o silêncio pra permitir essas questões sobre o fim.
Ney Matogrosso –
Mas essas questões sobre o fim me permeiam há muito tempo, durante o tempo todo. Eu penso sobre isso regularmente, frequentemente, constantemente. E sem nenhum problema, não é uma ideia fixa, não é mórbido, mas ela passa e eu aceito. E eu falo desse assunto com maior naturalidade, sou permeado o tempo todo por essa coisa do fim. Mas eu já notei também que nesses últimos 15 anos eu tenho trabalhado mais, talvez seja uma ansiedade de realizar o máximo possível enquanto eu ainda tenho vitalidade.
Raquel Zangrandi Mas não é uma coisa em que você está pensando…
Ney Matogrosso –
Não, não, não.
Raquel Zangrandi Não faz por causa disso…
Ney Matogrosso –
Não, mas o meu trabalho exige de mim uma vitalidade, uma coisa física que eu ainda tenho, que já não é normal na minha idade ter. Então, porque eu ter ainda, eu quero aproveitar ao máximo essa vitalidade. Mas, olha, tanto não é uma coisa assim tão conflituosa pra mim que eu estou fazendo o Beijo bandido há três anos, nunca fiz show nenhum durante três anos e eu tô deixando rolar o tempo que for durar, sabe? Agora, sei também que eu posso não realizar o próximo, porque eu posso sair e escorregar numa casca de banana ali na rua. Eu tenho essa noção do viver, de estar…
Max Eluard Do perigo de estar vivo.
Ney Matogrosso –
Sim, mas isso não me assusta.
Max Eluard – Não paralisa.
Ney Matogrosso –
Não.
Max Eluard – Nem excita?
Ney Matogrosso –
Não, não. Eu sei que é assim e eu vou tocar meu barco.
Tacioli – Não precisa acender um cigarro pra espantar os morcegos.
Ney Matogrosso –
Não, não preciso espantar mais nada. Nem quero espantar nada.
Tacioli – Vinde a mim os morcegos.
Ney Matogrosso –
É, vinde a mim os morcegos, eu banco e banquei os morcegos. Eu, durante um ano banquei os morcegos para o Jardim Zoológico. Eles fizeram campanha para as pessoas adotarem os animais, e os morcegos ninguém queria. Eu disse: “Me dá, eu banco os morcegos”. Morcego é extremamente útil. Morcego mantêm as florestas vivas. Eles comem as frutinhas e as sementinhas vão caindo em todo lugar que eles voam.
Raquel Zangrandi Patrocinador de morcegos. [risos]
Ney Matogrosso –
É, banquei.
Max Eluard –
Parece a história do Batman, tinha medo de morcego, aí se transformou em um.
Tacioli – É verdade.
Ney Matogrosso –
Banquei um ano os morcegos.

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