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Entrevistas de música brasileira

Naná Vasconcelos

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Naná Vasconcelos

parte 9/10

Fiz um concerto para berimbau e orquestra

Gafieiras – Naná, você falou da sua infância, que começou a trabalhar com 12 anos. Ela é motivo de orgulho?
Naná Vasconcelos – Eu fiquei sério muito cedo. No primeiro dia em que fui tocar no cabaré, juntamente com o meu pai, que era músico ele falou: “O que você vê lá, você deixa lá; não leva para casa”. Isso porque era um lugar noturno, onde o pessoal ia pra namorar as mulheres. E eu me lembro do primeiro dia em que fui. Onde a gente morava, os quatro irmãos homens dormiam num quarto. E quando voltei do cabaré pela primeira vez, estava todo mundo acordado, esperando pra saber como era. Aí eu disse: “Hum, hum”. [com sinal de negativo] E eu guardei… Tinha que mostrar ao velho o que eu queria; não ia perder isso por causa de besteira. E ele não viu eu tocar bateria, sabe? Foi embora cedo, muito cedo, o meu pai. Eu tocava manola e violão-tenor, e ele fazia arranjo para a orquestra. Escrevia rápido, escrevia bem.
Gafieiras – Você tem esse material do seu pai?
Naná Vasconcelos – Tenho algumas coisas. Na época se tocava muita música latina no Brasil. Muito bolero, cha-cha-cha. Muito Pedro Vargas, Xavier Cugat; época das big bands, Glenn Miller.
Gafieiras – Você já falou que os seus discos são somente registros das suas idéias. Olhando para esse compêndio, o que você vê?
Naná Vasconcelos – Eu vejo coisas que fiz, que acho que são muito importantes. Consegui fazer um concerto para berimbau e orquestra, sabe?! Saiu em 1979, 80. Então isso foi um grande gol. Isso me enche o peito. Eu consegui fazer!
Gafieiras – Tem bola na trave?
Naná Vasconcelos – Claro que tem. E como!
Gafieiras – Mas aí você prefere o silêncio?
Naná Vasconcelos – Não, não. Por exemplo, o Contaminação, que fiz sob encomenda para a M. Officer.
Gafieiras – A dedicação foi a mesma, Naná?
Naná Vasconcelos – Não, né? Foi encomendado. É diferente.
Gafieiras – Mas isso você absorve…
Naná Vasconcelos – Se fosse um disco meu, seria diferente. Tem coisas lindas ali, só que ele está mal mixado e masterizado. Penso em pegá-lo e dar uma revisada, afinal tem muita coisa interessante, como o “Quase choro” e o “Lágrimas”. Eu não tomei muito cuidado com a qualidade da gravação. Sou muito cuidadoso com as minhas coisas, com a qualidade do som. Não se admite, no mundo de hoje, fazer coisa que não tenha qualidade. Está tudo aí disponível, você tem tudo na mão…
Gafieiras – Mas, para você, a gravação do disco é um processo cirúrgico? Grava-se uma parte e outra, e depois junta-se tudo?
Naná Vasconcelos – Não, detesto estúdio. Eu estudo muito em casa. Faço a música de um filme em dois, três dias. Sou muito rápido em estúdio, porque trabalho muito, e quando chego lá já sei o que vou gravar primeiro e o que colocarei depois… Com os meus instrumentos está tudo claro, tecnicamente.

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de 10