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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 10/15

Os figurinos do Secos & Molhados eu dei todos

Tacioli – Ney, você falou que depois de um tempo você joga fora os rabiscos (dos figurinos). A Raquel falou sobre acervo e da questão memorialística. Li também que você tem registrado os shows ou o que passa na tevê. Você tem esse material?
Ney Matogrosso –
Eu tinha. Isso tudo foi o que eu entreguei pro Joel. Eu tinha 300 horas de material filmado de televisão, tinha uma quantidade de rolos de filme.
Raquel Zangrandi Era em VHS?
Ney Matogrosso –
Era em VHS. Agora está tudo em …
Raquel Zangrandi Passou para DVD?
Ney Matogrosso –
É, passou para DVD e é a base do documentário que está pronto.
Tacioli – E esse material volta?
Ney Matogrosso –
Eu dei os tapes, já me foram devolvidos limpos e me deram copiados para DVD. Então está tudo comigo de novo. Na verdade, era queria da minha casa transformar um canalzinho de televisão e ir disponibilizando tudo. Eu não queria ter nada guardado. Eu queria liberar tudo, sabe? Mas quando eu pensei isso, as pessoas diziam: “Ah, não pode porque é pesado e ninguém vai ter paciência!. Mas hoje em dia a coisa tá toda diferente, né?
Max Eluard – Se você não tem esse apego com a memória, o que te moveu a criar esse acervo tão gigantesco?
Ney Matogrosso –
Não sei, talvez eu tivesse alguma necessidade disso aí. Era uma coisa que eu não sabia nem o porquê, mas eu gostava. Começou da seguinte maneira: o que a gente fazia, a gente não via. Eu queria ver, eu queria ver pra entender, saber como é que é, o que eu tô fazendo. Na verdade, começou dessa maneira, eu precisava ver pra eu ter controle.
Raquel Zangrandi Querer fazer melhor…
Ney Matogrosso –
Controle, controle, sabe, é o controle!
Max Eluard – Havia esse olhar de ver o que se fez.
Ney Matogrosso –
Crítico, crítico.
Raquel Zangrandi Não tem a ver com a memória, tem a ver com a perfeição.
Ney Matogrosso –
É. E acabou que fiquei com esse material todo.
Raquel Zangrandi — Muito bem, serviu para a memória.
Ney Matogrosso –
Serviu para a memória…
Raquel Zangrandi Como é boa a perfeição.
Ney Matogrosso –
Imagina, o filme do Joel tem uma hora e quarenta!
Tacioli – Trezentas horas.
Raquel Zangrandi Mas dá pra ter muitos extras interessantes.
Ney Matogrosso –
Vamos fazer o seguinte: do resto do material, vamos fazer dez DVDs em ordem cronológica, de uma hora cada um, mas aí, claro, vai ter o toque artístico do Joel, que é muito interessante. A intenção é que seja cronológico.

Secos & Molhados: João Ricardo (esq.), Ney Matogrosso e Gerson Conrad. Foto: reprodução

