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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 5/10

Asteroidicamente falando, o Glauber era muito veloz

Gafieiras – Naná, tem algum músico que te intriga? Ou há alguma música na qual você poderia jogar o seu molho ali?
Naná Vasconcelos – Não, não sei. Não quero mudar a música dos outros. Agora, claro que eu tenho o meu som. Tenho vontade de tocar com alguns músicos, de sentar e trabalhar. Já toquei com Yamandú [n.e. O violonista gaúcho Yamandú Costa], por exemplo. Maravilhoso, virtuoso, mas a gente nunca teve tempo de parar e de montar um negócio. A coisa mais difícil é a gente parar e “Vamos?!”.
Gafieiras – E a juventude, o que tem de bom?
Naná Vasconcelos – Eu acho que a juventude está bem sadia.
Gafieiras – Na sua juventude, o que ela tinha de diferente?
Naná Vasconcelos – Não havia tanta tecnologia. Havia mais poesia de vida. A criatividade era mais orgânica, as artes estavam mais juntas. Em um show de música, um artista plástico fazia o cenário e um poeta escrevia o programa; então, as artes estavam unidas. Isso era muito bonito.
Gafieiras – Com quem você convivia nessa época?
Naná Vasconcelos – Com tanta gente. O Milton, a Gal, o Hélio Oiticica, o Torquato Neto.
Gafieiras – Você também conheceu o povo de cinema, né?
Naná Vasconcelos – Eu morei com o Glauber Rocha dez meses em Nova York.
Gafieiras – Como era morar com o Glauber?
Naná Vasconcelos – O Glauber era de um intelecto sábio, uma pessoa de uma criatividade muito veloz e de um inconformismo… Tinha uma visão muito na frente. Era uma pessoa que dizia pra mim: “Biriba é pau, arte de São Jorge. Então, fica aí tocando”. Eu ficava tocando e ele escrevendo lá na mesa. E assim era a relação… Uma espécie, asteroidicamente falando [risos], muito veloz para o tempo em que vivíamos…
Gafieiras – Visionário.
Naná Vasconcelos – É, muito. E todo mundo ia beijar o pé do santo quando a gente morava lá. Passavam todos esses cineastas pra pedir ou ouvir o Glauber. Era um guru natural. “Olha, tem que fazer isso e isso”, e os caras, como o Bertolucci, ouviam. Conheci todo esse pessoal lá.
Gafieiras – E quando foi isso, Naná?
Naná Vasconcelos – Em 70. Aí depois eu parti pra um lado. Éramos três: Fabiano Canosa, Glauber e eu. Aí ele fez um filme chamado O berimbau. E, de repente, “Olha, estamos em Cannes”. “O quê?” “Está lá, sua música está lá”. “Como minha música?” “Botei a ‘Idade da Terra’”. Tirou do disco
Amazonas. Era assim…
Gafieiras – E o contato com ele se estendeu?
Naná Vasconcelos – Não, porque logo depois fui pra o mundo. Soube mais tarde que ele estava fazendo um programa de televisão aqui.

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