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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 11/15

Ácido abria as portas da percepção

Max Eluard – E como você formou a sua espiritualidade? Você tem alguma religião?
Ney Matogrosso –
Não! Eu sempre li muito. Durante 20 anos eu li tudo de teosofia, tudo de não-sei-o-quê. Bom, então vou falar: o primeiro ácido que eu tomei foi em Búzios. Tomei um banho, vesti uma roupinha branca, tomei um ácido e fui pra praia. E aí eu entendi tudo, entendi tudo, entendi que tudo estava ligado, que tudo se relacionava e eu não valia mais do que a areia, aquela pedra tinha o mesmo valor que a areia…
Max Eluard – Que a areia e que não valia mais que você.
Ney Matogrosso –
Que areia, que mar, que eu, que o universo, né? E aí começou a minha busca. Comecei a ler, ler, ler, ler, eu e Vicente Pereira. Vicente era muito meu amigo. O Vicente foi um dos meus amigos que eu levei pra morar comigo lá em São Paulo. E a gente era muito ligado nessa busca. Eu li muito! Desses livros eu não me desfaço; me desfiz de todos os outros, mas esses eu tenho guardadinhos. Tô lendo de novo A doutrina secreta, da Blavatsky. Eu já tinha lido e tô lendo de novo. Estou entendendo muito mais agora. [n.e. Referência ao livro A doutrina secreta, síntese da ciência, religião e filosofia (1888), de Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), uma das fundadoras da Teosofia]
Max Eluard – Mas uma busca por dois extremos: um extremamente racional, pelo que estava escrito, e a busca da sensibilidade.
Ney Matogrosso –
Mas só tinha o escrito, era a única informação. Aí um dia eu falei com o Vicente: “Vicente, eu tô cansado de teoria, tô cansado dessa espiritualidade lida. Eu queria uma coisa que balançasse o coreto, que me deixasse desarvorado”. Um dia ele me ligou, ele estava em Brasília, e disse assim: “Tá a fim de balançar seu coreto?”. “Tô!” “Pega um avião amanhã e esteja aqui à tarde que nós vamos balançar o seu coreto.” “Tá bom!” Peguei um avião e fui, não sabia o que era. Cheguei (em Brasília) e ele disse: “Nós vamos tomar daime”. “O que é daime?” “Você vai ver o que é daime!” Fui com ele lá, numa casinha no meio do nada, tomar o daime numa noite de lua cheia. Quando o dia começou amanhecer, a lua cheia estava aqui, o sol estava ali e eu enlouquecido, eu não entendi a mensagem, mas balançou o meu coreto. Aí, depois daquilo, tomamos (o daime por) um ano e meio, regularmente.
Tacioli – Quando foi isso?
Ney Matogrosso –
Anos 80.
Wal Raizer Regularmente quanto, uma vez por semana?
Ney Matogrosso –
Toda semana, às vezes mais de uma vez. Eu fui pro Céu do Mapiá, eu fui pro Amazonas… Fui lá, conheci o Padrinho Sebastião, me embrenhei, três dias de canoa dentro de igarapé pra chegar… Eu fui!
Wal Raizer Você foi em que ano?
Ney Matogrosso –
A viagem foi em 1987, 88.
Wal Raizer Nessas últimas vezes em que você foi pro Acre, você foi lá, não?
Ney Matogrosso –
Não, não, não.
Max Eluard – E como interrompeu?
Ney Matogrosso –
Interrompi porque eu tomei por um ano e meio e entendi o seguinte: que tinha gente ali dentro que tomava há 20 anos, mas estava naquela de tomar e bailar e cantar e ficar naquela bebida. Eu não, estava afim de religião, eu queria autoconhecimento. A bebida me proporcionou esse autoconhecimento, porque ela proporciona autoconhecimento. Acho errado dar pra qualquer pessoa como eles dão. Acontece essas loucuras aí, porque é muito potente. Depois que eu tomei o daime, eu disse: “Que mané ácido! Ácido não tá com nada”. Os (ácidos) de agora, porque antigamente ácido abria as portas da percepção. Agora eu me perdi nesse assunto.

Sebastião Mota de Melo (1920-1990), o Padrinho Sebastião, foi um líder religioso e um dos fundadores da Vila Céu do Mapiá, na região amazônica, considerada a capital do Santo Daime. Foto: Marco Gracie Imperial

Wal Raizer O porquê de parar de tomar o daime…
Ney Matogrosso –
Achei que eu estava muito acelerado e a minha percepção da história era diferente das pessoas, porque quando você vai tomar o daime, você pede uma coisa. Aí uns pedem assim: “O amor, aí não-sei o-quê…”. E eu pedia discernimento. Tomei um ano e meio pedindo discernimento. Bebia e dizia assim: “Discernimento, discernimento, discernimento, discernimento”. E tive o discernimento. E eu acho agora o seguinte: se eu quero alcançar aquilo, é possível alcançar aquilo sem tomar nada, já que você já sabe o caminho, você já sabe o que é, já sabe do que se trata. Mas você tem que se voltar pra isso dentro de você. Não é fora, fora não tem resposta, dentro tem resposta. A gente sabe tudo, a gente sabe tudo e, nós, provavelmente devemos saber tudo da humanidade, né? Nós somos contidos por isso. É que a gente não acessa, a gente não tem noção; dez por cento apenas funcionando aqui. Dez ou sete?
Raquel Zangrandi Dizem que é dez.
Ney Matogrosso –
Dez, né, não é nada, não é nada. Estamos aqui para evoluir, pra gente chegar no total, tá? Não é agora.
Tacioli – Faltam noventa.
Ney Matogrosso –
Faltam noventa. Mas nós ainda vamos acelerar, ainda vamos passar por um pedaço aí que vai fazer a gente caminhar mais. Eu acredito!
Wal Raizer Fazer a gente entender…
Ney Matogrosso –
Eu acredito nisso.
Wal Raizer Entender porque é necessário.
Ney Matogrosso –
Sim, sim, sim.

