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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

parte 9/15

Eu dava muito palpite na luz

Tacioli – Ney, quando a luz chegou pra você como recurso cênico, de trabalho?
Ney Matogrosso –
Olha…
Tacioli – Que relação você faz da luz com a sua história?
Ney Matogrosso –
Eu faço relação com a pintura, meu primeiro impulso artístico que meu pai vetou. Hoje eu sou iluminador porque eu tentei compensar o que eu não fazia aqui, tentei compensar visualmente dentro do espetáculo. Mas isso chegou na minha vida quando eu cheguei no Rio de Janeiro em 1970. Eu tinha um amigo que trabalhava na Sala Cecília Meireles. Aí eu perguntei pra ele: “Você não tem um emprego lá na Sala Cecília Meireles pra fazer qualquer coisa? Eu faço qualquer coisa, porque não sou especializado em nada”. A minha especialidade era aquela história lá de Brasília… “Olha, Ney, só tem de iluminador.” “Iluminador do quê?” “Iluminador de shows que têm lá.” “Mas o que o iluminador faz?” Aí eu fui lá ver. Só tinha um canhão (seguidor). Era a única coisa que tinha lá. Você tinha que ficar seguindo as pessoas (com a luz). Aí eu disse: “Ah, eu quero isso. Eu quero!” Aí o primeiro show que teve depois que virei o iluminador foi de um carioca que morreu muito cedo. Qual era o nome dele? Enfim, eram aqueles compositores…
Raquel Zangrandi Torquato?
Ney Matogrosso –
Não, não era o Torquato. Ele tocava, cantava, ele gravou discos. Era essa leva de compositores, Paulinho da Viola, sabe?! E eu fiquei ali, lá da minha cabine iluminando essas pessoas. “Olha que coisa boa, ainda tô assistindo um show!” [n.e. Possivelmente o artista citado por Ney seja Sidney Miller, importante compositor dos anos 1960 e 1970, com trânsito entre a MPB nascente e o samba. Lançou três discos: Sidney Miller (1967) e Brasil, do guarani ao guaraná (1968), ambos pela Elenco, e Línguas de fogo (1974), pela Som Livre. Suicidou-se em 1980, aos 36 anos de idade]
Raquel Zangrandi De camarote.
Ney Matogrosso –
Vendo essas pessoas que eu já gostei de cara. Ninguém era conhecido. E aí fiquei, fiz mais algumas vezes isso lá pra outras coisas. Depois, quando fui fazer teatro — fiz teatro profissionalmente antes do Secos & Molhados — aí a gente fazia tudo. Eu fiz muitos objetos de cena já que eu tinha um talento manual. A gente ficava lá criando junto com a diretora, porque era uma turma. Ficávamos dando palpite na luz, palpite em tudo.
Raquel Zangrandi Figurino também?
Ney Matogrosso –
Figurino também.

Além de assinar a luz e a direção de palco do show do LP “Revoluções por minuto” (1985), do RPM, Ney indicou a inclusão de “London, London”, de Caetano Veloso, no set list do espetáculo. O LP “Rádio Pirata ao vivo” (1986) vendeu cerca de 2,7 milhões de cópias. Foto: reprodução

