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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 10/10

O pessoal do jazz está perdidíssimo

Gafieiras – E como foi o encontro com o Itamar?
Naná Vasconcelos – O encontro com o Itamar foi no estúdio, onde o conheci. Foi muito breve. Itamar foi muito rápido.
Gafieiras – Foi um encontro profissional?
Naná Vasconcelos – Não. Foi uma vontade de querer fazer aquilo mesmo. Foi vontade de conhecer o mundo dele. Foi o Zeca Baleiro quem nos colocou juntos. Conversando com o Zeca, lá em Recife, pessoa que eu admiro muito, ele disse: “Você conhece Itamar?”. “Rapaz, não conheço. Vi muito poucas vezes na minha vida.” Ele disse: “Pois é, ele está no hospital.” “Gostaria tanto de fazer um negócio com ele um dia desses.” Aí o Zeca foi falar com ele. Mais tarde, disse: “O homem já se levantou da cama!” [risos] E como eu já estava em São Paulo, fui encontrar o Itamar. Ele era assim: chegava no estúdio e dizia “Vamos gravar um negócio?”. Aí ele pegava o violão e [cantando] “E devagar com esse andor…”. “E agora?”, eu disse. “E agora é com você.” “Mas pra que lado?” [risos] Era bom pela velocidade da comunicação. Não tinha muito o que falar. Ele acreditava em mim, e eu acreditava nele. E como não havia nada ensaiado, tinha que ser criado ali, naquela hora. Ele dizia: “Bota mais uma vez pra eu ouvir”. E aí começávamos a gravar. Foi assim. E eu tinha gravado umas coisas minhas pra ele colocar a voz, mas ele pegou o ônibus primeiro. Convivi com ele muito pouco. Sempre muito elegante, umas roupas, sempre cercado de pessoas bonitas. É isso que eu posso falar dele. Rápido, muito rápido. Bom, e pra terminar?… [risos]
Gafieiras – Você falou de tecnologia e está havendo uma reconfiguração do cenário musical. Você imagina como as coisas vão estar daqui a dez anos?
Naná Vasconcelos – Sabe o que eu acho, rapaz? Tem muita coisa perdida aí. O pessoal do jazz está perdidíssimo, não sabe pra onde correr. Fica fazendo releitura dos anos 50, de Charlie Parker, vestindo-se como Charlie Parker. O que tem de bom nisso? Eles estão limpos, né? Sem crime, sem droga. Mas musicalmente não tem saída. Neguinho não sabe pra onde vai. Está numa crise…, mas quem sou eu pra falar isso? E as fórmulas estão cada vez mais se misturando; as coisas étnicas com as do pop. A eletrônica está trabalhando muito mais com o resultado. Agora de um lado é CD, do outro lado é DVD. A tecnologia não está influenciando muito mais, já foi a época em que influenciou na composição do músico, na música. Agora chegou a um ponto em que vai promover a volta do acústico.
Gafieiras – A cobra já mordeu o próprio rabo.
Naná Vasconcelos – É. Pegaram muita coisa rápida. De dois em dois meses saía uma coisa diferente, uma novidade, que agora já virou lugar-comum. Já não tem muita coisa nova em termos de som. Um guitarrista deve pegar essas condições da tecnologia e criar um timbre dele que não pareça com o do outro. É mais um trabalho do músico com essas possibilidades. E tudo está muito mais para o eletro-orgânico, para o eletroacústico, do que todo elétrico, porque o tecno está ficando cada vez mais orgânico.
Gafieiras – Naná, para encerrar. Hoje é dia de São Cosme e São Damião. Isso significa algo pra você?
Naná Vasconcelos – Graças a Deus! Já dei bombons para as crianças! Telefonei hoje de manhã: “Vá lá na casa de dona fulana…” No Nordeste tem muito isso, mais do que por aqui. Muitas festas de Cosme e Damião, o mês todo. Hoje é o dia mesmo, mas tem gente que vai continuar dando doces até o fim do mês. Quando vocês forem pra Hollywood, não se esqueçam de mim. [risos]

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