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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 2/10

O Villa-Lobos me mostrou a força visual da música

Gafieiras  Naná, como você percebeu que poderia ser um solista?
Naná Vasconcelos – Nunca fiz parte de nenhum grupo. Sempre fui convidado especial. Quando o Milton [Nascimento] criou o Som Imaginário, eu não participava, era somente convidado. “Não, não quero ficar agarrado a um determinado estilo. Um dia vou ter o meu negócio.” E foi lá fora que, viajando e tocando com o Gato Barbieri e com Ron Carter que descobri que tinha uma coisa. Eu tocava a música deles, fazia o meu trabalho de percussão para a música deles, e no meio do concerto, eles me davam dois, três minutos pra solar. Tudo isso se deve ao berimbau; é uma coisa que ninguém nunca tinha visto antes. “O que é aquilo, um cara com um arame, um pedaço de pau, e fazendo esses sons?” Aí tomei mais consciência e passei a montar um trabalho meu. Procurei músicos brasileiros que moravam em Paris. E era difícil, porque estava todo mundo fazendo o que era moda, que era bossa nova, e eu querendo ir lá pra cantar aboios, fazer um trabalho com o corpo. Era uma época de criação, de procurar formas diferentes. “Eu posso fazer o meu. Posso ser um solista. Mas como vou fazer com que um concerto de percussão seja musical?” E eu nunca pensei em cantar. Até hoje eu não penso em cantar. Uso a minha voz como outro instrumento, que também veio do berimbau. Então, fui me organizando. Engraçado, mas foi o Villa-Lobos, por meio do “Trenzinho caipira”, quem me mostrou que a música tem uma força visual muito grande. Ele constrói o trem e põe você na janela pra ver as paisagens do Brasil. Isso mexeu muito comigo. A música tem esse aspecto visual. Ao mesmo tempo em que trabalhava com crianças fora do Brasil, eu sentia necessidade de me agarrar às coisas que a gente não tem lá. As coisas naturais, de quem vem de países de trópicos, como o Brasil. Aí comecei a fazer instrumentos. O berimbau é um exemplo, porque a cabaça é uma fruta. Ela fechada já é um instrumento, porque tem as sementes. Quando você a corta, ela serve de caixa de ressonância pra muitos instrumentos, como a cítara e a tambura indianas. Então era importante eu falar pra essas crianças sobre a natureza. Isso eu falo agora com mais clareza, com mais consciência, mas foi um processo de aprendizagem, de evolução. Estou sempre aprendendo com as crianças. Cada vez mais a gente sabe menos. Pensando assim, eu nunca estou conformado. Acho muito importante também desenvolver a escuta, não ter medo do silêncio. Não esconder as suas raízes, porque foi isso que fez com que eu não perdesse a minha identidade. Se eu tenho alguma fama lá fora, foi porque não pareço com nada que é deles. Nunca quis ser eles. Descobri que eles não tinham o que eu tenho, não tinham o mesmo material, a minha miscigenação… O Brasil pode ser um fenômeno; muitas coisas vieram da África, mas hoje não se encontram mais porque os colonizadores acabaram com tudo. O ponto mais importante, nesse caso, é que o Brasil é o único país que deu essa coisa. O samba é um exemplo disso. A cuíca veio do Congo, mas o pandeiro dos ciganos. E ele é árabe. O africano diz: “Esse instrumento é africano, mas nunca vi tocado dessa maneira”. E foi o Jimi Hendrix quem revelou pra mim que os instrumentos não têm limitações. O que ele fez com a tecnologia existente naquela época, até hoje, com toda a tecnologia que existe, ninguém fez e faz. A sonoridade de músico, de quebrar as barreiras, de procurar, de aceitar, de encontrar. Enquanto os músicos de música moderna estavam procurando o silêncio, ele buscava a microfonia. Tudo isso fez parte dessa geração da qual pertenço. Foi um momento muito importante para o mundo.

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