Raquel Zangrandi Registro de shows e entrevistas?
Ney Matogrosso –
De shows e entrevistas, tudo referente a algumas épocas, né?
Raquel Zangrandi Que legal!
Ney Matogrosso –
Mas ainda vai sobrar material pra minha televisãozinha… [risos]
Wal Raizer Canal Matogrosso!
[n.e. O artista tem disponibilizado seus vídeos novos e antigos em seu canal no Youtube]
Ney Matogrosso –
É. E eu tenho muitos bilhetinhos e cartinhas.
Raquel Zangrandi Isso você tem guardado?
Ney Matogrosso –
Algumas coisas eu não tive a coragem de me desfazer. Mas olha a burrice que eu fiz um dia desses: peguei um desenho que o Siron Franco tinha feito de mim, desse tamaninho, e joguei fora.
Raquel Zangrandi Assim?
Ney Matogrosso –
De loucura! A primeira vez em que eu estive com ele, a gente estava numa mesa conversando. Aí ele começou a desenhar e me disse assim: “Oha você!”. Eu olhei e disse: “Nossa, Siron, você me vê dessa maneira?”. Porque era eu e da minha cabeça saía um pau. “Porra, Siron, mas eu não sou assim!” Não sei porque, há um ano, dois anos atrás, disse: “Vou jogar isso fora!” Olha que maluquice.
Max Eluard – Um ano, agora?
Ney Matogrosso –
É, dois anos atrás. Joguei fora! Pra que vou ficar guardando esse cara com essa piroca saindo da cabeça, sabe? [risos]
Raquel Zangrandi Depois vai para leilão (e rende) milhões…
Ney Matogrosso –
Sim, quando mais não fosse por ser um Siron Franco, não é isso?
Raquel Zangrandi Pelos dois motivos.
Ney Matogrosso –
Então, tenho bilhetinhos de Elis Regina, bilhetinhos do Gonzaguinha, coisas assim que tenho um apego sentimental.
Max Eluard – E você revisita de vez em quando?
Ney Matogrosso –
Não, não, eu tenho guardado, mas não sei nem onde está. Se eu quiser mostrar eu tenho que fuçar.
Wal Raizer Fazer uma garimpagem…
Max Eluard – Uma arqueologia.
Ney Matogrosso –
É, mas tá guardado. O que eu tinha muita coisa era de figurino, que está tudo no Senac agora, liberei tudo pra eles, tudo.
Raquel Zangrandi Como eles armazenam isso?
Ney Matogrosso –
Vai ser uma exposição permanente. Eles estão com mais de 300 peças minhas.
Raquel Zangrandi Uma exposição somente sobre você?
Ney Matogrosso –
Somente sobre meus figurinos. Vai começar agora. E eles não vão expor tudo de uma vez.
Raquel Zangrandi Aqui no Rio?
Ney Matogrosso –
Não, em São Paulo. Vai ser uma exposição permanente lá no Senac, porque lá é uma escola de moda, inclusive, né? [n.e. A exposição Cápsula do tempo: identidade e ruptura no vestir de Ney Matogrosso, inaugurada em 2013, contou com curadoria do carnavalesco Milton Cunha]
Raquel Zangrandi Sim, sim. A escola de moda do Senac tem em alguns lugares do Brasil.
Ney Matogrosso –
Pois é, então eles vão fazer uma exposição itinerante e na exposição permanente eles vão ficar trocando as peças, porque elas não podem ficar expostas direto. A luz acaba com elas.
Raquel Zangrandi Resseca o pano…
Ney Matogrosso –
Estão refazendo todas as minhas roupas de couro, que estavam duras. Eles estão deixando tudo macio como um tecido de novo.
Raquel Zangrandi De onde partiu essa ideia? Foi você que procurou o Senac?
Ney Matogrosso –
Não, não, eu fui lá participar de uma coisa numa semana de moda do Fashion Week. Fiz uma entrevista enorme lá; aí falei que tinha essas coisas, mas que era uma pena porque tudo estragando comigo, estava tudo aqui, num lugar quente, que batia sol. Aí, quando falei isso, as pessoas ficaram: “Não, Ney, pelo amor de Deus, não estraga isso, não acaba, não deixa acabar”. Aí eu fui conhecer o Senac, gostei da onda lá. Eles me mostraram a parte toda de moda. O que eles têm de figurinos! Coisas maravilhosas, tudo com o clima certo, a temperatura ambiente certa. Eu disse: “É aqui o lugar!”. Passei tudo pra eles. Ontem eu mandei pra eles o terno do Pescador de pérolas, que eu tinha esquecido de botar na mão deles. Mandei o terno inteirinho.
Wal Raizer Quantos figurinos?
Ney Matogrosso –
Olha, são vários figurinos inteiros e muitas peças avulsas. São 300 peças no total.
Wal Raizer Nossa, muito grande mesmo.
Ney Matogrosso –
Não tenho as botas nem os sapatos, que eu dei tudo pra grupos de teatro. Eu tinha botas, mas foi ficando uma quantidade de botas que eu não tinha onde enfiar, sabe? Aí eu dei tudo. Os figurinos do Secos & Molhados eu dei todos.
Raquel Zangrandi Como era aquele clipe de “América do Sul”, as penas lindas…?
Ney Matogrosso –
Não, aquela era couro, crina de cavalo, tudo que era de couro, apodreceu ou estragou.

Wal Raizer Mas nesse projeto da exposição, eles pretendem reconstruir alguns figurinos?
Ney Matogrosso –
Estão reconstituindo alguns.
Wal Raizer Mas desses que se perdeu, que eram de couro…?
Ney Matogrosso –
Olha, esse de crina de cavalo, não sei, porque para esse eu comprei o rabo inteiro, com o couro aberto, sem o osso. Era um rabo inteiro que vinha daqui até aqui, o braço…
Wal Raizer Devia ser pesado?
Ney Matogrosso –
Era pesado, mas era maravilhoso.
Raquel Zangrandi Um arraso.
Ney Matogrosso –
É. Era aquele cavalo do rabo castanho e aqui na cabeça era um rabo de cavalo preto. E aqui era uma parte só com crina negra de cavalo.
Raquel Zangrandi — E de onde você tirou essa ideia louca de se vestir de crina de cavalo?
Ney Matogrosso –
Eu queria fazer uma roupa de feiticeiro africano.
Raquel Zangrandi Parecia feiticeiro…
Ney Matogrosso –
Aqueles chifres do ombro, lembra disso?
Raquel Zangrandi Lembro.
Ney Matogrosso –
Aquilo tudo eu fazia pra me defender, porque eu sabia que estava no meio de uma loucura. E eu acredito nessas coisas, tá?
Max Eluard – O que, da energia, do estar sob muitos olhares?
Ney Matogrosso –
Sim, e que os chifres são para-raios, que são usados pelos feiticeiros na África. Essas coisas animais são usadas por feiticeiros africanos. Eu disse: “Se eles usam lá, eu vou usar cá!” Eu tinha dois chifres de carneiro enrolados aqui nos meus ombros, que eu fazia assim, eles ficavam em pé, como antenas. Aí eu largava assim e eles viraram asas.
Max Eluard – Dependendo da posição você defendia ou voava.
Ney Matogrosso –
É, ou voava!

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