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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 7/10

Não era trovão. Era maracatu!

Gafieiras – Naná, a gente não falou da sua infância. Você parece um menino.
Naná Vasconcelos – Eu comecei a tocar muito cedo. Com 12 anos de idade eu já era músico profissional. Tocava num cabaré, numa boate. Era realmente criança naquela época. Eu tinha que ter autorização do Juizado de Menores. E não podia descer do palco. O músico tocava 45 minutos, parava pra pensar, pra namorar, e eu tinha que ficar lá em cima, no poleiro. A minha vida toda foi muito relacionada com música.
Gafieiras – Você já fazia música antes de saber que fazia música?
Naná Vasconcelos – Eu nunca quis fazer outra coisa.
Gafieiras – Que relação você tinha com o ambiente da sua casa?
Naná Vasconcelos – Tocava as panelas, tocava tudo. Chamava as outras crianças pra fazer um grupinho. A minha infância sempre foi assim. Eu tenho, voltando mais atrás, uma lembrança que é muito bonita pra mim… É engraçado, eu devia ter uns cinco anos. Foi muito forte! Eu estava no quarto deitado; eu e minha irmã. Minha irmã já estava dormindo e eu estava quase, quando chegou a amiga da minha mãe. “Petrolina!”, que é o nome da minha mãe. “Eles já estão dormindo?” Aí minha mãe disse: “Estão quase”. E eu, na minha cabeça de criança, já quase dormindo, ouvi esse comentário. Quando estava realmente pra dormir, ouvi um barulho, como de um trovão. Uma parte da tinha zinco e quando chovia fazia um barulho danado. A chuva, os pingos… Mas não estava chovendo; não era trovão, não! “É maracatu! Que maravilha!” O maracatu tem os alfaias, tambores graves, e aquela ressonância… Naquela época não havia muita poluição sonora e nem todo mundo tinha rádio. Aí, eu: “É maracatu!”. Minha mãe teve que me levar no ombro pra ver o maracatu de Dona Santa. E isso ficou gravado em mim. O som do maracatu é o som do trovão.
Gafieiras – Você fala inclusive isso na música pro Chico Science.
Naná Vasconcelos – É, e continuo e falo: “Olha, maracatu é trovão. Todo tambor transmite o som da terra”. São coisas que vêm da minha intuição. Olha, essa reportagem vai dar um livro. Quando vocês forem pra Hollywood não se esqueçam de mim, por favor. [risos]

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