gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

NanaVasconcelos_940

Naná Vasconcelos

parte 4/10

O Jimi Hendrix e o Villa-Lobos são os meus ídolos,

Gafieiras – Você enxerga um forte poder político no seu trabalho, ainda que não seja panfletário ou em forma de discurso?
Naná Vasconcelos – Tem uma música, por falar nisso, que diz assim: “Uns com tanto, outros tanto com algum, mas a maioria sem nenhum”. Eu não sei… O business da política é uma coisa muito séria. A falta de vontade, a burrice intelectual e a arrogante ignorância fazem com que a gente fique bitolado, preso a um formato imposto. O que é gratificante é que as pessoas não são bobas, não; elas sabem. Eu passei todo esse tempo fora do Brasil e pensei “Poxa, ninguém gosta do que eu faço”. Mas não é assim, não. O pessoal não tem a oportunidade de ouvir. Ontem mesmo [n.e. Pocket-show de seu novo álbum na Livraria da Vila, em São Paulo] estive com pessoas que… “Rapaz, eu nunca tinha ouvido você tocar. Gostei, um barato!”. A pessoa foi lá por curiosidade e curtiu. “Eu não sabia que berimbau tinha esses sons todos.” Existem outras coisas que são brasileiras que não fazem parte dessa mesmice. A música e o músico têm uma energia natural para juntar as pessoas. Eu não propago, não vou propagar nada a não ser o conhecimento, a abertura para o intelecto, mostrar uma outra maneira de ver e de ouvir as coisas. Eu não tenho nada para provar. A minha preocupação é: o que eu passo é honesto comigo mesmo. Música e dignidade têm que andar juntas. Depois você tem “gosta ou não gosta”, mas aí já é outro capítulo.
Gafieiras – Naná, você sempre foi convidado e em tantas partes do mundo. Algum desses convites foi mais revelador?
Naná Vasconcelos – Claro, muitos. Eu e o Egberto foi um negócio incrível que o Brasil precisava ouvir, que nunca foi ouvido muito bem aqui. Foram dois universos, dois brasileiros totalmente diferentes. Um que vem dos conservatórios, do erudito; e um outro que vem da rua, tocando. Esse dois Brasis encontraram-se para mostrar uma música que o mundo e o Brasil não conhecem. Pus voz na música de Pat Metheny. Trabalhei com o Don Cherry, com o Colin Walcott, fui influenciado e influenciei. Chamavam a gente deaccoustic Pink Floyd. [risos] O Colin Walcott era uma coisa imprevisível; em termos criativos foi o trabalho que mais mexeu comigo, porque era livre. O Don Cherry era uma espécie de conservatório ambulante. O Colin foi roadie do Ravi Shankar e do Alla Rakha. Aprendeu a tocar cítara com o Ravi Shankar e tabla com o Alla Rakha. Ele se dedicava muito a conhecer músicas de outros continentes. Don Cherry é imprevisível, vem do mundo free jazz, com Nat Cole, John Coltrane, e conhecia muito a música da África, da Índia e de outros mundos. E isso me ajudou a ver a música como um todo.
Gafieiras  Você teve um mestre?
Naná Vasconcelos – Eu aprendi tudo sozinho. Nunca tive tempo de ter, mas tenho o maior respeito pelos mestres.
Gafieiras  E ídolos?
Naná Vasconcelos  Ídolos eu tenho. O Jimi Hendrix e o Villa-Lobos são os meus ídolos, minhas maiores influências.
Gafieiras  Como foi a primeira vez que você ouviu esses dois caras, Naná?
Naná Vasconcelos – O meu pai ouvia muito Villa-Lobos em casa.
Gafieiras  Não houve um primeiro impacto?
Naná Vasconcelos – Não, tinha o disco em casa. Mas o Jimi Hendrix eu procurava.
Gafieiras  Você gostava de rock ou gostava da experiência musical dele?
Naná Vasconcelos – Eu não entendia o que ele estava dizendo, não podia gostar sem entender o que ele estava falando. Eu gostava de uns que tinham personalidades. O Led Zeppelin tinha um timbre certo. Você ouvia e sabia que era o Led Zeppelin. O Zappa tinha o som. Os Beatles tinham a identidade. Rolling Stones… São coisas que estão na cara. Você escuta e “Esse é fulano!”. Mas a partir de Jimi Hendrix, você fica “O que é isso aí?”. Eu ia ao consulado americano ouvir e ver filmes de jazz. No rádio lá de casa, eu botava naA voz do Brasil. Tinha também The voices of America, que passava um programa de jazz que eu ouvia.
Gafieiras  E quando você fez aquela música para o Chico Science, você reconhecia nele uma coisa diferente?
Naná Vasconcelos – Eu reconheci nele o “Alerta mocidade, acorda quem dorme”. Ele foi o responsável por um grande movimento. Pegou o ritmo do maracatu e colocou em cima fórmulas de hip hop. Quando chegou lá fora, “O que é isso aí?”, não se parecia com nada. Coisa única aqui também.
Gafieiras  Você chegou a conviver com ele?
Naná Vasconcelos – As vezes que estive com o Chico foram no palco. Ele me chamava para subir. Fui em Nova York e ele, “O rei do guaiamum está por aqui!”. [risos] Aí eu subia no palco. Foi assim que eu conheci o Chico. Depois, aqui no Brasil, ele me deu seus óculos. Agora tem o Cordel do Fogo Encantado. Produzi o primeiro disco deles.

Tags
Naná Vasconcelos
de 10