gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 13/15

Fico nu por qualquer motivo

Tacioli – Ney, a gente falou da sua trajetória como iluminador. Como você avalia o percurso da sua voz?
Ney Matogrosso –
Olha, eu ainda tenho as notas agudas, mas eu adquiri médios e graves, portanto considero a minha voz mais completa agora do que era na época do Secos & Molhados, que eu era restrito às notas agudas. Mas eu tenho as notas, canto músicas que gravei no Secos & Molhados no mesmo tom ainda.
Raquel Zangrandi O “Fala”…
Ney Matogrosso –
É, o “Fala” é uma delas que eu canto ainda no tom original.
Raquel Zangrandi Mas você trabalhou a sua voz nesse sentido, de adquirir os graves e os agudos?
Ney Matogrosso –
Não, isso foi a idade que trouxe. O que deveria estar acontecendo comigo é que a minha voz estaria ficando mais grave do que era. Isso é normal, mas a grande vantagem é que adquiri os médios e os graves e continuo tendo os agudos. Agora a cor não é a mesma. Se eu cantar o “Fala” hoje em dia e você ouvir o “Fala” que eu gravei lá, você vai ver que eu estou cantando no mesmo tom, mas a cor da minha voz é outra; a outra era branquinha, parecia vidro. Agora ela tem cor. Prefiro como ela é agora, quando posso experimentar mais.
Tacioli – Ney, tem algum trecho da sua vida mal contado ou pelo menos contam de um jeito que você não gosta ou diz ” Não é bem assim”?
Ney Matogrosso –
Não lembro de um trecho mal contado da minha vida. O que acontece é que a imprensa é muito esquisita. Ultimamente tenho dado muita entrevista por conta do filme. Aí falei que eu gostava de ficar nu quando era proibido. Isso foi o que eu falei, contei a história. Aí um outro publicou o seguinte: eu gostava de ficar nu. Eles colocaram uma palavra que mudou o sentido, sabe? Eu disse que gostava de ficar nu quando era proibido e eles disseram que eu gostava de ficar nu. Eu não sei, eles colocaram uma palavra que mudou o sentido. “Mas olha só que safadeza, uma palavrinha que eles botam, eles mudam o sentido, porque quando eu digo que gostava de ficar nu era porque era proibido, era uma atitude diante da proibição, né?”
Max Eluard – Tem uma atitude política no ficar nu quando é proibido.
Ney Matogrosso –
Sim, sim. Eu disse: “Eu gostava de ficar nu quando era proibido”.

Capas dos álbuns Feitiço (1978), Matogrosso (1982) e Pois é… (1983) em que a nudez dá as boas-vindas. Fotos: reprodução

Raquel Zangrandi Pergunta-se como se (a nudez) fosse sempre gratuita, por qualquer motivo, por qualquer coisa.
Ney Matogrosso –
É, eu fico nu por qualquer motivo.
Raquel Zangrandi Sendo ou não sendo proibido tanto faz.
Ney Matogrosso –
É, é.
Max Eluard – Por exemplo, agora você tá de sunga aqui dando a entrevista. [risos]
Ney Matogrosso –
Pois é, eles acham isso, o sentido que deu foi esse, que eu sou uma pessoa que vive nua.
Wal Raizer Uma das lendas urbanas sobre o Ney.
Ney Matogrosso –
É, mas eu não sei, não tem nada assim que eu…
Wal Raizer Que te incomode muito ou…
Ney Matogrosso –
Não, não me incomodo…
Wal Raizer Que você não goste…
Ney Matogrosso –
Da minha vida particular ninguém tem o que falar, porque não saberão nunca, não interessa, interessa a quem está comigo, sabe? Então é isso. Aí eles inventam e inventaram durante muito tempo, mas nunca inventaram com homem, não sei que milagre.
Tacioli – Qual foi uma invenção?
Ney Matogrosso –
Ah, que eu e Zezé Mota, que eu Sônia Braga, “Engraçado, por que eles inventam transação de mim com essas pessoas, que eram pessoas que eu tinha um certo contato frequente, regular, gostava, brincávamos muito com essa coisa, mas nunca aconteceu. Com a Zezé não aconteceu porque ela só queria casar. “Ah, Zezé, assim eu não quero!” Ela era incapaz de namorar sem casar. “Então, não, vamos deixar pra outra encarnação.” [risos]

Tags
Ney Matogrosso
de 15