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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 12/15

Vinicius pediu para eu cantar “São Francisco”

Tacioli – Ney, a gente pode ter mais 15 minutos?
Ney Matogrosso –
Eu tenho um lanche pra vocês. [risos]
Raquel Zangrandi
Que adorável! [risos]
Tacioli – Ney, um outro tema que eu…
Ney Matogrosso –
Nunca falei essas coisas, hein? Não sei de que maneira isso vai chegar em quem vai ler, vão dizer mais uma vez que eu sou maluco, que eu sou drogado. Você sabe que eu tenho essa fama de drogado, né? Hoje, o meu professor de ginástica me falou que uma senhora estava lá fazendo aula com ele, ela está gordinha, e disse assim: “Mas também eu não posso ser como esses artistas, né, porque não-sei-quem, não-sei-o-que-lá, o Ney Matogrosso tem aquele corpo, mas ele cheira pó!”. [risos] Porra, eu não cheiro pó! Eu cheirei pó um ano da minha vida e odiei o tal do pó, sabe?
Raquel Zangrandi A pessoa acha que a única explicação plausível pra esse seu corpinho…
Ney Matogrosso –
É a cocaína.
Raquel Zangrandi Acha que não é possível uma cinturinha de bailarina…
Ney Matogrosso –
Porra, mas ela não sabe o quanto eu trabalho, o quanto eu faço esforço físico em casa pra isso. Eu faço ginástica todo dia.
Raquel Zangrandi E sua cabeça, sua memória, cem por cento?
Ney Matogrosso –
Cem por cento, cem por cento, só que eu tô com preguiça de decorar letra de música, vinte músicas de cada vez. Agora tem um teleprompter, não é pra ler, é uma palavra ou outra. Se vai tudo no automático, eu não esqueço nada. Então, quando eu tenho medo disso, boto o teleprompter, porque se me der esse branco, eu olho a palavra e dali eu vou adiante… Mas eu tenho a memória boa, tudo meu tá funcionando. A única alteração no meu check-up é meu colesterol, por incrível que pareça! Eu nunca imaginei que uma pessoa magra tivesse colesterol alto.
Raquel Zangrandi Mas parece que não tem relação direta, pode ser hereditário também.
Tacioli – Ney, no começo dos anos 80, foi lançado o A Arca de Noé 1 e 2 e você participou dos dois discos…
Ney Matogrosso –
Sim, com a “Galinha d’Angola” e o “São Francisco”.
Tacioli – Não somente esses discos, mas outros lançados nesse período contribuíram pra formação do universo infantil. Tem alguma história da construção desse disco? Você lembra de alguma coisa?
Ney Matogrosso –
Não, o negócio é o seguinte: quando eu gravei, o Vinicius já tinha morrido, mas o Toquinho me procurou e me disse que o Vinicius tinha pedido para eu cantar o “São Francisco”, que ele queria a minha voz para o “São Francisco”.
Wal Raizer Ele sabia da sua ligação com animais?
Ney Matogrosso –
Não, não, mas ele era uma pessoa já muito evoluída, ele já devia perceber alguma coisa, né? Ele prestava atenção em mim. Ele via as coisas que eu falava. Foi assim: ele já tinha escolhido o que todos que iam cantar e tinha me escolhido pra cantar o “São Francisco”. E a “Galinha d’Angola” já foi um outro projeto, eram outras pessoas, já não tinha mais o Vinicius, mas era também com letras dele.

Tacioli – E o Faro? [n.e. Criador do programa MPB Especial/Ensaio, da TV Cultura, e do tropicalista Divino, Maravilhoso, Fernando Faro também produziu discos e shows de Vinicius e Toquinho, além dos dois volumes do infantil A arca de Noé (1980/1981)]
Ney Matogrosso –
Sim, sim…
Tacioli – Ele estava ali?
Ney Matogrosso –
Sim…
Tacioli – Conduzindo a arca.
Ney Matogrosso –
É, é.
Tacioli – Tem alguma história curiosa do Fernando Faro?
Ney Matogrosso –
Tem uma coisa estranha. Tô falando isso, mas eu não tenho nenhum sentimento assim… Quando nós fizemos o primeiro programa dele, teve lá um momento em que ele tocou (no tema do) homossexualismo, não-sei-o-que-lá. E eu disse: “Porra, Baixo!”. Eu estava tão despreparado que gaguejei, eu não esperava que ele falasse disso, porque não tinha a ver. Aí eu gaguejei. “Porra, Baixo, eu acho que isso é normal, não acho isso uma anomalia, tudo é normal, ninguém é especial por isso, né?” Fiquei meio enrolado, porque eu não esperava dele tocar nesse assunto. Aí quando ele abriu o programa, a primeira frase que eu falo foi essa. Fiquei tão triste! Meu Deus, por que abrir o programa com isso? Mas depois disso já fiz outro, eu sou amigo dele, adoro o Baixo, gosto muito dele, gosto muito do Baixinho, tenho o maior carinho por ele, gosto de beijá-lo, abraçá-lo, ele gosta, ele deixa. [risos]

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