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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 8/10

O medo é uma coisa tão bonita

Gafieiras – Naná, havia um som que te aterrorizava na infância?
Naná Vasconcelos – Não, mas havia um som de sonoplastia dessas coisas. As novelas no rádio, Jerônimo, o herói do sertão; Jerônimo e o Moleque Saci; o programa Mistérios do além, que tinha um som que aterrorizava; e as lendas que o povo contava, em que apareciam muito essas coisas. A mula-sem-cabeça, a mulher do saci… Isso tem muito no Nordeste. Mas som, depende. Quando você faz essa mesma sonoridade que eu faço, às vezes, dependendo de como é o arranjo, do que vem antes, ela vira uma outra coisa, sabe? Porque música e cores variam de acordo com a personalidade de cada um. Por exemplo: [faz um som] isso é uma sexta-feira, chovendo, uma mulher de perto. Já para outros, isso é domingo, o sol… Mas medo é uma coisa tão bonita. Eu tenho medo, graças a Deus!
Gafieiras – Você tem medos antigos?
Naná Vasconcelos – Não, antigo, não. Já tive na minha infância, mas era uma coisa muito mais assim… espiritual. Eu sonhava, tinha uns pesadelos. Sonhava sempre que estava num lugar brincando e olhava pra trás e vinha aquela senhora gorda, negona. Eu tinha medo e saia correndo. Acordava o coração batendo. E passou um tempo. Meu pai falava para eu rezar, e eu rezava. Num sonho em que eu estava num determinado lugar, alguém veio por trás e me abraçou. Olhei e era ela. “Não, só queria te dar um abraço.” Aí nunca mais eu sonhei com ela.
Gafieiras – Você nunca descobriu quem era?
Naná Vasconcelos – Era uma entidade.
Gafieiras – Ela sempre quis dar um abraço e você tinha medo.
Naná Vasconcelos – Eu tinha medo da figura dela, enorme. Terminou assim; nunca mais ela veio.
Gafieiras – Então, nenhum medo dura até hoje?
Naná Vasconcelos – Não. Eu tenho um medo hoje, muito gostoso, que é aquele antes de entrar no palco de fora do meu país. Eu gosto porque esse medo é até eu entrar. Quando entro, pronto, passou. Passou assim, em termos, mas a partir do momento em que você vai tocando, em que você vai conquistando aquelas pessoas, trazendo-as para o que você quer, para ouvir o que você tem a dizer, as coisas mudam. Isso é importante. Acredito muito que a coisa tem que vir daqui, sabe, natural, corpo e alma. Sou assim; não brinco com música. Quando pego o instrumento que eu toco, acaba a distração. Mas é normal nos jazzistas: um pára, fuma e conversa, enquanto o outro faz um solo. Eu não aceito isso! Não faz parte do meu ser.

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