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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 3/10

Com as crianças aprendi a me centralizar mais

Gafieiras  Naná, de onde veio o seu interesse em trabalhar com crianças?
Naná Vasconcelos  Eu fiz o primeiro disco, chamado Africadeus, lá em Paris. Aí um dia me convidaram pra ir num programa de televisão, num desses programas com crianças. Ia um doutor, uma autoridade da psiquiatria infantil da França. E me convidaram por causa dos sons que eu tirava. Eles iam falar sobre o sonho. E cheguei no estúdio do programa começar e as crianças já estavam lá sentadas esperando. Simplesmente toquei o berimbau. “Oh, mas o que é isso?” E o doutor, que estava observando, ficou louco! E como já estava lutando com o governo pra abrir um projeto da não-técnica, da não-musicoterapia, e queria uma pessoa livre, ele me convidou. A idéia dele era fantástica! “Mas eu não falo francês!”, eu disse. “Não precisa. Quero é o que você faz com a música.” Aí ele me explicou um pouco e foi assim… Fui e comecei a entender. Eu, não o músico, mas a música. E a música é a mais imediata das artes, porque mexe com os sentimentos, vai do silêncio ao grito. Uma criança para ficar alegre ou se acalmar ou toma um comprimido, uma injeção, ou ouve uma música. Havia eu, com música, e um pintor, que trabalhava com cerâmica… E foi aí que fui me agarrar mais ainda às minhas coisas, as coisas do Brasil. Falar da natureza, mostrar como eu fazia instrumentos com coisas que vinham de árvores. Aprendi isso com as crianças e também a me centralizar mais. Mostrei a elas, por meio da música, a respiração, o ouvir, a ficar em silêncio.
Gafieiras – E por quanto tempo manteve esse trabalho?
Naná Vasconcelos  Eu fiquei dois anos e meio trabalhando nessa clínica.
Gafieiras – E depois no Brasil, não?
Naná Vasconcelos – Aqui eu fiz muito pouco. Tenho um projeto itinerante chamado ABC Musical, que é um absurdo que não seja feito em todo o país. Cada estado nosso tem uma orquestra que é do estado ou do município; tem um teatro, que é do estado ou do município; e ainda tem as escolas públicas. É para fazer em todas as cidades do Brasil. Coloquei juntas três suítes de músicas folclóricas brasileiras. Cada canção da suíte vem de uma região. E o maestro Gil Jardim, que trabalhou comigo, abraçou essa idéia pra arranjar tudo pra a sinfônica. Numa cidade, visito as escolas públicas com crianças de sete a dez anos, que é uma idade ótima pra lidar com essas coisas. Aí começo a selecioná-las e fico com 700. Foi assim em São Paulo. Passei o pente fino pra ficar com 100, 120 crianças que cantavam. Não quero um coral. Se quisesse ia diretamente num coral. Mas é para a criança aprender sobre o Brasil por meio do folclore. Tem a música do amanhecer: [canta] “É de manhã, vou buscar minha fulô / A barra do dia vem, e o galo cocorocô / É de manhã, vou buscar minha fulô”. É da Bahia isso. “Iaiá vem ver, vem ver Iaiá / Iaiá vem ver a sereia lá no mar / Ó Iaiá vem, ver.” Então, quando mostro essas músicas para a criança, eu digo qual é sua origem; se tiver uma dança, eu mostro como é. Aí tem música da manhã, do dia, da tarde e da noite. No folclore tem toda essa coisa. E de todas regiões do Brasil. A criança aprende. “Você é de onde?” “Eu sou do Maranhão.” “Ah, sei uma música da sua terra.” Fui criança e na escola havia música, música orfeônica. Tinha que saber cantar os hinos todos, mas havia as canções também. [canta] “Vou me embora, vou me embora, prenda minha / Tenho muito que fazer…” Eu lá em Pernambuco canto uma música do Sul. Era uma coisa do Villa-Lobos, que na época colocava uma banda com 200 músicos e 40 mil crianças. Ele queria provar para o Getúlio Vargas que a música era mais forte que as armas.
Gafieiras – E o que mudou desde sua primeira experiência na França até o ABC musical?
Naná Vasconcelos – O processo é outro. Lá na França eram crianças em situações de psiquiatria. E aqui eu lido com crianças carentes, de escolas públicas. É outra história.
Gafieiras – Mas o que mudou nesse trabalho, desde o começo até agora?
Naná Vasconcelos – Eu acho que a minha relação com tudo. Estou me vendo uma pessoa diferente de como eu era. A minha relação com o mundo que eu vivo hoje. A minha relação com tudo. Hoje toco muito mais simples. Essa simplicidade vem das crianças e porque toco com músicos de toda parte do mundo. É sempre uma experiência entrar no universo do outros. Compor ritmos pra música folclórica da Noruega, que nunca teve percussão. Compor ritmos e ela continuar sendo norueguesa, e não virar brasileira. Isso fez eu ouvir bastante e entender que o lado esquerdo, como se diz, é diferente. Lá não tem passarinhos cantando todo tempo. Lá é gelo e pedra, mas tem coisas bonitas, como aurora boreal, o sol da meia-noite, sabe? A música deles tem muitas notas novas, então tive que simplificar. Usar o silêncio como sonoridade, como ritmo. É muito arriscado, mas vou aprendendo.

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