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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

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Ná Ozzetti

parte 7/28

Quer algo mais paulistano que Titãs e Rita Lee?

Dafne – Ná, você falou agora do Rumo, de ser um negócio tipicamente paulistano, e toda sua carreira aconteceu em São Paulo. O que tem de bom e de ruim em ser tipicamente alguma coisa, no caso, paulistano?
Ná – Digo tipicamente paulistano porque a gente foi criada na cidade, e de certa forma, o trabalho representa crônicas da cidade. A gente fala da cidade. Agora, esteticamente, não consigo ter esse distanciamento pra saber porque é tipicamente paulistano. Onde está esse sotaque, né?
Almeida – Nem confrontando com outras referências?
Ná – Não. Somente do ponto de vista que a gente faz uma música urbana. Mas música pernambucana pode ser urbana também. Soteropolitana também é urbana, o axé é urbano. O choro ou alguma música mais tipicamente carioca é urbana também. Só que cada um tem o seu próprio sotaque. Então, não sei dizer, em relação a São Paulo, onde está esse sotaque. Onde que é, por que é diferente?
Dafne – Mas existe uma música paulistana…
Ná – Existe.
Dafne – Essa música paulistana é, ainda hoje, uma estranha pro resto do Brasil, tirando uma coisa ou outra. Não é uma música que estourou, sei lá, talvez por causa da Globo também, que é uma força muito grande de divulgação e é muito carioca…
Max – E antes, a Rádio Nacional.
Dafne – Rádio Nacional, exatamente, quando o Rio era capital. Então, fico pensando nisso, o que tem de bom e de ruim, pensando no Brasil, pensando no próprio trabalho e em sua divulgação?
Ná – Sempre senti muito orgulho desse trabalho, da minha carreira e da trajetória dos meus contemporâneos, porque o Rumo e o Itamar [Assumpção], de quem sempre fui fã, e de outros mais, porque fui cair ali com eles, na mesma época; sou da mesma geração. O Premê [Premeditando o Breque] e o Arrigo [Barnabé]. Começando a carreira naquele momento eu frequentava o show desses colegas; era o que achava mais legal. Depois o trabalho de cada um evoluiu pra um lado, mas sempre senti vontade de continuar fazendo uma ponte com essa minha geração. Achava importante isso, continuar seguindo uma linha em comunicação, em comunhão, com a minha geração. Tanto que, quando comecei a fazer composição, fui procurar o Luiz Tatit, e o Rumo nem estava junto mais. Fui procurar o Itamar [Assumpção] pra fazer parceria. Porque queria continuar junto deles. Então, sempre achei importante, e acho ainda, estabelecer essa ponte. Ao mesmo tempo em que buscava levar isso pro Brasil como intérprete, como criadora. Achava que esses artistas tinham que ter uma divulgação maior pelo Brasil. Isso foi o que norteou minha trajetória. Agora, por outro lado, vejo que tem alguns fenômenos musicais que o mercado absorve com mais facilidade que outros. Então, não é por ser de São Paulo… Quer algo mais paulistano que Titãs e Rita Lee, que são ícones nacionais? São super paulistanos. Aquelas letras do Arnaldo [Antunes] pros Titãs são uma sequência do Itamar [Assumpção] e do Rumo. Só que eles pegaram uma veia pop que tinha uma comunicação muito mais imediata com o grande público. Mesma coisa com os Mutantes, que era um rock’n’roll muito localizado aqui em São Paulo. Mas foi a Rita Lee, por meio de suas composições, que ganhou o Brasil. Então, vejo esse fenômeno acontecer no Brasil inteiro. Em Minas, por exemplo, teve o fenômeno do Clube da Esquina. Mas as gerações que vieram depois não tiveram a mesma expressão. Claro que se você ver o talento que surgiu ali no Clube da Esquina, realmente, mas não quer dizer que não estejam surgindo outros talentos no mesmo calibre. Em Minas e em todo lugar. Recife, por exemplo, veio à tona e trouxe uma geração com o movimento do mangue beat, com o Chico Science. Vejo acontecer esses fenômenos porque viajo muito fazendo shows pelo Brasil. Brasília tem uma efervescência muito grande. Acho uma loucura o Sul do Brasil. Acontece um fenômeno lá, principalmente no Rio Grande do Sul, em que artistas fazem muito sucesso, como o Nei Lisboa, e que pouca gente conhece do Sudeste pra cima. E o Nei Lisboa, lá no Rio Grande do Sul inteiro, é como se fosse o Roberto Carlos, entende? Isso acontece porque o país é muito grande. O problema não é São Paulo. Acho que é uma questão de você fazer uma linguagem que seja mercadológica naquele momento. Você pode até fazer algo que acha que é comercial, mas o mercado já está interessado em outra coisa. Como artista, que tem o foco na arte, eu não sei. Sou uma ignorante nesse assunto, assunto de “porque estourou, porque não estourou”. Não sei, não é o meu foco.
Dafne – Mas foi uma dificuldade pra você, na sua carreira, ser identificada fora de São Paulo como paulistana?
Ná – Não. No começo da minha carreira-solo, no início da década de 1990, havia uma coisa muito pejorativo por ser paulista. Isso me incomodava muito porque, claro, eu sou paulista. Mas acho que essa visão mudou… ou não mudou, porque acho que tenho mais é que ser chamada de cantora paulista. Sou uma cantora paulista mesmo, né? Não deixo de ser brasileira por causa disso, mas sou uma cantora paulista. Mas na época havia uma preocupação porque, como vinha do Rumo e estava começando uma carreira-solo, queria falar mais pro Brasil.

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