Raquel Zangrandi A primeira calça do Secos & Molhados foi você que fez?
Ney Matogrosso – Sim, sim, sim. Eu fiz uma cabeça de touro de papel machê, sem nunca ter feito papel machê na minha vida. Mas eu fiz! O ator tinha que vestir uma cabeça de touro e eu fiz. Eu botei ele na minha frente, meti um molde de papelão pra ver quanto precisava do rosto dele liberado ali dentro daquilo, e depois eu fui fazendo uma cara de touro, com chifre, com orelhas e com os olhos. Furei aqui pra ele poder respirar. Eu fazia isso e aí essa coisa toda veio. E no Secos & Molhados eu dava muito palpite na luz. Não dava tempo de eu fazer (a luz), mas eu dava palpite. Até que um dia comecei a fazer a minha luz. Eu não assinava porque não achava que tinha que assinar luz. E ninguém estava interessado em saber quem tinha feito a luz, né? Até que um dia o Poladian — eu trabalhava com o Poladian nos anos 80 — me disse que ele queria uma banda de rock e se eu poderia indicar uma. [n.e. Com mais de 50 anos de carreira, o advogado Manoel Poladian é um dos principais agentes/empresários musicais do país. Foi responsável pela vinda de Sarah Vaughan ao Brasil nos anos 1970. Foi empresário de Ney por 18 anos]. Aí eu indiquei o RPM. “Você dirigiria e faria a luz?” “Olha, nunca fiz, mas faço se você me der carta branca, me der tudo que eu quiser, aí eu faço.” E eu fiz o RPM, a direção e a iluminação. E comecei a fazer.
Raquel Zangrandi E começou assinar?
Ney Matogrosso –
Aí eu fiz dois shows do Chico — Paratodos e o Cidades —, fiz dois da Simone, fiz um da Nana Caymmi, fiz um do Nelson Gonçalves, já tinha feito RPM, fiz o Cazuza. [n.e. Do ex-Barão Vermelho e ex-namorado Ney dirigiu em 1988 o show “O tempo não pára”]. E, mais recentemente, fiz a luz da Mart’nália e agora fiz a direção da Ana Cañas.
Tacioli – E essa trajetória como iluminador, esse percurso de construção do desenho da luz, tem momentos marcantes além desse com o Poladian?
Ney Matogrosso –
Não. Agora eu tenho um estilo de luz que é diferente dos iluminadores, porque ocupo os dois lados, então eu sei quais são as necessidades dos dois lados. A minha ênfase não é no ritmo, a minha ênfase é na letra. A letra é que me diz onde eu mudo a luz: até aqui é uma coisa e nessa palavra em diante tudo muda, a cena toda muda e tem esse movimento pra lá, tem isso pra cá. Então, sou diferente nesse sentido, porque a minha ênfase é naquilo que tá sendo falado, tanto nos meus (trabalhos), quanto nos que eu faço.
Tacioli – Do mesmo jeito que você tem uma atenção com o som, você observa a luz do dia a dia?
Ney Matogrosso –
Tenho! O tempo todo eu tô ligado com a luz do sol, nos lugares, com a claridade! Eu noto tudo. Um dia desses eu notei que dentro de uma mata escura tinha uma sombra minha no chão. Eu disse: “Não é que tem uma sombra minha nesse escuro aqui?” O sol estava se pondo, mas ainda tinha uma claridade pelo alto da floresta que provocava uma sombra minha andando naquele semiescuro, ainda não era treva, mas já era escuro, mas tinha um…
Max Eluard – Um lusco-fusco.
Ney Matogrosso –
É! Mas somente percebi porque eu sou ligado; ninguém tinha percebido até que eu falei: “Vem cá, gente, tem uma sombra ou tô ficando doido? Tô maluco? Tô vendo coisa que não existe?”. Aí, todo mundo prestou atenção e viu que tinha uma sombra andando, que era a nossa.
Tacioli – A luz já veio primeiro que (a concepção do) espetáculo, apesar de você ter dito que é a letra que dita (a iluminação)?
Ney Matogrosso –
Muitas coisas vêm juntas. Claro que depois eu desenvolvo, mas muitas ideias vêm juntas. Vem a ideia de figurino, vem a ideia de luz, vem a ideia de cena. Vem tudo assim! Quando eu tô pensando numa música, eu já sei qual é abertura do próximo show sem nem ter pegado no repertório ainda, já sei qual é a abertura, de que maneira vou chegar, o que vai acontecer.
Raquel Zangrandi Fica na cabeça ou você anota?
Ney Matogrosso –
Eu anoto, eu anoto.
Raquel Zangrandi Desenha, rabisca…
Ney Matogrosso –
Desenho, rabisco, desenho figurinos, mesmo que depois não seja (feito). Mas vem (a ideia), eu desenho e guardo.
Raquel Zangrandi Você guarda dos (espetáculos) anteriores? Você tem um acervo?
Ney Matogrosso –
Não, não, vou jogando fora!
Raquel Zangrandi É um belo portfólio.
Max Eluard – Não é memorialista.
Ney Matogrosso –
Não sou, não sou mesmo.
Raquel Zangrandi Mas isso tem seu valor artístico, esses rabiscos, estudos de shows.
Ney Matogrosso –
É. E muitas coisas viraram figurinos e outras não viraram. Cenários também. Vem umas ideias de cenário e eu ponho no papel.
Raquel Zangrandi Hoje você ainda costura ou arremata um negócio na mão?
Ney Matogrosso –
Se for preciso eu faço tudo, eu sei costurar. Eu já fiz roupa pra mim, eu fiz uma calça pra mim lá atrás, no tempo da pobreza mesmo. Eu queria uma calça branca e eu não tinha dinheiro pra comprar uma calça branca. Alguém me deu um tecido branco. Eu disse: “Vou fazer uma calça branca pra mim!”. Peguei uma calça jeans velha e desmanchei, botei em cima do pano branco, risquei, cortei e costurei a calça inteira na mão. Acabei com meus dedos, mas fiz a calça branca. [risos] É muito bom…
Raquel Zangrandi Habilidade manual?
Ney Matogrosso –
Com habilidade manual você não passa aperto. O que precisar eu sou capaz de fazer. Eu não sou um cozinheiro, mas eu não passo fome, eu sei fazer comida.
Raquel Zangrandi Arroz, feijão, você sabe fazer?
Ney Matogrosso –
Sei fazer arroz, feijão, sei fazer outras coisas e sou bom no tempero também, porque eu sou comedido, não exagero, sabe?
Raquel Zangrandi Você aprendeu alguma dessas coisas na infância?
Ney Matogrosso –
Não, eu aprendi na hora em que saí da minha casa e que precisei viver sozinho.
Tacioli – Mas qual é a especialidade da casa?
Ney Matogrosso –
Hoje em dia eu não garanto mais, mas houve uma época em que eu fazia um frango delicioso com creme de leite, não sei nem se se faz frango com creme de leite, mas eu fazia. E não era estrogonofe, porque era frango em pedaços. Eu cheguei num ponto em que as pessoas me pediam pra eu fazer na casa delas, mas eu nunca mais fiz, nunca mais fiz. Eu tenho uma cozinheira maravilhosa. Vou tirá-la da cozinha pra quê? [risos] Mas se for preciso eu faço.

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