Max Eluard – Então, a partir do momento em que o daime começou a chegar perto da religião, não te interessou mais.
Ney Matogrosso –
Não me interessa. Não é religião! A religião não me interessa. Nenhuma, nenhuma delas me interessa. Não é isso que eu busco.
Max Eluard – Não é um dogma?
Ney Matogrosso –
Não.
Max Eluard – São preceitos morais.
Ney Matogrosso –
Não, não, absolutamente. E no meu ponto de vista a liberdade tem que ser total e absoluta. Cada um tem que ser responsável por si. Não tem que ter lei, não tem que ter governo, não tem que ter polícia, cada um tem que ser responsável por si. Por si e pelo próximo. Esse é o meu entendimento final desses anos de…
Wal Raizer De imersão.
Ney Matogrosso –
De imersão e de busca. Eu acho que o que você pensa, vale, o que você fala, vale, o que você emana, vale. Tudo significa, tudo é, tudo tem sentido. O gatinho lá, deitado na minha cama, eu encosto assim e faço um cafuné nele, ele começa a ronronar, eu fico cheio de amor. Eu digo: “Mas é isso aí a vida!”. E tem que ser isso com as pessoas, tem que ser isso indiscriminadamente, indistintamente, para qualquer pessoa que se aproxime, para qualquer pessoa por quem você passe na rua, sabe? Eu fico fazendo essas coisas na rua e as pessoas me olham estranho. Olho pra elas e digo assim: “Eu vou abrir meu coração!”. E as pessoas me olham assim porque sacam que está indo alguma coisa. Vocês devem tá achando que eu sou maluco. Vou contar uma que vocês vão achar que eu sou mais doido ainda. Uma vez eu peguei um táxi e o motorista me disse assim: “Eu estou com uma dor de cabeça horrorosa. Eu estou passando mal. Não estou conseguindo nem dirigir direito”. Eu disse: “Vamos com calma! O senhor vai me levar com calma”. Eu acredito nesse poder: fiquei com essa mão puxando a dele e com essa outra aqui eu ficava mandando pro alto-mar. Eu atrás dele, calado, silencioso, não falei nada. Não fiz nada, não falei nada. Quando chegamos na minha casa, ele me olhou e disse: “A minha dor de cabeça passou!”. E me olhava. Ele achava que eu tinha a ver com aquilo, mas não ousou falar… Eu vi que ele relacionou o fato da dor de cabeça dele ter passado com a minha pessoa, mas não teve coragem de me dizer isso. Mas ele me olhava e me dizia com os olhos, sabe? Acredito nisso, existe essa possibilidade, é que a gente não treina isso.
Wal Raizer Faz parte dos 90% que a gente não acessa.
Ney Matogrosso –
Agora, vou falar a coisa mais louca pra vocês: eu fui treinado por um cara que era da repressão militar pra vocês verem em que ponto eles chegaram.
Raquel Zangrandi Mas quando foi isso?
Ney Matogrosso –
Já nos anos 80. Ele era padrinho de um outro amigo meu, que morava comigo lá em São Paulo, que veio pra cá. Não vou nem dizer de qual órgão (ele fazia parte), era o mais repressor de todos. E eu ia pra casa dele e ele ficava treinando comigo. Ele dizia assim: “Me dá a mão”. Eu dava a mão pra ele. Dizia assim: “Passe tudo de ruim que você puder imaginar pra mim”. Eu dizia: “Eu não vou fazer isso!”. “Se você não fizer, eu vou fazer em você.” “Pode fazer!” Ele fazia e eu tinha ânsia de vômito. Aí eu disse: “Tá bom, você quer que eu faça? Então eu faço!”. Eu fazia, mandava pra ele, ele estrebuchava, e eu estrebuchava quando ele me mandava. Isso é um exercício, é um treino mental e é possível. Aí uma vez eu estava indo pra praia e vi uns pivetes, uns meninos brancos que mexeram com um pretinho que vinha vindo. Ficou uma confusão no meio da rua. Aí o pretinho pegou um paralelepípedo. E eu disse: “Meu Deus!”. Fiquei de longe. E dizia: “Não, não pode, não pode, não pode! Desmancha, desmancha!”. Parado, só pensando, olhando pra eles. E aquilo se desfez. Depois os meninos branquinhos olharam pra mim e o pretinho me olhou com um olhar agradecido. Ele entendeu que eu tinha interferido naquela história, gente! Eu não posso duvidar dessas possibilidades, sabe? Não posso duvidar disso, como é que eu vou duvidar?
Raquel Zangrandi É, também não duvido.
Ney Matogrosso –
Nem eu.

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