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Entrevistas de música brasileira

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso por Caroline Bittencourt

Ney Matogrosso

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Do alto do jabuti

Foi uma conversa de meio de tarde, sexta-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Sem produtor ou assessor de imprensa no meio de campo, Ney Matogrosso foi quem respondeu os e-mails, abriu a porta de seu apartamento e deixou a equipe à vontade para entrevistá-lo. Parece bobeira nesse tempo em que todo mundo é familiar graças à Internet, mas Ney é um dos medalhões da MPB, o que sugere acesso com senhas, protocolos e não-me-toques. Não foi o caso. Aliás, essa ligação direta com o mundo em que vive e a autonomia de decidir o passo a ser dado sempre foram suas marcas. Em mais de 40 anos de carreira nunca ficou na mão de gênios de marketing ou de executivos de gravadoras.

Nascido em 1941 em Bela Vista, uma pequena cidade fronteiriça entre Mato Grosso do Sul e Paraguai, o menino Ney de Souza Pereira teve no pai militar a síntese de tudo o que não queria e o modelo de disciplina que o fez um artista exigente e de alta performance. Com o talento e a homossexualidade expostos em uma persona de rebolados, rosto pintado e figurinos extravagantes desafiou a cartilha da ditadura militar com seu sucesso nacional. Do sonho de ser ator, teatralizou a música e fez do palco o seu quintal. Lá não somente sobe para cantar, mas para assinar o roteiro, a luz e os costumes.

Em momentos diferentes, Salvador, Recife, Campo Grande, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo foram capítulos definidores de sua trajetória. Em cada uma das quatro primeiras, vivenciou a liberdade dos bichos, da mata e horizontes sem fim. Criança em Salvador, montava em jabuti e se deixava levar pela praia. Já adolescente em Campo Grande, em busca da liberdade que não havia em casa, correu para a mesma Aeronáutica de seu pai, transferindo-se para o Rio em 1959.

Ao desligar-se da caserna poucos anos depois, deu a maioridade para os hormônios e desejos, e partiu para a capital federal, onde carimbou a Carteira Profissional como técnico de laboratório de anatomia patológica e se iniciou nas fileiras do teatro. De volta à terra da bossa nova, vendeu artesanatos e tentou a vida de artista, que vinga somente em São Paulo onde se lançou em voo meteórico com os Secos & Molhados.

Do grupo formado em 1971 com João Ricardo e Gérson Conrad, Ney soube domar a exposição conquistada e definir o seu próprio rumo a partir de 1975, com shows e discos igualmente provocativos e exitosos e hits que povoaram rádios e programas de televisão naquela e na década seguinte (“Bandolero”, “Não existe pecado ao sul do Equador”, “Por debaixo dos panos”, “Vereda tropical”, “Sangue latino” e “Por que a gente é assim)”. Não à toa foi o artista preferido de Renato Aragão para suas paródias musicais no humorístico Os Trapalhões.

Sempre rigoroso com seu repertório, imprimiu outra leitura à sua carreira a partir de meados da década de 1980, quando pendurou temporariamente seus figurinos arejados e deixou a voz afinada em primeiro plano, como provam os camerísticos Pescador de pérolas (1986) e À flor da pele (1990, com o violonista Raphael Rabello). Gravou álbuns com obras de Cartola (Ney Matogrosso interpreta Cartola, 2002) e Chico Buarque (Um brasileiro, 1996), e peças eternizadas por Ângela Maria (Estava escrito, 1994) e Carmen Miranda (Batuque, 2001), a quem é devoto estético. Em sua extensa discografia, que caminha paralela aos registros de shows em DVD, ainda figuram Cazuza, Tonico & Tinoco, Celso Viáfora, Itamar Assumpção, Pedro Luís e Vitor Pirralho.

Esta entrevista de mais de duas horas percorreu os caminhos da infância, do esoterismo e de outras coisas do divino; flertou com a finitude, o perfeccionismo e o encantamento com a luz. Ao redor da mesa grande da sala de jantar ainda estavam as entrevistadoras convidadas Raquel Zangrandi e Wal Raizer, a fotógrafa Caroline Bittencourt e outro titular do Gafieiras, Max Eluard. E, sobre o casco do jabuti, o São Francisco da arca de Vinicius seguia (e segue) definindo o seu norte.

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